O Relógio Contra o Afeto e Por Que o Instituto Vida Posithiva Precisa de um Novo Lar Agora
- Synô Milía (Multiverso)

- 19 de mai.
- 4 min de leitura

O Valor de um Lar e a Urgência do Agora
Nas últimas décadas, a ciência transformou o diagnóstico de HIV de uma sentença em uma condição crônica administrável. Celebramos a eficácia da PrEP e dos novos tratamentos, mas, lamentavelmente, o preconceito social não acompanhou o ritmo dos laboratórios. Em Brasília, há 16 anos, uma casa na quadra 711 Sul funciona como o último refúgio contra o abandono familiar e o estigma. O Instituto Vida Posithiva é mais que um endereço; é o porto seguro de quem foi invisibilizado pela sociedade. No entanto, esse porto está prestes a fechar. Sem sede própria e com o imóvel atual vendido, a instituição vive uma contagem regressiva desesperada para garantir que dezenas de pessoas não fiquem desamparadas.
O Legado de Vovó Vicky e 20 Anos de Amor e Resistência
A trajetória do Instituto nasce da dor transformada em ação. A jornalista Vicky Tavares começou sua luta nos anos 90, após perder um amigo para as complicações da Aids em um período em que o estigma era uma barreira quase intransponível. Após o fechamento de uma organização onde atuava como voluntária, Vicky tomou uma decisão radical: não deixaria as crianças assistidas voltarem à vulnerabilidade absoluta. Em 2006, fundou o Vida Posithiva, consolidando um trabalho de acolhimento que hoje completa duas décadas de resistência.
"Era uma situação muito difícil, fora o preconceito da doença, tinha ainda o preconceito contra os homossexuais. As pessoas dizem que [o preconceito] melhorou, não melhorou nada, continua o preconceito. Falta informação, e não é por falta de acesso, porque hoje a informação está em todo lugar."

O Impacto Real nas Vidas
O impacto do instituto é medido em vidas preservadas e sonhos retomados. Para os 27 residentes e as dezenas de famílias externas assistidas, Vicky é a "Vãe" (um apelido carinhoso que funde "vó" com "mãe"). O ambiente de "família escolhida" é o que sustenta resultados estatísticos impressionantes: desde a fundação da ONG, ninguém mais faleceu sob seus cuidados.
Histórias como a de Caiel, 24 anos, estudante de gastronomia, mostram como o suporte financeiro e emocional transforma destinos. Ou a de Sandra, 20 anos, que não foi apenas acolhida, mas nasceu dentro do projeto e foi adotada por Vicky ainda bebê. Hoje, Sandra é voluntária e estuda com o apoio da rede que a viu crescer. Além dos residentes, o Instituto estende sua mão para a comunidade, fornecendo 200 almoços mensais para pacientes do hospital de referência. O apoio em saúde e educação é o que permite que esses jovens troquem a perspectiva da finitude pelo protagonismo de suas próprias histórias.
9 de Junho e o Peso do Aluguel
O prazo é implacável: 9 de junho. Com a venda do imóvel na 711 Sul, o Instituto precisa desocupar o local onde investiu não apenas memórias, mas recursos escassos. "Acabei de fazer uma reforma aqui e esse dinheiro foi embora", lamenta Vicky. A busca por uma nova sede enfrenta barreiras financeiras e logísticas hercúleas:
A Barreira do Dinheiro: O mercado imobiliário da região viu os preços triplicarem, tornando os valores assustadores para uma ONG sem fins lucrativos. Além disso, exige-se o pagamento de três aluguéis adiantados e garantias como fiador ou seguro-fiança.
O Fator Saúde (Cedin): A localização atual, a menos de 2km do Centro Especializado em Doenças Infecciosas (Cedin), é vital. Mover-se para longe significa aumentar gastos com combustível e desgaste de veículos para transportar dezenas de crianças e jovens aos tratamentos essenciais, comprometendo a logística de saúde.
O Preconceito Invisível que Bloqueia Portas
A dificuldade de encontrar um novo teto não é apenas financeira. O preconceito atua como uma barreira física invisível: Vicky relata que proprietários desistem do aluguel no instante em que leem a palavra "HIV" no estatuto da instituição. Esse estigma recorda um episódio sombrio do passado, quando vizinhos organizaram um abaixo-assinado contra a permanência do instituto na rua. A desinformação ainda é o maior obstáculo para que o Vida Posithiva encontre um locador disposto a acolher sua causa.
Como Manter este Trabalho Vivo e Qual é O Seu Papel
Sem subsídios governamentais para esta mudança emergencial, o Instituto Vida Posithiva depende inteiramente da mobilização civil para não interromper suas atividades. Cada contribuição é um tijolo na construção desse novo lar.
Doações Financeiras: Cruciais para cobrir os três meses de depósito e os custos de mudança pela vakinha solidária clicando AQUI.
Produtos "Vovó Gourmet": Compre a famosa farofa artesanal produzida na cozinha industrial da ONG pelo Instagram do Vida Posithiva.
Brechó e Voluntariado: Doe itens para revenda ou ofereça seu tempo e habilidades.
Engajamento Digital: Siga o instituto no Instagram, compartilhe a campanha e ajude a encontrar um proprietário que veja além do estigma.
Uma Questão de Dignidade Coletiva
O trabalho do Instituto Vida Posithiva é precioso demais para ser jogado fora por falta de verba ou excesso de preconceito. Ao longo de 20 anos, vovó Vicky e sua equipe transformaram o que seria uma sentença de isolamento em uma trajetória de dignidade e saúde. Não estamos falando apenas de paredes e teto, mas da sobrevivência de uma rede de apoio que alimenta, educa e cura.
Se permitirmos que esta porta se feche por indiferença, onde esperamos que essas 27 vidas estejam no dia 10 de junho? A responsabilidade social de proteger este legado é, agora, de todos nós.



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