3 Anos Depois, a Justiça me Chamou Para a Luta: O Que Aprendi ao Reabrir um Processo de Crime de Ódio
- João Geraldo Netto

- 24 de jan.
- 7 min de leitura
Post com vídeo da denúncia contra o pastor de Anicuns
Post na frente da delegacia com o B.O. nas mãos
Post com áudios dos agressores incitando a violência e golpe de estado
Recentemente, recebi um chamado que me transportou de volta para um dos momentos mais difíceis da minha vida. Era a delegacia, querendo saber se eu desejava prosseguir com um depoimento sobre um crime de ódio que sofri há três anos. Tudo começou em 2022, logo após as eleições, quando publiquei um vídeo criticando a postura de uma igreja em minha cidade natal, Anicuns, por assediar eleitores. Minha fala foi distorcida e, em pouco tempo, se transformou em uma violenta campanha de ódio online. Esse chamado, no entanto, não trouxe apenas memórias dolorosas, mas também lições poderosas que sinto a necessidade de compartilhar.
A justiça pode ser lenta, mas não é esquecida.
Três anos após registrar a denúncia na Delegacia de Crimes Raciais, fui convocado para decidir o futuro da investigação. A pergunta era simples: eu queria que o processo continuasse ou preferia arquivá-lo? Minha resposta foi um SIM absoluto. Decidi prosseguir criminalmente porque acredito que a impunidade não pode e não deve prevalecer. A polícia agora está no comando, usando os números de telefone que forneci para identificar e contatar cada um dos agressores. O tempo pode ter passado, mas a busca por responsabilidade apenas começou.
"Por mais que tenha passado já 3 anos por mais que tivesse passado 50 anos se o crime não prescrevesse eu iria retomar e eu iria fazer com que todas as medidas possíveis fossem tomadas."
Esta briga não era só minha, era por toda uma comunidade.
Minha decisão de levar o caso adiante não foi motivada apenas por um desejo de justiça pessoal. Foi um ato de representação por todas as pessoas que, naquela pequena cidade de pouco mais de 20 mil habitantes, sofrem silenciosamente com a homofobia e a LGBTfobia todos os dias. Os ataques que sofri foram brutais e diretos: fui alvo de homofobia explícita, chamado de "viadinho de merda"; recebi ameaças de violência física, com comentários de que eu "merecia uma surra"; e enfrentei a sorofobia mais desumana, com referências como "...aquele filho do João que tinha o bicho da goiaba por conta do meu HIV." Essa luta é por cada um que já se sentiu intimidado, silenciado e desumanizado.
"Esse não foi um ataque ao João Geraldo Neto João Pessoa João Geraldo Neto Foi um ataque a toda e qualquer pessoa que dentro desse município pequeno... sofre com a homofobia LGBT fobia todos os dias."
Nossos agressores precisam ter medo de nós.
Esta talvez seja a lição mais contraintuitiva, mas é a mais honesta. Meu primeiro impulso, e um sentimento que ainda carrego, é que agressores merecem receber na mesma moeda a violência que distribuem. Se foi violência, que a gente seja violento de volta. Mas a realidade é que nem sempre temos a capacidade ou a segurança para responder dessa forma. Então, canalizamos essa fúria para uma arma mais estratégica e potente. Os agressores precisam temer as consequências de seus atos, e esse medo deve vir da certeza de que serão responsabilizados perante a lei. Crimes de ódio não são "opiniões", são crimes. E é nosso dever usar o sistema para garantir que eles saibam disso.
"...os nossos agressores eles têm que ter medo da gente né... que seja na justiça."
A mensagem principal que quero deixar é um chamado à ação. Se você sofreu qualquer tipo de violência — seja ela homofóbica, sorofóbica, racial ou misógina —, não se cale. Busque os canais legais, denuncie e exija que a justiça seja feita. A impunidade se alimenta do nosso silêncio.
E aos meus agressores: eu espero que vocês tenham muito azar. Espero que sejam punidos severamente, e podem ter certeza de que estarei, de onde eu puder, assistindo à derrota de vocês. Eu vou até a última consequência para ver vocês pagando pelo crime que cometeram.
A todos que já sofreram calados, eu pergunto: até quando vamos permitir que o ódio fique impune?
Desvendando o Preconceito
Um Guia a Partir de um Caso Real
Para entender o impacto real do preconceito, nada é mais poderoso do que analisar uma história verdadeira. Este documento usa a experiência de João Geraldo Neto, um homem que se define como "estrategista de marketing digital, especialista em sexualidade, mobilizador social" e que trabalha "com direitos humanos há muitos anos", para desvendar os mecanismos por trás de diferentes tipos de discriminação.
O caso começou logo após as eleições presidenciais de 2022. João publicou um vídeo criticando a postura de uma igreja em Anicuns, sua cidade natal, que, segundo ele, estava assediando eleitores com posicionamentos políticos diferentes. A resposta foi uma campanha de ódio. Conforme ele relata, distorceram sua fala para que parecesse um ataque à cidade inteira — uma tática comum em campanhas de difamação online. A partir daí, os ataques virtuais se tornaram diretos e pessoais. A experiência de João se torna, assim, um ponto de partida para explorarmos os conceitos de homofobia, sorofobia e outras formas de ódio.
Agora que entendemos o contexto, vamos analisar em detalhes as formas de ataque que João sofreu, começando pela homofobia.
O Que é Homofobia?
Homofobia é o termo usado para descrever o ódio, a aversão, o desprezo ou o preconceito direcionado a pessoas homossexuais. Manifesta-se através de atitudes, falas e até mesmo violência física, com o objetivo de invalidar e ofender alguém com base em sua orientação sexual.
No caso de João, os ataques homofóbicos foram explícitos e violentos, como mostram as ofensas que ele relatou:
"viadinho de merda" "aquele viadinho merece uma surra"
Essas expressões são claramente homofóbicas porque utilizam palavras e táticas para desumanizar a vítima. O uso de diminutivos pejorativos como "viadinho" busca diminuir e ridicularizar a identidade de João. A ameaça de violência física ("merece uma surra") vai além da ofensa verbal, criando um ambiente de intimidação e medo, punindo a pessoa simplesmente por quem ela é.
Além dos ataques à sua orientação sexual, os agressores também usaram outra característica pessoal de João para ofendê-lo: sua condição de saúde.
O Que é Sorofobia?
Sorofobia é o preconceito, a discriminação e o estigma direcionados a pessoas que vivem com HIV/AIDS. Essa forma de preconceito se baseia em desinformação, medo e julgamentos morais, tratando uma condição de saúde como se fosse uma falha de caráter.
O ataque a João ilustra perfeitamente como a sorofobia funciona. Os agressores se referiram à sua condição de forma cruel e estigmatizante:
"...tinha o bicho da goiaba por conta do meu HIV."
Essa ofensa é sorofóbica porque associa o vírus do HIV a algo nojento e repulsivo ("bicho da goiaba"), com a clara intenção de ferir, humilhar e isolar João. Ao transformar uma condição de saúde em uma arma, a sorofobia ataca a dignidade da pessoa, buscando isolá-la através do medo e da desinformação, um ato de profunda crueldade.
Embora o caso de João tenha se centrado na homofobia e sorofobia, seu próprio entendimento da situação conecta esses ataques a outras formas de ódio que operam de maneira semelhante, como a misoginia e o racismo. Vamos entendê-las.
Ampliando o Entendimento: Misoginia e Racismo
A experiência de João nos mostra como as formas de discriminação estão interligadas. Ele mesmo identifica a necessidade de combater "qualquer tipo de ataque homofóbico, sorofóbico, racial, misógino", demonstrando como as vítimas de preconceito frequentemente reconhecem a lógica comum por trás de diferentes formas de opressão.
Misoginia: É definida como o ódio, o desprezo ou a aversão às mulheres e a tudo que é associado ao feminino. Embora não tenha sido o foco dos ataques contra João, a misoginia é frequentemente usada como uma ferramenta para ofender homens, associando-os a características femininas de forma pejorativa, numa tentativa de diminuir sua masculinidade.
Racismo: É o preconceito ou a discriminação com base na raça ou etnia de uma pessoa. Um ponto fundamental no relato de João é que sua denúncia foi feita na Delegacia de Crimes Raciais. Isso mostra como o sistema de justiça reconhece a gravidade desses crimes de ódio e os agrupa por sua natureza discriminatória, tratando-os com a seriedade que merecem.
Vimos quatro tipos diferentes de preconceito, mas o que todos eles têm em comum?
A Raiz Comum: O Ataque à Identidade
Apesar de terem alvos diferentes, a homofobia, a sorofobia, a misoginia e o racismo compartilham a mesma lógica destrutiva: atacar uma pessoa por um aspecto central de sua identidade. O objetivo é sempre o mesmo: diminuir, silenciar, invalidar e negar a humanidade do outro. Essas formas de ódio se alimentam da ignorância e da intolerância para criar hierarquias sociais onde um grupo se sente no direito de oprimir o outro.
A percepção de João sobre o que aconteceu com ele resume perfeitamente o impacto coletivo desses atos:
"Esse não foi um ataque ao João Geraldo Neto... Foi um ataque a toda e qualquer pessoa que dentro desse município pequeno... sofre com a homofobia LGBT fobia todos os dias."
Compreender esses conceitos é o primeiro passo. O segundo é saber como agir diante deles.
Da Reflexão à Ação
A postura de João é um exemplo poderoso de resistência. Sua decisão de prosseguir com a denúncia, mesmo após três anos, é um recado claro de que a impunidade não pode ser uma opção. Em suas próprias palavras, ele afirma sua determinação: "eu jamais aceitaria que esse tipo de ofensa simplesmente passasse em branco e não vai passar". Combater o preconceito é um dever de todos nós, e felizmente, "existem leis e espaços específicos onde a gente pode fazer essas reclamações".
Como podemos combater o preconceito?
Eduque-se: Busque aprender sobre as diferentes realidades, identidades e histórias para além da sua. O conhecimento é a principal arma contra a ignorância.
Não reproduza: Evite piadas, comentários e estereótipos preconceituosos, mesmo que pareçam "inofensivos". A linguagem molda a cultura.
Apoie as vítimas: Se presenciar um ato de discriminação, ofereça apoio à pessoa atacada. Mostrar solidariedade pode fazer uma enorme diferença.
Denuncie: Incentive e apoie a denúncia de crimes de ódio às autoridades competentes. A impunidade não pode prevalecer.
A luta contra a discriminação é uma responsabilidade coletiva. Cada um de nós tem o poder de questionar preconceitos e agir para construir uma sociedade mais justa, segura e respeitosa para todas as pessoas.





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