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Chemsex: Enquanto a Europa Atualiza Suas Diretrizes de HIV, o Protocolo do Brasil Silencia. O Que Está em Jogo?

Atualizado: há 44 minutos


Chemsex: Enquanto a Europa Atualiza Suas Diretrizes de HIV, o Protocolo do Brasil Silencia. O Que Está em Jogo?

O Novo Desafio da Saúde Sexual


As conversas sobre saúde sexual evoluíram. A mensagem que por décadas se resumiu a "use camisinha" hoje incorpora avanços como a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP), que mudaram a paisagem da prevenção. No entanto, uma nova fronteira se apresenta, trazendo complexidades que desafiam as abordagens tradicionais: o "chemsex", ou sexo químico. Essa prática de usar drogas para facilitar ou prolongar encontros sexuais é uma realidade emergente, especialmente para a comunidade LGBTQIAP+, apresentando novos riscos e exigindo um novo nível de cuidado e informação.


O Mundo Acordou. Chemsex Entra na Pauta Oficial de Especialistas em HIV


Reconhecimento Internacional: EACS Inclui Chemsex em Diretrizes Oficiais


Um sinal claro de que o cenário global da saúde está se adaptando a essa realidade veio da European AIDS Clinical Society (EACS), uma das maiores referências mundiais no tema. Em um anúncio feito durante a conferência HIV Glasgow 2024, datado de novembro, a organização lançou sua mais recente atualização das diretrizes de tratamento de HIV (versão v12.1), incluindo, pela primeira vez, uma seção inteiramente dedicada ao chemsex.


Essa inclusão representa o reconhecimento oficial da prevalência e da importância da prática no contexto da saúde sexual e da prevenção ao HIV. Durante o lançamento, painelistas observaram que médicos em alguns países só tomaram conhecimento do chemsex após a pandemia de COVID-19, o que ressalta como a conscientização sobre o tema é recente, crescente e urgente.


No Brasil, o Silêncio Oficial


Contraste Nacional: Protocolo Brasileiro de HIV Ignora o Tema


Enquanto a comunidade internacional avança, o Brasil parece estar um passo atrás. Uma análise do mais recente e abrangente "Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Manejo da Infecção pelo HIV em Adultos" (PCDT), publicado pelo Ministério da Saúde em 2024, revela uma lacuna alarmante: o documento não faz nenhuma menção ao termo "chemsex" ou "sexo químico".


Essa omissão não é apenas semântica. Ela cria um vácuo perigoso na orientação de profissionais de saúde, ignorando uma prática que, segundo o Instituto Multiverso, está diretamente associada à diminuição da adesão à PrEP e ao tratamento antirretroviral (TARV), e ao aumento do risco de outras ISTs — fatores que minam toda a estratégia de prevenção combinada do país. Ao silenciar sobre o tema, o protocolo oficial deixa de fornecer diretrizes e estratégias de cuidado para uma realidade que afeta diretamente as populações mais vulneráveis ao HIV.


A Sociedade Civil Lidera o Caminho de Forma Pioneira


Iniciativa Preenche a Lacuna Deixada pelo Estado


Na ausência do Estado, a sociedade civil organizada assume a liderança. O Instituto Multiverso, através do seu projeto "ColocAÇÃO: redução de danos da periferia ao centro", se destaca como uma iniciativa pioneira no Brasil. O projeto foca na redução de danos voltada para os praticantes de chemsex, oferecendo informações e suporte que o sistema público de saúde ainda não fornece oficialmente.


A iniciativa é financiada pelo "Fundo Positivo", o que levanta uma questão importante: por que projetos tão essenciais de saúde pública, liderados por quem entende a realidade da comunidade, dependem de financiamento não governamental em vez de serem uma política de Estado? O público-alvo do projeto demonstra sua relevância: a população LGBTQIAP+, com foco prioritário em gays, outros homens que fazem sexo com homens (HSH), jovens, pessoas negras, travestis e transexuais.


A Verdadeira Lição: Redução de Danos Não É Apologia, É Cuidado


Quebrando o Estigma para Promover a Saúde


Um dos maiores obstáculos para a inclusão do chemsex nas pautas de saúde é o medo de que falar sobre o uso de drogas no sexo seja um incentivo à prática. Essa visão é equivocada e perigosa. A filosofia da redução de danos, adotada por iniciativas como a do Instituto Multiverso, não faz apologia, mas oferece cuidado. Trata-se de reconhecer que a prática existe e que, em vez de julgamento, as pessoas precisam de informação para minimizar os riscos.


É crucial reconhecer a importância de abordagens de redução de danos ao lidar com o chemsex. Em vez de julgamentos moralizantes, devemos focar em fornecer informações precisas sobre os riscos e práticas seguras. Essa abordagem não apenas previne danos físicos, mas também fortalece a confiança para que indivíduos procurem ajuda quando necessário.


Essa abordagem baseada em evidência e empatia combate o estigma e constrói uma base muito mais eficaz para a promoção da saúde sexual, fortalecendo o vínculo entre os usuários e os serviços de saúde.


As Misturas que Você Não Imagina Serem Perigosas


Interações Medicamentosas: O Risco Oculto do Chemsex


Um dos maiores perigos do chemsex, e frequentemente o mais subestimado, são as interações entre diferentes substâncias, incluindo o álcool. Algumas combinações podem ter efeitos contraintuitivos e extremamente perigosos, que não são de conhecimento geral. A seguir, destacamos algumas das interações de alto risco, mas é crucial ressaltar que esta lista não é exaustiva. A consulta de materiais especializados, como os guias completos do Instituto Multiverso, é fundamental antes de qualquer uso.


  • Álcool + GHB/Ketamina: Ambas as combinações são classificadas como perigosas. Elas aumentam drasticamente o risco de vômito e perda de consciência. Se a pessoa desmaiar, há um risco grave de aspirar o próprio vômito caso não seja colocada na posição de recuperação;

  • Cocaína + MDMA: Esta combinação é arriscada de uma forma surpreendente. A cocaína pode bloquear os efeitos de euforia e empatia desejados do MDMA, levando o usuário a consumir mais de ambas as drogas. Ao mesmo tempo, a mistura aumenta significativamente a pressão sobre o coração, elevando o risco de um ataque cardíaco; e

  • MDMA + Álcool: Ambos causam desidratação, o que já é um risco. Além disso, o álcool pode diminuir a sensação de euforia do MDMA, tornando a experiência menos prazerosa e incentivando um consumo maior de ambas as substâncias para compensar, o que aumenta os perigos.


Está na Hora de o Cuidado Oficial Alcançar a Vida Real


O contraste é gritante. De um lado, especialistas internacionais e a sociedade civil brasileira avançam com abordagens realistas, baseadas em ciência e redução de danos, para lidar com a complexidade do chemsex. Do outro, a política de saúde pública oficial do Brasil permanece em um silêncio que beira a negligência.


Essa falta de alinhamento não é apenas uma falha burocrática; ela tem consequências reais. A omissão do Estado deixa populações vulneráveis desassistidas, profissionais de saúde sem orientação e aumenta os riscos de ISTs, overdoses e outros danos graves. A saúde pública não pode se dar ao luxo de ignorar a realidade.


Até quando a saúde pública brasileira vai ignorar as complexidades da vida real de sua população?



 
 
 

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