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O Giz Molhado da Inclusão


O Giz Molhado da Inclusão (podcast)Instituto Multiverso

Estamos quase no dia 2 de abril de 2026, Dia Mundial de Conscientização do Autismo.


O ano letivo começou em fevereiro. E a minha filha ainda não foi para a escola.


Há escolas com muros altos, portões coloridos e palavras bonitas penduradas nas paredes: acolhimento, inclusão, respeito. Essas palavras aparecem em cartazes, projetos pedagógicos e postagens nas redes sociais.


Mas, muitas vezes, quando uma criança autista atravessa esse portão — ou tenta atravessar — elas se desfazem como giz molhado.


Alice tem seis anos. Era para estar vivendo agora um dos marcos mais importantes da infância: o início do 1º ano do ensino fundamental.


Ela é autista, minimamente verbal, e ainda está construindo sua autonomia. Precisa de apoio para o básico — para se alimentar, para a higiene, para compreender a rotina, para participar.


E isso não a diminui. Isso apenas define o tipo de suporte que ela precisa — e ao qual ela tem direito.


Durante a educação infantil, na rede municipal, esse apoio existiu. Alice frequentou a escola com dignidade. Houve mediação, houve presença, houve pertencimento.


Neste ano, ao ingressar na rede estadual, o que encontramos foi outra realidade. Antes mesmo do início das aulas, fomos chamados pela escola: não havia profissional de apoio para recebê-la. Sugeriram que um familiar a acompanhasse.


Recusamos — não por falta de vontade, mas por responsabilidade. Inclusão não pode depender da presença constante de um familiar. Inclusão exige estrutura.


Depois, tentei manter algum vínculo possível. Pedi que enviassem atividades para que Alice pudesse fazer em casa.


As atividades vieram. Mas não vieram adaptadas. E, mais uma vez, ficou evidente: não basta querer incluir. É preciso saber como.


Em março, recebi uma ligação da coordenação pedagógica. Fui convidada para uma reunião e informada sobre uma nova possibilidade: ensino domiciliar.


Confesso que ouvir isso me atravessou. Porque tudo o que eu quero como mãe é exatamente o contrário: que minha filha esteja na escola.


Não por uma ideia abstrata de aprendizagem, mas pelo que a escola representa de mais essencial — o convívio.


Mais recentemente, fui informada de que há um profissional de apoio disponível para atender a Alice. Mas não há professor de apoio dentro da sala de aula.


E essa informação, que poderia soar como avanço, na prática escancara o problema. Porque a inclusão não acontece no portão da escola. Ela acontece dentro da sala.


É ali que minha filha precisa de mediação. É ali que ela precisa ser vista, compreendida, acompanhada.


E é diante disso que eu me faço, todos os dias, a mesma pergunta: como eu levo a minha filha para a escola nessas condições?


Alice tem mochila.

Tem material.

Tem matrícula.


Mas não tem acesso qualificado.


E essa é uma das formas mais duras de exclusão — aquela que mantém a aparência de direito, mas esvazia sua realização.


Antes de chegar à escola pública, tentamos o caminho das escolas particulares. E ali encontramos um outro tipo de exclusão: silenciosa, polida, sem registro.


As conversas mudavam quando falávamos da Alice. Não havia recusas diretas — havia silêncios, retornos que não vinham, portas que se fechavam sem dizer que estavam fechadas.


Na escola pública, a exclusão assume outra forma. Não é a recusa. É a ausência de condições. E o efeito, no fim, é o mesmo. O que encontramos, na maior parte das vezes, não foi má vontade. Foi despreparo.


Mas o despreparo não é neutro.


Ele afasta.

Ele limita.

Ele exclui.


A Alice não chegou à escola “faltando” algo. Ela chegou inteira.


O que falta é uma estrutura capaz de reconhecê-la assim — inclusive nas necessidades mais básicas do dia a dia, aquelas que garantem dignidade antes mesmo de qualquer conteúdo.


E é importante dizer: essa não é uma história isolada.


Ela se repete em muitas casas, com muitas famílias que também vivem essa espera — com filhos matriculados, mas fora da escola. Com direitos garantidos no papel, mas negados na prática.


Falta profissional.

Falta formação.

Falta planejamento.

Falta escuta.


E, sobretudo, falta empatia.


Porque, se houvesse empatia, ninguém consideraria razoável que uma criança passasse meses fora da escola esperando por condições mínimas.


Ninguém trataria como solução aquilo que, na prática, a afasta do convívio.


Meu maior medo nunca foi o tempo da aprendizagem da minha filha. É o tempo da exclusão.


Porque cada dia fora da escola é um dia a menos de convivência, de troca, de construção de mundo. E isso não se recupera depois com conteúdo.


No Dia Mundial de Conscientização do Autismo, não precisamos de campanhas. Precisamos de coerência. Precisamos que a inclusão deixe de ser discurso e se torne prática cotidiana.


Porque nossos filhos não precisam caber na escola. É a escola que precisa crescer até caber neles.


Enquanto isso não acontece, seguimos.


Com a mochila pronta. Com o direito garantido no papel. E com a realidade insistindo em apagá-lo —

como giz molhado.



 
 
 

1 comentário

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João Geraldo Netto
João Geraldo Netto
há 3 horas
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Que texto lindo!!!!

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