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DoxiPEP, Seria a "Pílula do Dia Seguinte" para ISTs?

Atualizado: há 39 minutos


DoxiPEP, Seria a "Pílula do Dia Seguinte" para ISTs?

Uma Nova Ferramenta na Saúde Sexual


Diante de um cenário preocupante de aumento das Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs), com destaque para a sífilis, que cresce de forma alarmante globalmente e no Brasil, uma nova abordagem de prevenção está no centro de um intenso debate científico e de saúde pública. Surge a DoxiPEP, uma estratégia que propõe o uso do antibiótico doxiciclina como profilaxia pós-exposição, ou seja, após uma possível exposição sexual de risco.


A DoxiPEP é uma das inovações mais debatidas na saúde sexual contemporânea, apresentando-se como uma ferramenta promissora para frear o avanço de infecções bacterianas. No entanto, seu uso não é um consenso e carrega importantes questionamentos. Este artigo explora os cinco fatos mais importantes e surpreendentes sobre a DoxiPEP, com base nas evidências científicas mais recentes e nas recomendações de especialistas.


A Eficácia é Alta, Mas Com Uma Ressalva Importante


Estudos clínicos robustos demonstraram que a DoxiPEP tem uma eficácia impressionante na prevenção de ISTs bacterianas. Pesquisas apontam para reduções que variam de 70% a 80% para sífilis e de 70% a 90% para clamídia, conforme dados compilados por agências de saúde como o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA e o consenso de especialistas da Austrália.


No entanto, há uma ressalva crucial: a eficácia contra a gonorreia é consideravelmente menor e inconsistente, variando de cerca de 50-55% em alguns estudos a completamente ineficaz em outros. A razão para essa inconsistência, conforme detalhado nas diretrizes do CDC e no consenso de especialistas da Austrália, é o alto nível de resistência que a bactéria da gonorreia já desenvolveu à classe de antibióticos da doxiciclina (as tetraciclinas). Esses números impressionantes são o principal argumento a favor da DoxiPEP, mas a eficácia variável contra a gonorreia já aponta para o seu maior desafio: a resistência bacteriana.


Essa diferença de eficácia levou especialistas a definir melhor sua principal aplicação, como destacado na declaração de consenso australiana:


"A DoxiPEP deve ser considerada principalmente para a prevenção da sífilis em homens gays, bissexuais e outros homens que fazem sexo com homens (HSH/GBMSM) que estão em risco para esta IST, embora para alguns indivíduos a redução da clamídia, e a menor redução da gonorreia, possam ser importantes."

Não é Para Todos (Pelo Menos, Por Enquanto)


As recomendações atuais para o uso da DoxiPEP são direcionadas a um público bastante específico, não sendo indicadas para a população em geral. Diretrizes como as do CDC dos EUA e do consenso australiano focam em homens gays, bissexuais e outros homens que fazem sexo com homens (HSH) e em mulheres transgênero (TGW) que tiveram um diagnóstico de IST bacteriana (sífilis, clamídia ou gonorreia) nos últimos 12 meses.


A especificidade da recomendação se deve ao perfil dos participantes dos estudos que comprovaram sua eficácia, mas também a um cálculo de risco-benefício. Essa recomendação focada visa maximizar os benefícios da DoxiPEP (prevenindo sífilis e clamídia, onde é mais eficaz) para as populações com maior incidência, ao mesmo tempo que busca minimizar a exposição desnecessária a antibióticos na população geral, limitando assim o risco de resistência. Um ensaio clínico com mulheres cisgênero no Quênia, por exemplo, não encontrou uma redução significativa de ISTs, possivelmente devido à baixa adesão ao protocolo, o que significa que os dados atuais ainda não sustentam a recomendação para este público.


No Brasil, ainda não existe uma diretriz nacional. A Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (CONITEC) está avaliando a tecnologia para uma possível incorporação no SUS. A avaliação da CONITEC no Brasil reflete exatamente o debate global: como equilibrar a eficácia comprovada da DoxiPEP com as preocupações de longo prazo sobre a resistência antimicrobiana, um desafio central para a saúde pública nacional. Enquanto isso, o uso "off-label" (fora das indicações da bula) já acontece, especialmente entre membros da comunidade LGBTQIAPN+.


O Maior Debate Não é a Eficácia, Mas o Risco de "Superbactérias"


A principal preocupação em torno do uso da DoxiPEP não é se ela funciona, mas sim seu potencial impacto na resistência antimicrobiana (RAM). A RAM, popularmente conhecida como o surgimento de "superbactérias", ocorre quando bactérias se tornam resistentes aos antibióticos que antes as eliminavam, tornando as infecções mais difíceis de tratar. Este é um dos maiores desafios da saúde pública global.


O uso generalizado de um antibiótico como a doxiciclina para prevenção poderia acelerar esse processo de RAM. A preocupação não se limita apenas às bactérias que causam ISTs, mas também às chamadas "bactérias espectadoras" (bystander organisms) — micro-organismos que vivem naturalmente em nosso corpo. De fato, dados do estudo DoxyPEP mostraram que, após 12 meses, a prevalência de Staphylococcus aureus resistente à tetraciclina nas narinas dos participantes aumentou de 5% para 13% no grupo que usou DoxiPEP, um dado que alimenta a preocupação dos especialistas.


Essa questão foi tão central nas discussões de especialistas que, no consenso australiano, uma minoria defendeu que a DoxiPEP deveria ser considerada apenas para a prevenção da sífilis, justamente para minimizar o risco de ampliar a resistência antimicrobiana.


É uma Peça do Quebra-Cabeça, Não a Solução Mágica


A DoxiPEP não deve ser vista como uma solução única e definitiva, mas sim como mais uma ferramenta dentro de uma estratégia maior, conhecida como "prevenção combinada". Isso significa que ela não substitui outros métodos fundamentais, como o uso de preservativos, a testagem regular para ISTs e o uso da PrEP (Profilaxia Pré-Exposição) para a prevenção do HIV.


A camisinha, por exemplo, continua sendo um método extremamente eficaz de prevenção. No entanto, dados mostram que sua adesão está longe do ideal. Uma Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019 revelou que cerca de 60% dos entrevistados não usaram preservativo em relações sexuais nos 12 meses anteriores. A melhor estratégia é sempre aquela que a pessoa consegue adotar de forma consistente.


A infectologista Andrea Almeida, do Hospital do Servidor Público Estadual (HSPE), reforça essa mensagem:


"É importante lembrar de que o uso de PEP, seja no combate à sífilis ou ao HIV, não incentiva o sexo desprotegido. O ideal para evitar ISTs é a estratégia de prevenção combinada, ou seja, o indivíduo utilizar mais de um método para se proteger."

O Futuro da Prevenção de ISTs


A DoxiPEP representa uma dualidade complexa: é uma ferramenta poderosa, com benefícios claros na redução de ISTs bacterianas para populações específicas, como homens gays e mulheres trans. Ao mesmo tempo, carrega incertezas e riscos importantes, evidenciados pelo aumento concreto da resistência em bactérias como o S. aureus. Sua implementação exige um delicado equilíbrio entre a saúde individual e a saúde coletiva.


Enquanto o Brasil e outros países avaliam os próximos passos, o debate continua. Diante de um cenário de ISTs em alta, como equilibraremos a urgência da prevenção individual com a responsabilidade coletiva de preservar a eficácia dos nossos antibióticos para o futuro?



 
 
 

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