
Fortalecendo Vozes LGBTI+
Evento dedicado a discutir saúde pública, direitos humanos e redução de danos no contexto do uso sexualizado de substâncias (chemsex | sexo aditivado). O seminário busca desmistificar práticas, enfrentar estigmas e propor respostas coletivas que promovam cuidado, prazer e inclusão social de populações em maior vulnerabilidade.
O II Seminário Brasileiro de Redução de Danos no Uso Sexualizado de Substâncias (Chemsex | Sexo Aditivado) será realizado de 5 a 7 de dezembro de 2025, em São Paulo (SP). A iniciativa é promovida pelo Instituto Multiverso em parceria com Impulse-SP e com o apoio do Fundo Positivo e da Synapsis+.
O evento marca um ponto de encontro crucial para discutir práticas, políticas e estratégias de redução de danos no contexto do uso de substâncias (drogas) durante o sexo, respondendo à crescente necessidade de abordar o sexo aditivado (chemsex) sob a perspectiva da saúde pública, dos direitos humanos e da inclusão social. O objetivo é desmistificar o fenômeno e fornecer ferramentas para aprimorar o acolhimento, o cuidado e o suporte às pessoas que praticam.
O seminário propõe um espaço de escuta, diálogo e construção conjunta entre ciência, política e vivências, valorizando a diversidade de olhares sobre o uso sexualizado de substâncias. Busca compreender o chemsex não apenas como um fenômeno de risco, mas também como uma experiência humana complexa, atravessada por prazer, vulnerabilidade, estigma e desigualdades sociais.
A proposta é reunir profissionais da saúde, pesquisadores, gestores públicos, ativistas e pessoas com experiências diretas, fomentando um debate plural e ético sobre saúde integral e direitos humanos. O encontro será um ponto de convergência entre profissionais de saúde, ativistas, gestores, pesquisadores e pessoas LGBTQIAPN+, pessoas vivendo com HIV, trabalhadoras(es) sexuais, travestis, pessoas trans e outros grupos em situação de maior vulnerabilidade social, fortalecendo um diálogo sensível e baseado em evidências.
O evento nasce da urgência de debater o chemsex a partir de uma perspectiva de saúde pública e direitos humanos, enfrentando o moralismo, a desinformação e o estigma que ainda cercam o tema. Nesse sentido, o seminário reafirma o compromisso com o direito ao prazer, à autonomia e à saúde integral, princípios que orientam as políticas de redução de danos e o cuidado em liberdade.
Em um país onde as políticas sobre drogas ainda se sustentam em práticas repressivas e punitivas, este seminário se constitui também como um ato político e afirmativo. Um gesto de resistência e de promoção da vida, da liberdade e da diversidade.
Detalhando para você
A importância de um evento como esse
Em tempos de polarização e moralismos, o 2º Seminário Brasileiro sobre Chemsex reafirma a necessidade de falar sobre prazer, drogas e sexualidade de forma responsável, baseada em ciência e em direitos humanos. É um evento que aproxima saberes científicos e experiências comunitárias, impulsionando novas perspectivas sobre o cuidado, a prevenção e a saúde mental. O encontro se torna um espaço seguro para trocas sinceras sobre temas sensíveis, promovendo aprendizado mútuo, solidariedade e inspiração. Mais do que um evento técnico, o seminário é um convite a repensar o prazer e o cuidado como dimensões inseparáveis da saúde.
A metodologia do evento será dinâmica, participativa e interdisciplinar. A programação combina mesas de debate, apresentações, oficinas práticas, rodas de conversa e bate-papos interativos, criando um ambiente de troca horizontal e diálogo genuíno entre diferentes saberes. Além disso, o seminário contará com uma exposição de trabalhos científicos, acadêmicos e comunitários, valorizando tanto a pesquisa formal quanto as experiências de campo. Essa abordagem integradora busca promover uma vivência formativa e afetiva, na qual o conhecimento é construído coletivamente, com respeito, empatia e escuta ativa.
Metodologia
Temas centrais
O seminário abordará temas que atravessam o debate contemporâneo sobre o uso sexualizado de substâncias, saúde e direitos humanos, incluindo:
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Prazer, desejo e vulnerabilidade em contextos de chemsex;
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Saúde mental, autocuidado e estratégias de acolhimento;
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Estigma, discriminação e desafios do acesso aos serviços;
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Políticas públicas, redução de danos e cuidado comunitário;
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Convergências entre ciência, arte, tecnologia e afeto;
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Sexualidade, liberdade e direitos humanos como pilares de cuidado integral.
A logo do 2º Seminário Brasileiro sobre Chemsex une três elementos: a metade de uma lâmpada, a molécula da serotonina e a metade de um cérebro. A lâmpada representa as ideias e reflexões que emergem de um espaço de diálogo e aprendizado como o seminário; o cérebro remete à saúde mental e às dimensões cognitivas e emocionais envolvidas no uso sexualizado de substâncias; e a molécula de serotonina simboliza o prazer e a busca por bem-estar, que, quando desequilibrados, podem levar ao uso abusivo. Juntas, essas imagens sintetizam a proposta do evento: iluminar caminhos para compreender o prazer, cuidar da mente e promover a redução de danos como princípio de liberdade, empatia e transformação social.
A logomarca
Programação
TÍTULO
Cerimônia de abertura
CONVIDADOS(AS)
Instituto Multiverso (Pierre Freitaz)
APEOESP (Luciano dos Santos)
Associação Brasileira Multidisciplinar de Estudos sobre Drogas - ABRAMD (Myro Rolim)
Coordenadoria de IST/Aids da Cidade de São Paulo (Marcos Blumenfeld Deorato)
Ministério da Justiça e Segurança Pública - Senad (Nathielly Roberta Janutte)
Ministério da Saúde - Departamento de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas (Gabriella Boska)
Ministério da Saúde - Departamento de HIV, Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e Infecções Sexualmente Transmissíveis (Artur Kalichman)
USP Ribeirão Preto (Ana Paula Fernandes)
Centro de Referência e Treinamento do Estado de São Paulo - CRT-SP (Ivone de Paula)
Impulse-SP (Paulo Henrique Barão)
Fundo Positivo (Harley Henriques - vídeo)
DETALHES
Mesa de abertura do II Seminário Brasileiro sobre Chemsex, voltado à redução de danos no uso sexualizado de substâncias, organizado pelo Instituto Multiverso. Os participantes, que incluem representantes do Ministério da Saúde, Ministério da Justiça, Governo do Município e Estado de São Paulo, academia, e organizações não governamentais, destacam a importância de discutir o "chemsex" e o uso de drogas no contexto sexual como um problema de saúde pública que exige uma abordagem de redução de danos, direitos humanos e acolhimento. Vários oradores enfatizam a necessidade de políticas públicas mais amplas que envolvam a saúde mental, atenção primária e a sociedade civil para enfrentar a complexidade do tema, especialmente após a pandemia. A discussão também busca ampliar o entendimento do fenômeno para além do termo "chemsex," focando no uso sexualizado de substâncias de maneira geral, incluindo álcool, para atingir um público mais diverso.
TÍTULO
Redução de Danos como Políticas de Saúde. Desafios e Possibilidades para uma Política Nacional Humanizada
CONVIDADO
Fábio Mesquita
MODERADOR
Pierre Freitaz
DETALHES
Apresentação e discussão subsequente em um evento sobre políticas de saúde e redução de danos, focando no fenômeno do chemsex (uso de drogas em contextos sexuais). O orador principal, Fábio Mesquita, um médico com vasta experiência, compartilha um histórico detalhado de sua atuação pioneira na resposta à epidemia de HIV/aids em Santos, Brasil, destacando a criação de programas municipais inovadores, como a distribuição de seringas, e os desafios políticos e legais enfrentados. A discussão aborda a importância da colaboração entre governo, universidades e sociedade civil para a criação de políticas pragmáticas, ressaltando o crescimento do conservadorismo global como uma ameaça ao avanço da saúde pública. Os participantes discutem a necessidade de produzir evidências e diretrizes brasileiras específicas para o chemsex e de continuar a luta contra o alto custo de medicamentos, como a PrEP injetável, para garantir o acesso.
A história por trás de políticas de saúde pública cruciais, como as desenvolvidas durante o auge da epidemia de HIV/aids, raramente é uma linha reta. Pelo contrário, é um campo de batalha repleto de desafios inesperados, resistência chocante e aliados surpreendentes. Longe de ser um processo burocrático, a implementação de estratégias que salvaram vidas foi uma saga de coragem, pragmatismo e, por vezes, puro acaso. Este artigo revela cinco das lições mais impactantes e contraintuitivas dos primeiros dias da redução de danos no Brasil, contadas por um de seus pioneiros.
A reviravolta inesperada: Líderes conservadores defenderam a redução de danos
É comum associar políticas progressistas de saúde, como a redução de danos, exclusivamente a governos de esquerda. No entanto, a história mostra que o pragmatismo pode superar barreiras ideológicas. Algumas das iniciativas mais eficazes foram, surpreendentemente, apoiadas por figuras políticas conservadoras que entenderam a gravidade do problema e a necessidade de uma solução prática.
No Reino Unido, foi durante o governo de Margaret Thatcher que se implementaram "os melhores projetos de redução de danos no planeta Terra". No Brasil, um exemplo marcante foi o de Antônio Carlos Magalhães (ACM), um político "cara de direita", que apoiou o primeiro programa de redução de danos "tolerado" na Bahia. Da mesma forma, em São Paulo, foi Mário Covas (PSDB), um adversário político do governo da época, quem sancionou a lei estadual de distribuição de seringas em 1998. Esses casos demonstram que, diante de uma crise de saúde pública, a busca por soluções eficazes pode unir até os mais ferrenhos oponentes. Imagine, como reflete o pioneiro, "a gente imaginar hoje que o governador Tarcísio ia sancionar uma lei com a gente presente do lado dele fazendo foto... era mais ou menos essa situação política que a gente vivia na época."
O pioneiro acidental: Como uma obrigação se tornou uma causa
Nem toda jornada heroica começa com uma grande visão. Às vezes, ela nasce de uma simples impossibilidade de dizer "não". Foi o que aconteceu com um dos médicos pioneiros da redução de danos no Brasil. Nos anos 80, em Santos — cidade que as manchetes tratavam como a "capital da Aides no Brasil" — o hospital local estava completamente lotado e a situação era desesperadora. A diretora regional de saúde decidiu abrir um ambulatório para desafogar o sistema.
O medo e o desconhecimento sobre o HIV, porém, eram imensos. Para entender o clima, talvez seja útil a comparação com a pandemia recente: "quando a gente fala de COVID que também quando começou ninguém sabia nada, né? E no HIV naquela época quando começou ninguém sabia nada". Assim, todos os médicos mais velhos e experientes se recusaram a trabalhar no novo serviço. Como "o médico mais jovem concursado" da unidade, o narrador da história simplesmente não teve escolha. Ele teve que assumir a tarefa. É uma ironia impactante pensar que um dos movimentos mais importantes da saúde pública brasileira começou não com um idealista convicto, mas com um jovem doutor que "não pude dizer não" a uma missão que ninguém mais queria.
O preço da inovação: Ser processado como traficante de drogas
Inovar em saúde pública pode ter um custo altíssimo, inclusive a própria liberdade. Ao constatar que metade dos casos de HIV em Santos estava ligada ao uso de cocaína injetável, a equipe de saúde decidiu implementar a primeira política de distribuição de seringas limpas do país. A repercussão foi imediata e brutal. O médico, o secretário de saúde Davi Capistrano e a prefeita Telma de Souza foram todos processados criminalmente.
A acusação se baseava em uma lei da ditadura militar, de 1976, que definia como traficante qualquer pessoa que "auxiliasse o outros droga". A situação era tão absurda quanto perigosa.
"...o Ministério Público processou a gente e processou a gente com base na lei da ditadura... qualquer pessoa que auxiliasse o outros droga era traficante e eu fui processado como traficante..."
Surpreendentemente, a melhor defesa veio de uma instituição que o pioneiro acredita ser "impossível" que tomasse a mesma atitude hoje: o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo. Esse apoio foi fundamental e mostra o quão radical e arriscada era a luta por políticas de saúde baseadas em evidências naquela época.
A aliança improvável: Quando a Igreja acalmou um bairro em pânico
O preconceito é um dos maiores obstáculos para a saúde pública. Quando a prefeitura de Santos decidiu abrir uma casa de apoio para pessoas com HIV que haviam sido expulsas de suas famílias, a reação do bairro nobre escolhido ("bairro chique lá em san chamado Boqueirão") foi explosiva. "O rebu na vizinhança foi um negócio assim espetacular", relata o pioneiro. A comunidade de classe média alta entrou em pânico com a ideia de ter vizinhos vivendo com o vírus.
A solução encontrada pelo secretário de saúde, Davi Capistrano, foi tão brilhante quanto pragmática. Ele convidou o bispo da cidade, "que tinha um nome fantástico... Dom David Picão... tinha tudo a ver com a nossa história", para inaugurar e abençoar a casa. O gesto foi transformador. A presença e a bênção do líder da Igreja Católica, uma instituição de enorme peso, imediatamente acalmaram os ânimos e silenciaram a oposição. Essa história é um poderoso lembrete de que, para superar a ignorância e o medo, às vezes é preciso construir as alianças mais improváveis.
Um toque de nostalgia: Quando a oposição política era "uma maravilha"
A natureza do debate político mudou drasticamente no Brasil, e essa mudança tem um impacto direto na capacidade de implementar políticas públicas. O narrador reflete com uma certa nostalgia sobre os anos 90, quando a principal oposição ao seu trabalho vinha do PSDB. A diferença, segundo ele, era a possibilidade de diálogo.
"...naquela época gente a nossa oposição política era o PSDB olha só era uma maravilha a gente conseguia conversar sobre política né a gente conseguir discutir com o adversário..."
Essa lembrança contrasta fortemente com o cenário atual, marcado pela ascensão de um conservadorismo e uma extrema-direita que dificultam a conversa e a negociação. Naquela época, apesar das divergências, era possível encontrar terreno comum e aprovar leis cruciais com adversários políticos, como a lei de distribuição de seringas que o próprio governador Mário Covas, do PSDB, sancionou. A reflexão aponta para um desafio atual: como avançar com pautas de saúde baseadas em ciência em um clima político onde esse nível de cooperação pragmática se tornou quase inimaginável?
As Batalhas do Passado e as Lutas do Futuro
O progresso na saúde pública não é um caminho simples e linear, mas uma luta complexa, cheia de contratempos, inimigos ferozes e vitórias surpreendentes. As histórias dos pioneiros da redução de danos no Brasil não são apenas memórias de um tempo passado; são um manual de sobrevivência para os desafios de hoje. Elas nos oferecem lições cruciais sobre pragmatismo, resiliência e a importância de construir alianças amplas e, por vezes, inesperadas.
Diante dos desafios de hoje, quais lições do passado podemos usar para construir as alianças necessárias para defender a saúde pública para todos?
TÍTULO
Entre o Prazer e o Pânico. O que é Chemsex, Afinal?
CONVIDADOS(AS)
Allan Gomes de Lorena: Sanitarista e doutorando em Saúde Coletiva pela USP, com quase uma década dedicada à saúde sexual e à prevenção combinada. Com experiência direta em projetos voltados a cenas noturnas e ao uso de substâncias, incluindo consultoria no primeiro projeto de chemsex do Brasil, o ColocAção, do Instituto Multiverso, Allan traz ao Seminário um olhar crítico, afetuoso e comprometido com políticas públicas que dialogam com a vida real
Alvaro Lopes de Sousa: Pesquisador de Ribeirão Preto, investiga os impactos do chemsex na saúde de populações vulneráveis, trazendo ao debate uma visão crítica e comprometida com justiça social. Sua participação no seminário fortalece a construção de políticas públicas mais sensíveis, informadas e capazes de iluminar um tema ainda pouco enfrentado no país.
MODERADORES
Pierre Freitaz e Myro Rolim
DETALHES
Quando a palavra "chemsex" aparece em uma manchete, ela quase sempre vem acompanhada de um clima de pânico moral e perigo iminente. As histórias costumam focar nos riscos, nas overdoses e na associação com infecções sexualmente transmissíveis. Mas a realidade brasileira, discutida por especialistas que estão na linha de frente da pesquisa e do cuidado, é muito mais complexa, nuançada e reveladora sobre nossa sociedade do que os estereótipos sugerem. O debate vai muito além da droga ou do ato sexual, tocando em desigualdade, saúde mental, preconceito e na dificuldade do poder público em dialogar com a vida real das pessoas.
A definição global de "chemsex" não serve para o Brasil.
Um dos maiores obstáculos para entender o fenômeno no Brasil é a própria definição usada internacionalmente. Grandes pesquisas e revisões científicas globais definem "chemsex" de forma restrita, como o uso de quatro substâncias específicas: mefedrona, metanfetamina, GHB e poppers. O problema? Essa lista não reflete o padrão de uso no Brasil, onde outras drogas são muito mais comuns.
Essa rigidez classificatória tem uma consequência grave: ela efetivamente exclui o Brasil do debate científico global. Como as pesquisas locais não se encaixam no molde "eurocêntrico", a experiência brasileira se torna invisível. Essa invisibilidade nos dados globais dificulta o financiamento para pesquisas localizadas e o desenvolvimento de estratégias de saúde pública eficazes e culturalmente relevantes no Brasil. Como explica o pesquisador Alvaro Lopes de Sousa, essa rigidez tem um custo alto:
você não tem basicamente hoje uma revisão sistemática, que é o maior nível possível de evidência, que inclua o Brasil, porque aqui a gente não consegue incluir simplesmente essas quatro substâncias, que elas não representam a realidade do Brasil.
No Brasil, a prática tem outros nomes (e outras realidades): "Embrazar", "Colocação", "Ouvir o Tuin".
O ato de combinar sexo e substâncias não é uma exclusividade de um grupo ou classe social, mas ele assume nomes, lógicas e significados diferentes dependendo da comunidade. O termo "chemsex" pode ser comum em certos círculos, mas em outros, ele simplesmente não existe.
O sanitarista Allan Gomes de Lorena, que pesquisa a cultura funk, aponta exemplos concretos. No baile, um jovem pode dizer que vai "embrazar" ou que quer "ouvir o tuing" — uma referência ao efeito do lança-perfume associado a uma prática sexual. Entre trabalhadoras sexuais travestis, a linguagem é outra: a prática é chamada de "colocação".
Esses termos não são meros sinônimos. Eles revelam que a prática é atravessada por recortes de classe, raça e cultura. Ignorar essas diferentes realidades e tentar unificar tudo sob o rótulo importado de "chemsex" é apagar a complexidade e a especificidade das experiências vividas por diferentes comunidades no Brasil.
A linha que separa o prazer do problema não é a droga, mas a autonomia.
Uma das perguntas mais comuns é: quando o uso deixa de ser recreativo e se torna um problema? A resposta não está na substância utilizada ou na frequência, mas no conceito de autonomia.
Segundo Alvaro Lopes de Sousa, o uso pode ser uma ferramenta para ampliar o prazer, a conexão ou explorar a sexualidade. Nesse cenário, a pessoa está no controle. O problema surge quando esse jogo se inverte. A prática deixa de ser uma escolha e passa a ser uma condição. A pessoa começa a acreditar que o prazer ou a conexão só são possíveis daquela forma, tornando-se dependente daquela sensação específica. Nesse momento, o fenômeno "rouba a autonomia" do indivíduo. Como ele mesmo descreve, a linha é cruzada quando a prática começa a erodir a escolha pessoal:
o ponto de partida de entender essa diferença básica é que o chemsex é esse contínuo de experiências [...] A diferença entre o uso recreativo ou não é quando você começa a ter, não um melhoramento da autonomia que o chemsex proporciona, mas sim quando o fenômeno [...] rouba essa autonomia.
O foco obsessivo no HIV desvia o olhar da pessoa e da sua saúde mental.
A discussão pública sobre chemsex é quase sempre sequestrada pela pauta do HIV e outras ISTs. Embora a prevenção seja fundamental, focar a conversa exclusivamente nos agravos biológicos é uma armadilha perigosa.
Essa abordagem ignora a pergunta mais importante: por que uma pessoa busca essa prática? Quais são as dores, os sofrimentos, as ansiedades sexuais ou a busca por conexão que a levaram até ali? Ao reduzir tudo a um risco de infecção, desumanizamos o indivíduo e ignoramos sua saúde mental e seu contexto de vida. A discussão, como defende Alvaro, precisa ser ampliada para uma perspectiva de saúde integral:
quando eu coloco foco nesse agravo, eu tiro o foco da pessoa. Então temos que entender o que que tá acontecendo ali novamente. Quem é essa pessoa que está utilizando [...] e por que ela está fazendo aquilo.
Redução de danos também tem classe social: dos remédios de farmácia ao "negócio em formato de abacaxi".
A capacidade de reduzir os riscos associados ao uso de substâncias não é a mesma para todos. Ela é profundamente marcada pela desigualdade socioeconômica. Alvaro Lopes de Sousa descreve um abismo que separa as estratégias de autocuidado.
De um lado, usuários com mais renda e escolaridade adaptam suas práticas para minimizar riscos. Eles utilizam medicamentos controlados de farmácia, como o Venvanse e o Zolpidem, para obter os efeitos desejados com mais segurança. Outros, com conhecimento técnico, compram substâncias mais puras pela internet, em plataformas como o Mercado Livre, chegando a perguntar nos comentários sobre fórmulas químicas específicas: "Essa é a 14 butano de tarará? Essa é a puríssima?".
Do outro lado, populações mais pobres e periféricas consomem drogas de procedência e qualidade desconhecidas, o "abacaxi", como metaforicamente descrito, um comprimido cujo conteúdo é um mistério. Essas pessoas ficam expostas a riscos muito maiores, sem acesso à informação ou aos recursos financeiros para adotar estratégias mais seguras.
A resposta oficial não é só pânico, é "vergonha institucional".
Após uma fase inicial de "pânico moral", a postura das instituições públicas de saúde no Brasil evoluiu para algo diferente: uma "vergonha institucional" e uma notável "ausência no debate".
Allan Gomes de Lorena explica que os órgãos públicos reconhecem a importância do tema, mas evitam abordá-lo diretamente, seja por receio ou por pressões políticas. Com isso, a responsabilidade de discutir, acolher e criar estratégias de redução de danos é empurrada para a sociedade civil e o terceiro setor. Esse vácuo é agravado pelo que Myro Rolim, um dos moderadores do debate, identifica como um bloqueio político: o tema das drogas foi "leiloado" para setores conservadores no governo atual, o que impede qualquer avanço em políticas públicas baseadas em evidências. O silêncio não é por acaso; é um projeto.
E se a Pergunta Estiver Errada?
Analisar o debate sobre "chemsex" no Brasil é como olhar em um espelho que reflete nossas maiores fraturas sociais: a desigualdade, a dificuldade de falar sobre prazer e saúde mental, e a urgência de construir políticas de saúde mais humanas e menos punitivas.
As seis verdades acima mostram que o caminho não é o do pânico ou da condenação. Em vez de nos perguntarmos como proibir ou controlar, talvez a pergunta mais urgente seja outra: como podemos, como sociedade, passar da simples gestão de riscos para ativamente produzir cuidado? Um cuidado que responda às necessidades humanas de prazer, conexão e alívio do sofrimento, construindo caminhos mais seguros e acolhedores para todos.
TÍTULO
Sexo, Estigma e Silêncio: Por que Ninguém Fala Sobre Isso?
CONVIDADOS(AS)
Thiago Jerohan: Assessore de programas e projetos da ONG Gestos, ativista vivendo com HIV e atuante em direitos sexuais, prevenção combinada e redução de danos. Sua experiência articulando debates sobre fetiches, uso de drogas e cuidado integral amplia a escuta e fortalece a construção coletiva de perspectivas essenciais para o Seminário.
Celi Cavallari: Psicanalista e psicóloga, com trajetória extensa na saúde sexual, no uso de drogas e na redução de danos, Celi traz ao Seminário uma perspectiva histórica e crítica sobre políticas públicas, direitos humanos e sexualidade. Sua participação amplia o debate sobre chemsex ao conectar cuidado, gênero, tabus e práticas de redução de danos com profundidade e experiência.
Myro Rolim: Com ampla experiência como educador social e redutor de danos, atua na formação de profissionais e na articulação de políticas públicas que dialogam com o chemsex a partir do cuidado, dos direitos e da redução de danos. Sua participação no Seminário fortalece práticas mais seguras e coloca em pauta caminhos coletivos para serviços e territórios.
MODERADORES
João Geraldo Netto e Helio Neiva
DETALHES
Debate em mesa redonda focada em chemsex, sexualidade, uso de substâncias e estigma, com a participação de especialistas em psicanálise, psicologia, e ativistas de redução de danos e HIV. A discussão central gira em torno do silêncio social e institucional que cerca a tríade prazer, drogas e sexo, examinando se essa omissão é um mecanismo de defesa da sociedade ou uma falha estrutural, frequentemente impulsionada pelo moralismo e preconceito religioso. Os palestrantes exploram como essa falta de diálogo impacta a autonomia, o acesso a cuidados de saúde e a adesão ao tratamento para pessoas que vivem com HIV e que utilizam substâncias. O consenso emergente é que o caminho para quebrar esse silêncio é a construção de novas narrativas e a implementação de uma política de redução de danos de caráter insurgente, que enfrente o proibicionismo e garanta direitos e formação adequada aos profissionais de saúde.
Quebrando o Silêncio
Sexo, drogas e prazer. Juntas, essas palavras formam uma tríade capaz de gerar um silêncio ensurdecedor. Envolta em estigma e julgamento, essa dimensão fundamental da experiência humana é sistematicamente empurrada para as sombras. Mas este não é um silêncio passivo, um mero vazio de palavras. É um projeto político ativo, uma ferramenta de controle que serve a interesses ideológicos e morais. Então, a verdadeira questão não é por que não falamos sobre isso, mas sim: quem se beneficia desse silêncio e que poder ele sustenta?
Uma discussão aprofundada entre especialistas durante a mesa "Sexo, Estigma e Silêncio", no 2º Seminário Brasileiro de Redução de Danos no Uso Sexualizado de Substâncias, desmantelou a noção de que este é um tabu acidental. A conversa revelou o silêncio como o resultado de disputas de poder, narrativas históricas instrumentalizadas e falhas estruturais deliberadas. Longe de ser uma questão de vergonha individual, a mudez coletiva é uma arma em uma guerra cultural e política.
Este artigo explora os insights contundentes desse debate. Prepare-se para entender por que o "cuidado" é um campo de batalha, como o HIV foi transformado em um discurso contra a liberdade, e por que a superação do silêncio exige não apenas resistência, mas uma verdadeira insurgência política e narrativa.
O "Cuidado" Não é Neutro. É um Campo de Batalha Ideológico
A visão do cuidado em saúde como um campo técnico e objetivo é desmantelada pela análise do educador social Myro Rolim, que o redefine como um território em disputa ideológica. Essa batalha é travada por visões morais que limitam a produção de um atendimento eficaz e humano. O preconceito se infiltra na prática profissional como sintoma de uma realidade política, como ilustra o relato de um trabalhador da saúde: "Poxa, além de viado e ainda vai usar drogas". Este não é um caso isolado, mas a consequência de decisões deliberadas, como a "decisão política de não ter formação com os trabalhadores" em São Paulo, onde o termo "redução de danos" chegou a ser proibido em documentos oficiais. Entender o cuidado como uma disputa nos obriga a lutar ativamente por novas narrativas e tecnologias de cuidado baseadas em direitos, não em julgamentos.
O cuidado é um campo em disputa. O cuidado ele não é um campo pacificado. O cuidado não é neutro. O cuidado é uma construção ideológica.
Essa batalha ideológica no presente tem raízes históricas profundas, como demonstrou Thiago Jerohan ao analisar a instrumentalização da crise de HIV/AIDS.
O HIV Foi Usado Como Uma Arma Contra a Liberdade Sexual
Para compreender o estigma atual, é preciso voltar aos anos 80. O ativista Thiago Jerohan contextualiza como a crise da AIDS foi habilmente usada por um campo moralista para atacar os movimentos sociais que floresciam na época. A liberdade sexual, que ganhava força com o "movimento feminista... movimento LGBT... [e] o movimento negro", foi o alvo principal. A epidemia foi transformada em uma ferramenta de repressão, com uma mensagem implícita: a doença era a consequência moral do "desvio". Essa pressão forçou o movimento LGBT a recuar taticamente, trocando o discurso da liberdade sexual por pautas mais normativas, como o casamento igualitário, em uma busca por aceitação social.
A repressão externa, ao criar uma narrativa de doença como punição, encontra um poderoso aliado na repressão internalizada: a culpa.
A Culpa Vem Antes do "Pecado"
Da perspectiva psicanalítica, a culpa não é uma simples consequência de um ato. A psicanalista Celi Cavallari explica que, frequentemente, o sentimento de culpa antecede qualquer "delito". A questão não é moral, mas de "elaboração psíquica". Celi Cavallari argumenta que isso é uma consequência direta do proibicionismo. Quando a própria lei classifica o prazer como crime, o indivíduo internaliza um sentimento de transgressão antes mesmo de agir. O conflito deixa de ser uma falha de caráter pessoal e se torna um fardo psíquico imposto pelo Estado, uma barreira que impede a busca por cuidado e a própria fala.
Este fardo é frequentemente agravado por profissionais que, eles mesmos, são vítimas de um sistema que lhes nega as ferramentas para compreender e acolher.
A Falta de Formação dos Profissionais é Mais Crítica que a Linguagem Acadêmica
A crítica de que a "linguagem acadêmica" cria barreiras é comum, mas Myro Rolim aponta para um problema estrutural muito mais grave: a ausência de formação contínua para os trabalhadores da saúde. A precarização do trabalho, com jornadas exaustivas, impede que esses profissionais acessem novos saberes. Myro é enfático ao descrever essa realidade: "A gente não tem tempo de ler um artigo científico mano... Trabalhador psicóloga sabe muito bem, atua em dois, três serviços num dia". Ele ressalta, no entanto, que o problema não é a capacidade dos trabalhadores, citando o sucesso de equipes como o "consultório na rua" em traduzir conceitos complexos. A falha é sistêmica: a solução não é simplificar a linguagem, mas investir na capacitação de quem está na ponta.
A solução, portanto, passa por confiar tanto nos profissionais quanto na população, tratando-os como interlocutores capazes.
Para Falar Sobre o "Sensível", Precisamos Parar de Subestimar as Pessoas
A premissa de que temas como fetiches, gênero e consentimento são "complexos demais" para o público geral é um dos pilares que sustentam o silêncio. Thiago Jerohan contesta veementemente essa ideia, que subestima a inteligência das pessoas. Ele relata ter explicado o conceito de não-binariedade para um grupo de 50 idosos em uma única tarde, provando que o entendimento é possível quando a abordagem é honesta. A chave, segundo ele, é ter a coragem de abordar os temas com profundidade, contextualizando a construção histórica da moral em vez de oferecer respostas rasas. Para que a sociedade perca o medo, os especialistas e ativistas precisam primeiro perder o medo de falar.
pra gente conseguir fazer sociedade perder medo de discutir essas coisas a gente precisa perder o medo de falar sobre essas coisas mesmo e falar sério falar profundamente.
Da Resistência à Insurgência
Quebrar o pacto de silêncio sobre sexo, drogas e prazer exige muito mais do que a coragem de falar. Exige uma ofensiva política para disputar narrativas, desmantelar estigmas históricos e desafiar a culpa imposta pelo proibicionismo. A síntese dessa luta se encontra na fusão de duas ideias poderosas levantadas no debate. Primeiro, a convocação de Thiago Jerohan: "A gente tem que contar a nossa própria história", um chamado à autonomia narrativa para que outros não a contem de forma distorcida e patologizante. Segundo, a provocação de Myro Rolim de ir além da "resistência" para se tornar "insurgência" — uma força que não apenas reage, mas que disputa ativamente o poder. A insurgência, portanto, é o ato de contar a própria história em voz alta, transformando a vivência pessoal em uma ferramenta política para construir um futuro onde o cuidado seja um direito inegociável, e não um campo de batalha.
TÍTULO
Além da Clínica: Como Construir Redes de Cuidado entre Pares
CONVIDADOS(AS)
Betinho Pereira: Presidente do Projeto Bem-Me-Quer e referência em HIV/aids há 34 anos, traz ao Seminário uma trajetória marcada pela defesa de populações vulneráveis e pelo enfrentamento ao estigma. Sua experiência em prevenção, ativismo político e projetos ligados ao chemsex enriquece o debate e fortalece a construção coletiva de caminhos mais humanos e eficazes em saúde.
Anderson Reis: Com ampla atuação na saúde masculina e LGBT, Anderson Reis traz ao Seminário uma perspectiva construída entre hospital, comunidade e ações em festas e territórios urbanos da Bahia. Sua experiência une cuidado clínico, pesquisa e práticas de redução de danos, contribuindo para um debate que busca ampliar acesso, traduzir ciência e fortalecer respostas ao chemsex no Brasil.
Rafael Anjos: Psicólogo e pós-graduando em Neuropsicologia e Terapia de Casal e Familiar, com atuação clínica e organizacional em São Paulo. Seu interesse pelas interseções entre saúde mental, marginalização e estratégias de cuidado amplia o olhar do Seminário, trazendo perspectivas fundamentais para o debate interdisciplinar sobre o chemsex.
MODERADORES
Fabi Mesquita e Isadora Carvalho
DETALHES
Debate aprofundado entre ativistas, psicólogos e profissionais de saúde sobre a temática do cuidado entre pares, focando no contexto do HIV/Aids e, mais recentemente, do Chemsex (uso de substâncias psicoativas em contextos sexuais). Os participantes discutem a importância histórica da solidariedade e do apoio mútuo, que foi vital durante a epidemia de Aids nos anos 80 e 90, e exploram como esses modelos podem ser aplicados aos desafios contemporâneos do Chemsex, onde o estigma e o moralismo ainda dificultam a busca por ajuda. A conversa enfatiza a necessidade de linguagem acessível, afeto e o reconhecimento das vulnerabilidades, especialmente em populações marginalizadas, destacando que as redes de pares frequentemente assumem o papel de apoio que deveria ser oferecido pelo Estado. Por fim, os especialistas concordam que o afeto e o respeito são as ferramentas mais poderosas para combater a narrativa de punição e garantir que os usuários do Chemsex recebam cuidado.
O Cuidado Além dos Muros da Clínica
Falar sobre cuidado em contextos atravessados pelo estigma, como o uso de substâncias, é uma tarefa complexa. Muitas vezes, o debate fica restrito a protocolos técnicos, diagnósticos e à frieza dos consultórios. No entanto, a saúde real, aquela que acolhe, protege e transforma, raramente acontece nesses espaços. Ela floresce em redes de afeto, na solidariedade entre pares e na coragem de construir comunidade onde o sistema falha em chegar.
Recentemente, o 2º Seminário Brasileiro de Redução de Danos no Chemsex (SEBRACHEM) reuniu ativistas, pesquisadores e profissionais para debater exatamente isso: como construir redes de cuidado que vão além da clínica. As reflexões compartilhadas na mesa "ALÉM DA CLÍNICA. COMO CONSTRUIR REDES DE CUIDADO ENTRE PARES" foram um lembrete poderoso de que as ferramentas mais eficazes de cuidado são, na verdade, profundamente humanas. A seguir, exploramos as lições mais impactantes desse encontro sobre como o afeto e a escuta se tornam a mais potente política de saúde.
O Paradoxo da Solidariedade: Por que o Apoio Entre Pares no Chemsex é Mais Desafiador
A força da ajuda mútua, que foi fundamental na resposta à epidemia de HIV/Aids, encontra novos e complexos obstáculos no cenário do chemsex.
Betinho Pereira, ativista com 34 anos de experiência na luta contra o HIV/Aids, trouxe uma comparação reveladora. Ele relembrou que, nos anos 80 e 90, encontrar outra pessoa vivendo com HIV era um momento de alívio e conexão. Naquele mar de desinformação e preconceito, compartilhar a experiência era um ato libertador que fortalecia a comunidade.
Hoje, a realidade é diferente. O estigma associado ao uso de substâncias é tão intenso que o silêncio prevalece, mesmo entre pessoas que compartilham a mesma prática. Muitos usuários se escondem por medo do julgamento, não apenas da sociedade, mas de seus próprios pares. Betinho observa que, por conta disso, a busca por ajuda individualizada tem se tornado mais comum do que a participação em grupos de debate, desafiando o modelo clássico de autoajuda que salvou tantas vidas em outra época.
Isso demonstra que o primeiro ato político do cuidado é criar segurança, uma tarefa que se tornou paradoxalmente mais difícil mesmo com a evolução do nosso conhecimento médico.
A Família que Escolhemos: O Primeiro Passo é Desconstruir o que nos Ensinaram
A rede de afetos que escolhemos é um fator de proteção vital, mas exige a desconstrução de conceitos que aprendemos a vida toda.
Para muitas pessoas, especialmente na comunidade LGBTQIAPN+, a "família real" não é a de sangue, mas a rede de afetos escolhida ao longo da vida. Como apontado por Fabi Mesquita e Rafael Anjos, essa rede de amigos e parceiros atua como um fator de proteção essencial, um porto seguro contra a violência e a exclusão. No entanto, essa fortaleza pode ser abalada por dentro. O mesmo moralismo e julgamento que vêm de fora podem se infiltrar na comunidade, fazendo com que as pessoas se isolem por medo de não serem compreendidas justamente por quem mais importa.
Rafael Anjos destacou que as estruturas tradicionais e acadêmicas de "família" falham em representar a diversidade das configurações afetivas reais. Elas representam, na verdade, uma pequena minoria. Para ser um verdadeiro ponto de apoio para alguém, o primeiro e mais crucial passo é desconstruir os conceitos pré-concebidos que nos ensinaram sobre o que é uma família, um relacionamento ou uma rede de cuidado. É preciso abrir espaço para o que é, e não para o que deveria ser. Reconhecer e validar essas novas configurações familiares é, em si, uma política de afeto que combate o isolamento imposto por modelos ultrapassados.
O Excesso de Técnica e a Ausência de Afeto: Onde a Saúde Realmente Acontece
Nenhuma abordagem terapêutica funciona sem conexão humana; o afeto não é um complemento, mas a base de todo cuidado real.
Vivemos "tempos de excesso de técnicas e ausências de afetos". Essa reflexão do psicólogo Rafael Anjos é um diagnóstico preciso do estado atual de muitas práticas de saúde. Ele argumenta que, sem afeto, nenhuma abordagem terapêutica, por mais sofisticada que seja, pode funcionar. É o afeto que constrói as pontes, que gera a confiança necessária para que a pessoa se sinta segura para ser vulnerável. É o que transforma um atendimento em um encontro humano.
A ausência de afeto por parte de um profissional de saúde não é apenas um detalhe ou uma falha de "jeito", mas um erro fundamental no próprio ato de cuidar. Quando um profissional se esconde atrás de um jaleco ou de um protocolo, ele se distancia da única coisa que pode, de fato, promover a cura: a conexão com o outro.
Portanto, insistir no afeto como pré-requisito para o cuidado é um ato político contra a desumanização dos sistemas de saúde.
Nós Temos Voz, o que Falta é Escuta: A Arrogância de "Dar a Voz"
A arrogante ideia de "dar voz" ignora a verdadeira necessidade das comunidades: espaços onde suas vozes já existentes sejam de fato ouvidas.
O problema das comunidades marginalizadas nunca foi a falta de voz. O problema sempre foi a falta de escuta. Rafael Anjos compartilhou uma anedota poderosa sobre um seminário em que um palestrante insistia na importância de "dar voz" a uma comunidade. Uma pessoa da plateia o interrompeu para corrigir: voz, eles tinham de sobra; o que faltava era quem estivesse disposto a escutar de verdade.
Essa ideia foi complementada por Fabi Mesquita, que apontou a arrogância embutida na própria expressão "dar a voz". Ela parte do pressuposto de que o poder está com quem concede, e não com quem fala. A verdadeira mudança não vem de oferecer um microfone, mas de criar e sustentar espaços onde as vozes que já existem sejam ouvidas, valorizadas e, principalmente, levadas a sério pelas instituições e pela sociedade. A transformação começa quando a escuta se torna mais importante do que o discurso.
Transformar o ato de ouvir em uma prática política ativa é o que verdadeiramente redistribui o poder e valida a experiência de quem é historicamente silenciado.
O Asfalto Sabe Mais que o Consultório: A Falha do Sistema em Chegar Onde a Vida Acontece
O sistema de saúde formal falha quando sua linguagem e seus muros não alcançam os territórios onde a vida e as vulnerabilidades realmente acontecem.
Existe um abismo entre o sistema de saúde e a realidade vivida nas ruas, festas, aplicativos e periferias. Essa desconexão se manifesta de duas formas: uma barreira interna, dentro das próprias profissões, e uma falha externa, nas instituições. Anderson Reis, enfermeiro que atua em espaços comunitários na Bahia, ilustra a primeira ao relatar como é constantemente questionado por seus pares: "mas pera aí, esse é lugar para enfermeiro?". Essa resistência mostra como a própria academia e os conselhos profissionais podem limitar o cuidado ao se apegarem a ambientes estéreis e controlados, ignorando a necessidade de construir uma "relação de confiança" onde a vida pulsa.
Essa barreira interna é complementada pela falha institucional, como mostra o exemplo de Betinho Pereira sobre um grande CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) de São Paulo. Ao serem procurados para discutir o tema do chemsex, os profissionais admitiram abertamente sua falta de preparo.
Nós não estamos preparados para atender as populações que vêm com com o tema aqui em sexo a gente não sabe falar sobre metanfetamina.
Essa confissão revela uma falha estrutural gigantesca: o sistema não está chegando onde as pessoas estão. Essa dupla falha — a interna, dos profissionais, e a externa, das instituições — revela que a política de cuidado mais urgente é levar o saber para a rua e trazer o saber da rua para dentro do sistema.
Qual a Ferramenta Mais Poderosa?
Ao final do debate, ficou claro que as lições mais importantes não estavam em manuais ou protocolos, mas na sabedoria da vivência. As reflexões apontaram para uma verdade inescapável: o cuidado mais eficaz é político, afetivo e construído em comunidade. Ele exige que se derrubem os muros entre o saber técnico e o saber da experiência, entre o profissional e o par.
Questionados sobre qual seria a ferramenta mais poderosa para combater o estigma e a punição, a resposta coletiva dos palestrantes foi uníssona. Não se trata de uma única técnica ou política pública, mas de uma combinação de elementos fundamentalmente humanos: afeto, respeito, solidariedade e a compreensão radical de que o cuidado é sobre proteger o direito de cada pessoa à sua própria produção de vida, em toda sua complexa humanidade.
E na sua comunidade, como o afeto pode se transformar na mais potente política de cuidado?
TÍTULO
Travestis, Trabalhadoras(es) do Sexo e Chemsex: Visibilizar o que o estigma apaga
CONVIDADOS(AS)
Val Santos: Professora, educadora popular em saúde e redutora de danos há quase duas décadas, traz ao Seminário a força das ruas de Manaus e das trabalhadoras sexuais amazônicas. Sua experiência direta com populações vulnerabilizadas e seu olhar atento sobre o chemsex no Norte do país tornam sua participação essencial para ampliar estratégias e realidades pouco visíveis no debate nacional.
Marcelo Russo: Publicitário, produtor audiovisual e profissional do sexo, atua na conscientização sobre saúde sexual por meio das redes e de um documentário autoral. Morador do centro de São Paulo, ele reforça a importância de discutir o chemsex sem moralismos. Sua presença no Seminário amplia perspectivas e destaca narrativas fundamentais da comunidade queer.
Gabriela Andrade Feitosa: Criadora de conteúdo adulto e profissional do sexo, Gabriela traz ao Seminário uma perspectiva fundamental: a voz de quem vive a sexualidade como trabalho e expressão, rompendo estereótipos e ampliando o debate sobre autonomia, prazer e cuidado. Sua participação enriquece o evento ao trazer realidades diversas e necessárias para compreender o chemsex em múltiplos contextos.
MODERADORES
Fabi Mesquita e Thiago Jerohan
DETALHES
Painel de discussão focado nas vivências de travestis, profissionais do sexo e usuários de chemsex, abordando como o estigma social impacta suas vidas, saúde e trabalho. Os participantes, incluindo Val Santos, Marcelo Russo e Gabriela Andrade, compartilham suas experiências em diferentes contextos geográficos, como a realidade do Norte do Brasil em contraste com o Sudeste, destacando a variação no uso de substâncias e as vulnerabilidades enfrentadas. A discussão central gira em torno da intersecionalidade de gênero, corpo e sobrevivência, examinando como racismo, transfobia e a violência de Estado se somam ao estigma do uso de drogas. Um ponto crucial é a crítica à definição colonizadora de chemsex, que exclui mulheres e profissionais do sexo, além da importância da redução de danos e da criação de redes de cuidado comunitário para mitigar a violência e promover a autonomia. A conversa também enfatiza a necessidade de assumir a própria narrativa e transformar essas vivências em pautas para políticas públicas que garantam direitos e segurança.
Em um palco montado em São Paulo, durante o 2º Seminário Brasileiro de Redução de Danos no Uso Sexualizado de Substâncias, a mesa de debate "TRAVESTIS, TRABALHADORES DO SEXO E CHEMSEX. VISIBILIZAR O QUE O ESTIGMA APAGA" reuniu vozes que raramente encontram espaço para serem ouvidas com a devida profundidade. O encontro propôs um mergulho em narrativas que revelam tanto a violência quanto a potência de existências atravessadas pelo estigma, racismo e transfobia.
No centro da conversa estavam três figuras com trajetórias distintas, mas conectadas pela urgência de humanizar o debate. Val Santos, indígena, mestranda em pedagogia e educadora popular, trouxe a força e a realidade das ruas de Manaus. Marcelo Russo, publicitário que hoje atua com produção audiovisual documental e tem o trabalho sexual como sua principal atividade, compartilhou sua perspectiva sobre a luta contra o moralismo em São Paulo. E Gabriela Andrade, criadora de conteúdo adulto e profissional do sexo há mais de uma década, defendeu a autonomia e a importância de estabelecer limites. Juntos, eles não falaram sobre trabalhadoras e trabalhadores do sexo, mas a partir de suas próprias vivências, construindo um painel que vai muito além dos estereótipos para revelar histórias de resistência, solidariedade e cuidado mútuo.
Para dar visibilidade ao que o estigma apaga, é preciso primeiro derrubar a barreira mais imediata: o preconceito moralista que julga o uso de substâncias sem compreender os contextos que o motivam.
O Prisma do Preconceito: Duas Drogas, Dois Pesos
Marcelo Russo foi direto ao ponto ao desmascarar a hipocrisia social que envolve o uso de drogas. Para ele, o estigma não está na substância em si, mas em quem a utiliza. Ele ilustra essa disparidade com uma comparação contundente: enquanto um usuário em uma "festinha de sexo num bairro nobre" é visto como alguém envolvido em uma "prática fetichista", o "cracudo" que busca uma pedra na Cracolândia é tratado como um símbolo da "degradação humana".
A prática pode ser a mesma, o vício pode ser o mesmo, mas a percepção social é radicalmente diferente. Marcelo conclui que a raiz do julgamento é puramente classista. "A grande diferença tá no prisma que a gente inventou em separar", explica ele. "O filtro que a gente bota muitas vezes é moralista". A lição é clara: o estigma sobre drogas é, no final das contas, um estigma sobre pessoas.
Esse mesmo preconceito também apaga as diferentes realidades e motivações para o uso de substâncias no trabalho sexual, especialmente quando nos afastamos do eixo Rio-São Paulo para ouvir as vozes da Amazônia.
Sobrevivência Antes do Prazer: Realidades do Sexo com Substâncias
A perspectiva de Val Santos, vinda de Manaus, desconstrói radicalmente o próprio conceito de "chemsex". Ela o define como "extremamente colonizador", um termo que não apenas ignora a realidade amazônica, mas que ativamente apaga as mulheres de sua definição acadêmica, que o restringe a uma "prática de homens que fazem sexo com homens". Para as trabalhadoras sexuais na Amazônia — mulheres cis, travestis e trans, muitas delas meninas de "9 anos, 10 anos para cima" — o uso de substâncias raramente tem a ver com prazer. É uma ferramenta de sobrevivência.
É um sexo com substância "para ganhar dinheiro", diz Val, para suportar a dor de múltiplos clientes e as violências que vêm com eles. Para mulheres que sustentam suas famílias, que pensam "eu tenho cinco filhos... eu tenho que sustentar aqueles filhos", a lógica é brutal. Elas usam para aguentar. Uma jovem relata ter feito "30 programas hoje", uma jornada extenuante para garantir o sustento. A droga se torna um anestésico necessário, pois não há espaço para pensar na dor que virá no dia seguinte. "Não interessa a substância que eu vou usar", explica Val sobre a mentalidade imposta pela necessidade. "Eu me submeto a todo tipo de violência e outro dia, por exemplo, eu tô toda espancada, eu tô toda estuprada, mas eu tenho dinheiro para levar para ter meus filhos comerem".
A tabela abaixo, baseada no relato de Val, resume o abismo entre as duas realidades:
Característica | Conceito "Chemsex" (Eixo Rio-SP) | Realidade Amazônica (Manaus) |
Motivação Principal | Prazer e diversão | Sobrevivência: "para ganhar dinheiro", "para não ter... dor", sustentar a família |
Substâncias Comuns | Drogas sintéticas importadas (ex: Tina) | Cocaína, álcool ("corote"), maconha |
Contexto de Uso | Classe média, festas | Vulnerabilidade, exploração infantil, trabalho de rua, necessidade econômica |
A pressão econômica também reverbera na experiência de Marcelo em São Paulo, que descreve o dilema constante: "pagar o boleto do condomínio ou eu vou virar madrugada com esse cliente aqui usando a droga que ele quer". Para Val, a conclusão é taxativa: as substâncias são usadas para "minimizar todas as violências que elas passam".
Diante dessa realidade de violência e da ausência do Estado, são as próprias comunidades que, de forma organizada e instintiva, criam suas redes de proteção.
"Uma Protege a Outra": Estratégias Comunitárias de Cuidado e Resistência
Como afirma Val, a dura realidade é que "a violência do estado chega primeiro" que o cuidado. Essa ausência forçou a criação de redes de apoio comunitárias, onde a proteção mútua se tornou a principal ferramenta de sobrevivência. A urgência dessas estratégias é visceral, marcada pela memória da perda. "Eu tive uma irmã trans trabalhadora sexual que foi morta pelo sistema", conta Val, dando um rosto à tragédia que acontece quando essas redes falham. São táticas nascidas da rua, baseadas na confiança, que funcionam como um sistema de redução de danos criado por e para as trabalhadoras.
Entre as principais estratégias, destacam-se:
Códigos de Alerta: O uso de linguagens próprias do território, como "lá vem a chuva", para avisar sobre a chegada da polícia e evitar uma abordagem violenta.
Segurança Compartilhada: Práticas simples, mas eficazes, como uma amiga anotar a placa do carro de um cliente antes da outra sair. Esse pequeno ato cria um registro e um senso de responsabilidade coletiva.
Alianças no Território: A negociação com donos de bares, boates e motéis para transformar esses locais em refúgios. As trabalhadoras oferecem materiais de prevenção e, em troca, ganham um espaço seguro para onde podem correr em caso de perigo.
Redução de Danos na Prática: Aconselhamentos diretos e pragmáticos, como orientar a compra de substâncias de um fornecedor confiável, testar doses menores para avaliar o produto e usar lenços umedecidos para a higiene quando não há acesso a banheiros, promovendo cuidado em meio à precariedade.
Essas estratégias de cuidado coletivo se somam a atos individuais de afirmação, num movimento poderoso para reivindicar a própria identidade e ressignificar a narrativa em torno do trabalho sexual.
"Eu Sou Puta": Ressignificando a Identidade e a Narrativa
Marcelo Russo conta como sua perspectiva mudou radicalmente ao ouvir, pela primeira vez, um colega de profissão se apresentar com orgulho: "sou puta". A naturalidade e a ausência de vergonha naquela afirmação o inspiraram a valorizar seu próprio trabalho não como um subemprego, mas como uma atividade digna. Essa mudança o levou a uma nova precificação do seu próprio valor, pois, como ele explica, "ser puta me fez dar muito mais valor pros meus outros trabalhos porque agora que eu cobro por hora eu sei muito bem dar valor a meia hora de publicitário, a meia hora de design, a meia hora de ilustrador".
Essa apropriação da identidade também passa pela imposição de limites, como destaca Gabriela. Sua postura é de uma autonomia inegociável. "Eu não atendo pessoas que oferecem qualquer tipo de coisa", afirma, estabelecendo uma fronteira profissional clara para manter o controle sobre seu corpo e seu trabalho. A capacidade de dizer "não" é fundamental para preservar a própria segurança e bem-estar.
Marcelo vai além e redefine seu papel, enxergando seu trabalho como uma forma de "terapia sexual". Para ele, o objetivo transcende o ganho financeiro; trata-se de criar "um lugar menos pesado, menos doloroso" para o cliente, transformando um encontro em um espaço de acolhimento e reflexão.
No entanto, essas vozes e estratégias, por mais potentes que sejam, não podem ficar restritas à comunidade. Elas precisam ecoar e se transformar em ação política e direitos garantidos.
Da Rua à Política Pública, Um Chamado por Direitos
A mensagem que emerge do debate é inequívoca: na ausência de um Estado que cuida, trabalhadoras e trabalhadores do sexo desenvolvem sofisticados sistemas de apoio. Agora, o passo mais urgente é que o Estado e a sociedade finalmente se disponham a ouvir essas vozes e transformar suas experiências em políticas públicas eficazes e humanas — uma necessidade nascida do trauma e da resiliência.
As propostas apresentadas pelos participantes apontam um caminho claro e urgente:
Falar abertamente: A mudança começa com o fim do tabu. Nas palavras diretas de Val, é preciso "falar mais sobre sexo, falar mais sobre gozar, falar mais sobre dar o cu, dar o priquito". A comunicação honesta é a principal ferramenta contra o estigma.
Circular Informação: Assim como as substâncias circulam, a informação sobre saúde e redução de danos também precisa chegar a todos. "As informações também têm que estar circulando", defende Val.
Reconhecer Direitos: O trabalho sexual precisa ser tratado como um direito. As políticas públicas devem ser desenhadas para alcançar essa população com dignidade, e não apenas com repressão.
Educar Clientes e Profissionais: A sensibilização não pode se restringir aos trabalhadores do sexo. É fundamental levar informação aos clientes e capacitar profissionais de saúde para que o cuidado seja oferecido de forma efetiva e livre de preconceitos.
As narrativas de Val, Marcelo e Gabriela são um chamado à ação. Elas nos lembram que por trás de cada estigma existe uma vida que pulsa, resiste e luta por dignidade. Ouvir essas histórias não é apenas um ato de empatia, mas um passo essencial para a construção de políticas que, em vez de apagar, finalmente visibilizem e protejam.
TÍTULO
Corpo em Transe: Como o chemsex afeta o organismo em curto e longo prazos
CONVIDADOS(AS)
Reynaldo Estevez: Médico psiquiatra, especialista em farmacogenética, psicofarmacologia avançada e dependência química, com atuação clínica e voluntária voltada à população LGBTQIAPN+. Sua experiência em saúde mental, sexualidade e uso de substâncias fortalece o debate técnico do Seminário, contribuindo para desmontar estigmas e ampliar caminhos de cuidado e compreensão sobre o chemsex.
Uno Vulpo: Médico e criador de uma plataforma inovadora sobre redução de danos e sexualidade, reconhecida pelo conteúdo acessível e bem-humorado. Atuando também na rede Sampa Trans e no processo transsexualizador do SUS, traz ao Seminário uma visão prática, crítica e profundamente conectada às vivências das pessoas que vivem o chemsex.
Renan Ormenese: Psicólogo especializado em Fenomenologia e Saúde Mental, com trajetória marcada pelo cuidado em territórios, vínculos e práticas coletivas. Sua atuação clínica, orientada pela diversidade dos modos de existir e pela redução de danos, enriquece o Seminário ao aproximar sexualidade, uso de substâncias e saúde mental com rigor ético, sensibilidade e perspectiva não moralizante.
MODERADORES
Alvaro Sousa e Pierre Freitaz
DETALHES
Mesa de debate, realizada no 2º SEBRACHEM. Os participantes, incluindo um psiquiatra, um médico e criador de conteúdo, e um psicólogo, discutem os impactos do chemsex (uso sexualizado de substâncias) nos níveis físico, sensorial e neurológico. O debate cobre a psicofarmacologia de substâncias como cocaína, metanfetamina, cetamina e GHB, explicando seus efeitos no sistema nervoso central, bem como os riscos de dependência e as mudanças na percepção corporal durante o uso. Além disso, a conversa aborda a importância da redução de danos, a responsabilidade individual, as interações medicamentosas (incluindo antirretrovirais e terapia hormonal em pessoas trans), e a necessidade de apoio e cuidado para lidar com os danos agudos e crônicos do uso de substâncias.
A vida moderna é uma busca incessante por intensidade – em nossas carreiras, em nossas paixões e, para muitos, em nossa intimidade. Um dos caminhos explorados nesse percurso, o uso sexualizado de substâncias — conhecido como chemsex —, é um fenômeno complexo que vai muito além da festa. Para desvendar suas camadas mais profundas, um painel de especialistas se reuniu no 2º Seminário Brasileiro de Redução de Danos no Uso Sexualizado de Substâncias (Chemsex | Sexo Aditivado). Este artigo destila os insights mais impactantes de médicos e psicólogos para revelar como essas práticas afetam, de maneiras surpreendentes, o corpo e a mente.
O Pico de Prazer é 80 Vezes Mais Intenso que o Natural (e Isso Explica Muita Coisa)
No centro do nosso cérebro existe uma área responsável pelo prazer. O psiquiatra Reinaldo Esteves explica que estímulos naturais, como ouvir uma música que você ama ou comer algo delicioso, ativam essa via em uma proporção que podemos chamar de "uma vez". No entanto, quando substâncias estimulantes como cocaína ou metanfetamina entram em cena, essa mesma via é ativada em uma proporção 80 vezes maior.
Essa verdadeira "tempestade" de dopamina e noradrenalina explica por que a experiência é tão potente. Ao mesmo tempo, cria um caminho facilitador para a dependência. Isso recalibra o que o cérebro entende como "prazeroso", tornando a alegria de uma conversa ou o sabor de uma refeição favorita quimicamente pálidos em comparação. Qualquer prazer gerado pelo próprio corpo (endógeno) parece incomparavelmente menor depois de um estímulo tão avassalador.
"...com essas substâncias a gente tem uma essa tempestade que você colocou de noradrenalina e dopamina e essa mesma via que a gente consegue estimular endogenamente ela é estimulada 80 vezes então é uma proporção assim muito diferente é uma mudança muito gritante do estímulo de prazer."
A Mesma Droga, Efeitos Diferentes: Por que seu Corpo Não Reage como o dos Outros
É uma ideia contraintuitiva, mas não existe uma experiência universal com uma substância. Reinaldo Esteves esclarece que a chave para essa variação está em uma combinação de fatores, começando pelo metabolismo individual. Nossos corpos processam substâncias de maneiras drasticamente diferentes, que podem ser classificadas em:
Metabolizadores lentos: Usam uma quantidade menor da substância e o efeito dura muito mais tempo no organismo.
Metabolizadores normais: O corpo processa a substância dentro do tempo esperado pela ciência.
Metabolizadores rápidos ou ultrarrápidos: A substância fica pouquíssimo tempo no organismo, o que leva a pessoa a precisar de mais doses para manter o efeito desejado.
A essa variação biológica somam-se a pureza desconhecida da substância e o histórico de uso de cada um. Mas, como aponta o médico Uno Vulpo, existe uma quarta variável crucial: o contexto. O ambiente, as pessoas envolvidas e a situação emocional modulam profundamente a experiência. Por tudo isso, a busca por uma "vibe" coletiva e igualitária — aquela em que a droga "bate em todo mundo ao mesmo tempo" — é uma meta irreal e potencialmente perigosa.
Você Nunca Mais Sentirá o Efeito da Primeira Vez (e é Perigoso Tentar)
O sistema nervoso humano é plástico, ou seja, ele se molda e se adapta. Segundo Reinaldo Esteves, é exatamente essa capacidade de adaptação que explica o fenômeno da tolerância. Com o uso repetido, o corpo se acostuma com a presença da substância, exigindo doses cada vez maiores para alcançar um efeito que, mesmo assim, será proporcionalmente menor ao inicial. A euforia original se torna, literalmente, inalcançável.
"a primeira vez que eu usei cocaína nossa eu nunca mais alcancei aquele efeito daquela primeira vez de fato não vai se alcançar nem aumentando a dose..."
Essa perseguição frustrada do "primeiro high" é um dos principais motores do uso abusivo. Ela leva a um consumo crescente de substâncias em uma tentativa de replicar uma experiência passada que a biologia do corpo já tornou impossível, aumentando drasticamente os riscos associados. Mas se a busca pelo prazer é uma corrida biológica de retornos decrescentes, para algumas comunidades a linha de partida é completamente diferente. Não se trata de prazer, mas de sobrevivência.
Para Muitas Pessoas Trans, o Uso de Substâncias Não é Diversão, é Sobrevivência
Enquanto as seções anteriores exploram a neuroquímica do prazer, a fala do médico Uno Vulpo nos força a confrontar uma realidade onde essa química é secundária. Aqui, a substância não é um amplificador de desejo, mas uma ferramenta de trabalho imposta pela violência e pela necessidade econômica. Ele destaca que, para muitas mulheres trans que são profissionais do sexo, o uso de substâncias não é uma escolha recreativa.
Nesse contexto, a droga se torna uma ferramenta quase compulsória. Frequentemente, o uso de cocaína ou outras substâncias é uma "demanda" imposta por clientes ou uma necessidade para "segurar a noite" e conseguir trabalhar. A substância deixa de ser sobre prazer e passa a ser funcional, um "remédio" para suportar a atividade laboral.
"...muitas meninas acabam entrando em contato com a cocaína... de forma compulsória né então elas obrigatoriamente vão acabar ali eh tendo que fazer sexo dessa forma não por uma opção mas porque o cliente pede o cliente paga mais o cliente leva briga bate né..."
Essa realidade transforma a conversa sobre dependência e redução de danos. O tema deixa de ser apenas sobre festa e prazer e se conecta diretamente a questões de vulnerabilidade social, exploração e sobrevivência.
O "Luto do Corpo": Aceitando as Mudanças Após o Uso Intensivo
O fim de um período de uso intensivo de substâncias raramente é silencioso. Para muitos, ele chega com um eco no corpo – uma nova realidade física que exige um acerto de contas. O psicólogo Renan Ormenese descreve esse processo como um "luto do corpo", um momento profundo de confronto com as consequências, que podem incluir disfunção erétil, exaustão crônica ou a incapacidade de sentir prazer sexual sem o uso das substâncias.
O processo terapêutico, nesse caso, é encarado como um luto, onde a pessoa precisa aceitar que o corpo mudou e que "algo que eu tinha já não tenho mais". É preciso abraçar a ideia de que o corpo é mutável. A aceitação desse "novo corpo" se torna o primeiro passo para reconstruir uma identidade, encontrar novas formas de prazer e, muitas vezes, finalmente confrontar as questões internas que o uso de substâncias servia para "anestesiar".
Autonomia é Cuidado
Entender as complexas camadas do chemsex (da neuroquímica cerebral às vulnerabilidades sociais) é um ato de poder e autonomia. Seja entendendo a tempestade química no cérebro ou o luto de um corpo que mudou, a informação nos devolve o poder de cuidar. Redução de danos, portanto, não é sobre proibir, mas sobre equipar: com conhecimento, com autoconsciência e com a coragem de reconhecer nossos limites.
Com essas informações em mente, como podemos construir diálogos mais honestos e redes de apoio mais eficazes para cuidar de nós mesmos e de nossa comunidade?
TÍTULO
E Se Eu Quiser Parar? Caminhos possíveis depois do chemsex e o que as experiências e evidências dizem.
CONVIDADO
Victor C. Passarelli: Médico infectologista e pesquisador do HCFMUSP, traz ao Seminário uma visão profunda sobre saúde sexual, IST e práticas emergentes como o chemsex. Sua atuação une clínica, pesquisa e prevenção, fortalecendo diálogos multidisciplinares essenciais para pensar ações concretas de cuidado e redução de danos na comunidade LGBTQIAPN+.
MODERADORES
Thiago Jerohan e Fabi Mesquita
DETALHES
Discussão focada na discussão sobre o chemsex, especificamente no uso de estimulantes como a metanfetamina e o GHB no contexto sexual. O médico infectologista Dr. Victor Passarelli, junto com os apresentadores, discute a redução de danos e a necessidade de abordagens não punitivistas, enfatizando a autonomia do indivíduo no tratamento de uso problemático. O diálogo aborda as diferenças entre a dependência química neurobiológica e os aspectos ritualísticos e sociais do uso de substâncias, bem como a dificuldade de referenciar pessoas que buscam apoio no Sistema Único de Saúde (SUS) sem serem estigmatizadas. Profissionais de saúde e participantes também levantam a importância de um olhar biopsicossocial e de considerar as questões de repressão e moralismo que influenciam o prazer e o uso compulsório.
O que realmente significa "parar" com o chemsex? Se a resposta fosse tão simples quanto largar uma substância, a discussão seria muito mais curta. Mas a verdade é que interromper ou reduzir o uso sexualizado de drogas é um processo que revela camadas inesperadas sobre prazer, solidão, comunidade e autonomia. Não se trata apenas de química, mas de rituais, afetos e da busca por conexão. As lições a seguir, baseadas nos insights do médico infectologista Victor Passarelli, compartilhados durante o 2º Seminário Brasileiro de Redução de Danos no Uso Sexualizado de Substâncias, desafiam nossas noções mais comuns sobre dependência e oferecem uma visão mais humana e complexa sobre o tema.
A Força do Ritual é, Muitas Vezes, Maior que a da Química
Quando se fala em chemsex, a primeira imagem que vem à mente é a da dependência neurobiológica, de um cérebro "sequestrado" por substâncias. Embora o componente químico seja real, a experiência prática mostra que, em muitos casos, o que prende a pessoa é o ritual em torno do uso. Esse ritual envolve muito mais do que a droga: é o ato de se reunir com pessoas, de buscar prazer coletivamente, de criar um espaço para se desinibir e explorar a sexualidade de forma livre.
Essa distinção é crucial. Encarar o uso apenas como "dependência química" reforça o estigma de que todo praticante é um "viciado" que precisa ser "salvo". Na verdade, essa visão ignora as complexas razões que levam alguém a buscar esse ritual. Em um contexto de repressão e homofobia internalizada, muitos usam substâncias para "se desreprimir e para conseguir vivenciar o prazer de forma mais plena e livre". Entender a força do ritual abre portas para um cuidado que não julga, mas que busca compreender o que aquela prática significa para a pessoa.
Impor um Tratamento Não Funciona. Ponto.
A ideia de que uma pessoa pode ser forçada a se "curar" de um uso problemático de substâncias é uma das falácias mais persistentes e danosas. A internação compulsória, além de desrespeitar a autonomia do indivíduo, simplesmente não funciona. O Dr. Passarelli compartilhou um exemplo real e impactante que ilustra essa falha de forma contundente: um paciente que foi internado à força pela família por seis meses. Ao retornar à consulta, o médico perguntou como havia sido a experiência. O paciente voltou da clínica com vários medicamentos psicotrópicos na prescrição, e sua resposta foi um soco no estômago do modelo punitivo:
"Não adiantou nada eu fiquei seis meses lá planejando como quando eu saísse como é que eu ia usar."
Essa frase revela tudo. Quando a vontade de mudar não parte da própria pessoa, qualquer intervenção externa se torna apenas um obstáculo a ser contornado. O tratamento imposto não gera reflexão nem mudança interna; gera apenas ressentimento e estratégias para voltar ao padrão anterior assim que a porta da clínica se abrir. Cuidado não pode ser sinônimo de controle.
A Autonomia é o Verdadeiro Ponto de Virada
Se a coerção representa o fracasso, a autonomia é a chave para qualquer possibilidade de sucesso. Em contraste direto com a história anterior, há o caso de um paciente com um "padrão de uso de craque semanal uma vez por semana só super controlado", que ele manteve por mais de dez anos. Ele vivia sua vida, trabalhava e mantinha suas relações, e o acompanhamento médico era baseado na escuta e na redução de danos, sempre com uma porta aberta para quando ele precisasse de mais ajuda.
Um dia, esse momento chegou. O próprio paciente percebeu que seu padrão de uso havia aumentado e que estava perdendo o controle. Foi ele quem disse: "Acho que eu queria aquela ajuda que você falou". A partir daí, foi encaminhado para um serviço de saúde mental e, por decisão própria, optou por uma internação voluntária para fazer um "detox da vida". O resultado foi positivo, pois a decisão foi dele. O papel do profissional de saúde ou da rede de apoio não é empurrar a pessoa para um tratamento, mas sim caminhar ao lado dela, em um acompanhamento "horizontal", oferecendo suporte até que, se e quando for o momento, o pedido de ajuda possa surgir de forma genuína.
Parar com as Drogas Pode Significar Romper com Seus Amigos
Um dos dilemas mais dolorosos para quem decide reduzir ou parar o uso de substâncias é a dimensão social e afetiva do processo. Como o chemsex acontece em um contexto de socialização (em festas, encontros e na casa de amigos), afastar-se das drogas frequentemente significa ter que se afastar de todo um círculo de amizades e afetos. Não se trata de deixar de ir a "eventos", mas sim de deixar de conviver com as pessoas que você ama.
E como se sai de uma armadilha como essa? Não há respostas fáceis, e cada caminho é dolorosamente pessoal. Um paciente sentiu que a única forma de quebrar o ciclo era se mudando de país, para se distanciar fisicamente da "cena". Outro, para reduzir o uso de metanfetamina, "se afastou de todo mundo", relatando não conseguir mais ter contato com as pessoas com quem convivia. Já um casal, percebendo que o uso estava se tornando abusivo, fez um pacto de redução de danos: continuariam usando em festas, mas nunca mais sozinhos. Essa dimensão afetiva mostra que o processo é infinitamente mais complexo do que a simples força de vontade para "dizer não".
O Grande Desafio: Ressignificar o Prazer e Aceitar a Realidade
Talvez o obstáculo mais sutil e profundo seja o de reaprender a sentir prazer no sexo sem o uso de substâncias. A intensidade de uma experiência sexual com drogas como metanfetamina ou GHB é tão elevada que o sexo "sóbrio" pode parecer frustrante ou sem graça em comparação. A disparidade é enorme.
A solução, no entanto, não é farmacológica. Trata-se de um processo psicológico de "ressignificar a experiência" e a própria noção de prazer. É preciso entender a diferença entre o prazer "sintético", potencializado quimicamente, e a conexão "real", que acontece na troca entre as pessoas. Como foi ampliado pela moderadora Fabi Mesquita durante o debate, essa jornada se conecta a uma reflexão maior sobre uma sociedade que nos impõe uma espécie de tirania da felicidade, ensinando-nos a buscar picos de euforia constantes e a não tolerar o tédio, a frustração ou o sofrimento. Parte do caminho é aceitar que a vida não acontece "110% do tempo no paraíso". O sexo, assim como a vida, tem altos e baixos, e encontrar beleza e satisfação nessa realidade é o verdadeiro desafio.
No fim das contas, fica claro que não existe uma "receita de bolo" para parar ou reduzir o uso de substâncias no chemsex. Fica a lição de que o caminho passa menos pela química e mais pelos rituais, pela autonomia, pelos afetos e por uma corajosa renegociação com o próprio prazer. É uma jornada única, pessoal e que envolve muito mais do que a relação do indivíduo com a droga.
Se o cuidado não pode ser imposto, como nós, enquanto comunidade, podemos criar espaços mais seguros para que um pedido de ajuda possa finalmente surgir e ser acolhido sem julgamentos?
História e contexto do chemsex
O uso sexualizado de substâncias (drogas), conhecido como chemsex ou sexo aditivado, tem raízes culturais e históricas profundas, ligadas à busca humana por prazer, expansão da consciência e conexão. Desde as civilizações antigas, substâncias diversas eram utilizadas em rituais religiosos, práticas espirituais e experiências coletivas de êxtase, muitas vezes associadas à sexualidade e à transcendência.
Com o passar dos séculos, e especialmente a partir do século XX, o consumo de substâncias foi sendo criminalizado. O endurecimento das políticas de drogas, intensificado pela chamada “guerra às drogas”, transformou práticas antes comunitárias e simbólicas em temas de repressão, medo e estigma, silenciando suas dimensões humanas, sociais e afetivas.
Nas últimas décadas, o fenômeno passou a ganhar maior visibilidade em contextos urbanos e digitais, impulsionado pelo avanço das tecnologias e aplicativos de encontro, sobretudo entre pessoas LGBTQIAPN+, pessoas vivendo com HIV, trabalhadoras(es) sexuais, travestis e pessoas trans, entre outras populações historicamente marginalizadas. Nesses espaços, o chemsex expressa desejos de pertencimento, liberdade, prazer e intimidade, mas também revela contextos de solidão, vulnerabilidade e exclusão social.
Estudos científicos recentes indicam que o chemsex pode estar associado ao aumento de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), como HIV e sífilis, bem como a impactos significativos sobre a saúde mental, incluindo ansiedade, depressão, dependência química e isolamento. No entanto, reduzir o fenômeno ao risco seria um erro: o chemsex é também uma experiência social e afetiva complexa, que envolve corpo, desejo, política e subjetividade.
Ao mesmo tempo, novas pesquisas vêm ressignificando o olhar sobre o uso de substâncias, explorando o potencial terapêutico de compostos antes criminalizados, como psilocibina e cetamina, no tratamento de depressão, ansiedade, transtorno de estresse pós-traumático e dependência química. Essa reinterpretação científica reforça a necessidade de abordagens menos moralistas e mais baseadas em evidências, reconhecendo que redução de danos também é cuidado, ciência e empatia.
O II Seminário Brasileiro de Redução de Danos no Uso Sexualizado de Substâncias propõe justamente esse olhar ampliado: compreender o chemsex para além do perigo e do tabu, reconhecendo nele uma expressão da complexidade dos desejos humanos e das desigualdades que moldam a experiência sexual contemporânea — e propondo respostas que acolham, escutem e não punam.
O que está rolando por aí
Como estamos comprometidos
Este projeto está alinhado aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (OSD) abaixo
Serviço
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Data: 5, 6 e 7 de dezembro de 2025
Local: APEOESP (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo), na Praça da República, 282, São Paulo-SP
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Participação: Gratuita (vagas limitadas)
Público-alvo: Profissionais de saúde, pesquisadores, influenciadores e demais interessados
Capacidade: 200 participantes
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