PASTOR EDINHO
- João Geraldo Netto

- há 2 horas
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Édson Santana do Nascimento
(1975 - 01/06/2020)
"Minha vida não tinha acabado, mas apenas recomeçado de uma nova maneira."
MARCOS TEMPORAIS: NASCIMENTO
Embora os registros públicos não precisem a data exata de seu nascimento ou o município de sua origem, a trajetória de Édson é indissociável do solo goiano. Foi no coração de Goiás que ele viveu sua maturidade plena e desenvolveu sua atuação ministerial e política integral, transformando a região metropolitana de Goiânia e Aparecida de Goiânia no palco central de sua missão de vida.
MARCOS TEMPORAIS: FALECIMENTO
Com a solenidade reservada ao descanso de um verdadeiro guerreiro, registramos que o Pastor Edinho nos deixou no dia 15 de junho de 2023. Sua partida ocorreu após uma batalha hercúlea e lúcida contra as complicações de um câncer agressivo, que resultou na amputação de sua perna e de parte de seu quadril. Para um homem que dedicou a vida a "caminhar" pelas periferias da existência e a ocupar as ruas em defesa dos outros, o custo físico foi imenso, mas jamais paralisou sua energia vital. Sua morte encerrou um ciclo de resistência física e iniciou sua perenização na memória social brasileira.
TRAJETÓRIA E RAÍZES
A sensibilidade social de Édson Santana foi fruto de uma base religiosa profunda e inquieta. Em sua juventude, foi seminarista capuchinho; essa matriz franciscana, pautada pelo voto de pobreza e pela dedicação absoluta aos marginalizados, moldou seu olhar para os que habitam as bordas da sociedade. Sua transição do catolicismo para o ministério evangélico inclusivo representou um movimento corajoso de busca por autenticidade. Em Goiânia, ele viveu de forma plural e transparente: homem homossexual, vivendo com HIV, pai e companheiro. Sua vida privada era, em si, um sermão vivo, provando que pessoas LGBTQIA+ são plenamente dignas do amor doméstico e do cuidado divino simultaneamente.
A Perspectiva Humanista: A vivência pessoal de Édson com o HIV transmutou o diagnóstico em uma "tese de resistência". Ele não permitiu que o vírus fosse uma sentença de finitude, mas sim o catalisador de uma nova forma de caminhar. Essa busca por uma fé que abraçasse o corpo e a orientação sexual sem negá-los foi o solo fértil de onde brotou sua maior obra institucional.
A MILITÂNCIA E O AXÉ DO CUIDADO
No Centro-Oeste brasileiro, Édson compreendeu a importância estratégica de unir fé e ativismo. Em 2009, fundou a Igreja Renovação Inclusiva para a Salvação (IRIS). Sua liderança foi revolucionária: foi ele quem ordenou Karla Bianca, a primeira mulher transexual ao sacerdócio na região, um ato disruptivo que rompeu com a transfobia religiosa e reconfigurou os limites do sagrado. Edinho ocupava boates e espaços públicos com a bênção divina, desafiando o estigma de que a espiritualidade deveria estar confinada a templos conservadores.
Impacto Estratégico: Para além do púlpito, foi um articulador político vigoroso na OAB Goiás e em conselhos de direitos humanos. Édson exercia uma "honestidade brutal" sobre o custo de ser ativista e soropositivo, denunciando as náuseas, as tonturas e a perda de força nas pernas causadas pelos antirretrovirais. Ele não lutava apenas por políticas de saúde; lutava pela dignidade do corpo em dor. Sua militância materializou-se na Casa de Renovo, refúgio para os expulsos de seus lares. Tamanha importância o colocou no Memorial Nacional da Aids, ao lado de ícones como Lair Guerra e Herbert Daniel.
O TOQUE E O AFETO
O carisma de Édson era sua ferramenta de cura. Descrito como uma figura "contagiante", ele praticava um "Ecumenismo Prático", transitando entre seu passado católico e o presente evangélico para construir pontes. Edinho era o "pastor do amor", mas possuía a firmeza necessária para ser "bravo" quando a segurança de seus protegidos na Casa de Renovo estava em jogo. Sua dureza era, na verdade, uma camada de proteção aos vulneráveis.
O Acolhimento Infinito: Não havia barreiras para quem buscava ajuda em sua porta. Édson exercia um acolhimento sem burocracias ou julgamentos morais. Esse afeto estruturante transformou o assistencialismo em pertencimento, criando uma rede de suporte que sobrevive à sua ausência física. Ele ensinou que o cuidado é um direito inalienável e que a fé deve ser, acima de tudo, um porto seguro.
O LEGADO DA PONTE
Édson Santana do Nascimento foi um arquiteto de reconciliações. Sua importância histórica reside na capacidade de ter unido a fé cristã aos direitos humanos no coração do Brasil, reconfigurando a narrativa da AIDS em Goiás e transformando feridas profundas em fontes de cura.
Sua coragem de ser uma liderança religiosa visivelmente soropositiva deixou como herança a "teologia da graça radical", uma fé que abraça a diversidade como a mais pura expressão divina. Ao visitante deste memorial, fica o convite para carregar adiante sua chama: a convicção de que nenhuma vida se encerra em um diagnóstico, mas pode sempre recomeçar de uma maneira nova, potente e profundamente humana.

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