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Primeiro Projeto de Redução de Danos em Chemsex no Brasil Combate a Desinformação



Por Felipe Neis Araujo - Durante a pandemia, pesquisadores de saúde pública em São Paulo começaram a notar o que parecia ser um aumento na popularidade do chemsex. O termo refere-se à prática e à cultura circundante de festas sexuais entre LGBT+ usuários de drogas —geralmente homens que têm relações sexuais com homens, que usam metanfetamina, mefedrona ou GHB.


A cobertura midiática do assunto tem sido dominada por desinformação e alarmismo, e havia uma falta de recursos educacionais que fornecessem informações precisas de redução de danos e não moralizassem ou estigmatizassem. A educação em redução de danos para chemsex que existia estava concentrada em áreas urbanas, como o eixo São Paulo-Rio.


Poucos recursos eram direcionados às periferias, termo usado no Brasil para se referir a bairros que existem nas margens, não necessariamente em sentido geográfico, mas em sentido socioeconômico. Muitas periferias estão nos arredores das grandes cidades, mas muitas estão no centro das cidades.


Em agosto, com financiamento Fundo Positivo e realização do Instituto Multiverso, sediado em São Paulo, eles lançaram o ColocAÇÃO, o primeiro projeto de redução de danos em chemsex no Brasil. O projeto é direcionado especialmente às periferias no centro da cidade de São Paulo e às que estão em Capão Redondo, uma favela na periferia sul.


O projeto oferece serviços presenciais, como treinamentos e oficinas de redução de danos lideradas por pares. Também produziu materiais educativos, como um guia que explica os efeitos e interações das drogas e um chatbot que responde a perguntas sobre práticas sexuais seguras.


Todos os recursos e serviços foram projetados levando em consideração o vernáculo regional usado por suas populações-alvo. A equipe espera, no entanto, que disponibilizando todos os materiais educativos online, possam começar a atingir pessoas em outras partes do país também. Seu objetivo não é apenas criar recursos para as comunidades locais, mas incentivar outros no campo da saúde pública a lançar seus próprios projetos e levar as discussões de redução de danos em chemsex ao nível político.


A revista Filter conversou com vários criadores do ColocAÇÃO, incluindo Myro Rolim e Fabi Mesquita. Esta entrevista foi traduzida do português e editada para concisão e clareza.


Chemsex já acontece há algum tempo, mas as pessoas não chamam isso de chemsex.

Felipe Neis Araujo: Qual é a história do chemsex no Brasil, especificamente nas periferias?


Myro Rolim: Temos que questionar se até mesmo o termo "chemsex" faz sentido aqui. Nas periferias, o termo mais utilizado pelas pessoas é "colocação". Chemsex, como um conceito específico, refere-se ao uso de substâncias para intensificar a atividade sexual e como um lubrificante social. Quando olhamos para o uso de substâncias para esse contexto no Brasil, vemos que isso vem acontecendo há algum tempo, mas as pessoas não chamavam de chemsex. As pessoas percebem que já estão praticando chemsex quando começa a aparecer na mídia brasileira, mas já havia uma prática anterior de uso de algumas substâncias relacionadas ao sexo.


Fabi Mesquita: Existe a ideia colonial e importada de que chemsex é algo de classe média. No entanto, é necessário reconhecer que chemsex é uma prática generalizada entre a população no Brasil. Isso acontece na periferia, e é necessário criar serviços e estratégias de cuidado, prevenção e assistência para as pessoas lá, e não apenas nos bairros de classe média e alta.



Quais drogas são populares nas cenas locais de chemsex e como isso muda de acordo com as classes?


Rolim: A mefedrona é muito rara para nós encontrarmos aqui no contexto do chemsex. O uso de cetamina não está fortemente associado ao chemsex em muitos países, mas no Brasil está. A metanfetamina está bastante presente. Anteriormente, era usada por pessoas ricas, pois era muito cara, mas nos últimos anos tornou-se barata e facilmente acessível. Existem qualidade boa e qualidade ruim, mas a metanfetamina está circulando em nosso mercado e sendo usada por pessoas de diferentes classes sociais. Viagra e Cialis, duas drogas legais, são substâncias fortemente relacionadas à cena de chemsex no Brasil.


O Brasil é um país com uma divisão social muito marcada, e isso tem implicações para o acesso à informação e à redução de danos. Pessoas brancas, com educação universitária, de classe média têm mais acesso a informações, serviços e drogas de boa qualidade.


E como o uso de substâncias em todos os lugares é moldado pelas realidades locais, entramos na discussão da decolonização. Não podemos orientar nossas estratégias de redução de danos importando aquelas desenvolvidas em países como Inglaterra, Alemanha ou França.


Nós escolhemos uma população para a qual não há boa informação disponível. Para quem o Estado não se importa.

Quais são as necessidades específicas dos usuários de drogas LGBT+ em Capão Redondo e no centro da cidade que fizeram você decidir focar o projeto lá?


Mesquita: Sabemos que o trabalho de redução de danos ocorre em raves e clubes de luxo. Queríamos mirar em uma população para a qual boas informações não estão disponíveis, para a qual estratégias de cuidado e serviços não são facilmente acessíveis. Para quem o estado não se importa.


Escolhemos uma periferia onde sabemos que existem uma série de festas, atividades e manifestações culturais onde há esse tipo de uso de substâncias associado a práticas sexuais. E nos concentramos primeiro no centro da cidade que, embora geograficamente central, é socialmente marginalizado, certo? É o centro antigo abandonado. Então, não é apenas na periferia que trabalhamos, mas em lugares onde vivem pessoas vulneráveis.


Acreditamos que não há comunidade que seja intrinsecamente vulnerável, certo? Isso é resultado de uma construção social, política e econômica que tem o interesse de marginalizar certas pessoas. Então, por que você tem serviços de redução de danos em uma rave de luxo e não tem em Capão Redondo?


Rolim: O Brasil é um país que apoia e promove a guerra às drogas, que criminaliza pessoas que usam drogas ilícitas. Se as pessoas não têm acesso a esse tipo de informação imparcial e não julgadora, a informação que terão é a informação promovida pela mídia tradicional, que importa perspectivas europeias e americanas sobre chemsex e promove o pânico. Queremos incentivar as pessoas que praticam chemsex a pensar "Vou praticar, mas vou tentar cuidar de mim antes, durante e depois."

O governo federal continua muito próximo das comunidades terapêuticas. Isto é um pesadelo.

O que o estado poderia estar fazendo para tornar os recursos e serviços de redução de danos do chemsex mais acessíveis?


Mesquita: Em primeiro lugar, eles devem democratizar o acesso aos fundos, para que as oportunidades de financiamento não sejam aberrações. No Brasil, o governo quer que as organizações tenham pelo menos cinco anos de experiência na prestação de serviços para serem elegíveis para financiamento. Quantas organizações no Brasil sobrevivem por cinco anos sem financiamento?


Ah, mas não temos muitos fundos. Ok, mas eles poderiam, por exemplo, apoiar o acesso aos materiais que já estão disponíveis. O material educativo de redução de danos produzido pelo Multiverso—coloque uma marca do governo nele, faça um milhão de cópias e distribua. Se eles nos ajudassem a espalhar a produção e distribuição desse material, poderíamos ter um alcance infinitamente maior.


Outro ponto muito importante que deve ser abordado é que os governos municipais e estaduais precisam reintegrar a redução de danos em suas políticas de saúde. A desmantelação da redução de danos também impactou ainda mais as políticas de HIV/aids. Precisamos investir na capacitação de trabalhadores da saúde pública, porque vemos que esses trabalhadores não estão preparados para lidar com questões relacionadas ao uso de drogas.


Esperávamos que a agenda de redução de danos retornasse imediatamente à agenda do governo federal no novo mandato do Presidente Lula. Isso não aconteceu, o que foi uma grande decepção entre todas as organizações que trabalham com questões relacionadas a drogas. Em vez disso, o governo atual permanece muito próximo das comunidades terapêuticas, apesar de todas as evidências de violência cometidas por essas instituições. Criou um departamento de comunidades terapêuticas, aumentou o dinheiro para comunidades terapêuticas e criou um dia para celebrar comunidades terapêuticas. Isso é um pesadelo.


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