Efeitos Surpreendentes do Ozempic em Pessoas Vivendo com HIV que Você Não Conhecia
- João Geraldo Netto

- há 2 dias
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Atualizado: há 36 minutos

O Hype e a Realidade Oculta
Medicamentos como o Ozempic, cujo princípio ativo é o semaglutido, tornaram-se um verdadeiro fenômeno cultural. O "hype" em torno de seu poder na perda de peso e no controle do diabetes domina conversas, redes sociais e manchetes. Essas drogas, conhecidas como agonistas do receptor GLP-1, parecem ser a resposta que muitos esperavam para desafios metabólicos complexos, gerando uma demanda que supera em muito a capacidade de produção.
No entanto, para além das histórias de sucesso na balança, a ciência revela uma realidade muito mais complexa, cheia de efeitos profundos, inesperados e até contraditórios. Isso é especialmente verdade para populações específicas, como as pessoas que vivem com HIV, que foram originalmente excluídas dos grandes estudos de registro do medicamento. Pesquisas recentes, apresentadas em conferências como a CROI 2024, começam a desvendar um quadro fascinante dos benefícios e riscos do semaglutido nesse grupo, revelando descobertas que vão muito além do que se imagina.
Não é Apenas Sobre Apetite. Pode Ajudar a Combater Vícios
O mecanismo de ação do semaglutido não se limita ao sistema digestivo. Os receptores GLP-1, que a droga ativa, também estão presentes no cérebro, em áreas que regulam o desejo e a recompensa. Da mesma forma que o medicamento parece quebrar o "desejo de recompensa" por comida, ele pode ter um impacto semelhante na compulsão por substâncias como o álcool.
Evidências preliminares e estudos em andamento já investigam o uso do semaglutido para o transtorno do uso de álcool. Além disso, na conferência CROI 2024, discutiu-se o potencial especulativo do medicamento para reduzir a dependência de metanfetamina, uma condição que atualmente não possui tratamentos medicamentosos eficazes.
Mas o tratamento de dependências pode ser apenas a ponta do iceberg. Pesquisas estão explorando ativamente o uso de agonistas do GLP-1 para uma gama surpreendente de outras condições, incluindo:
Complicações hepáticas e renais
Asma e complicações pulmonares
Doenças cardíacas e osteoartrite
Saúde mental e doença de Alzheimer
Aumento da fertilidade e epilepsia de início tardio
Isso reposiciona o semaglutido de um medicamento metabólico para uma potencial ferramenta terapêutica de vasto alcance, com implicações em neurologia, cardiologia e além.
O Lado Sombrio da Perda de Peso. A Redução de Músculos e Gordura Essencial
Um dos efeitos colaterais mais contraintuitivos é que a perda de peso não se limita à gordura; ela também causa uma redução significativa da massa muscular magra. O estudo SLIM Liver (ACTG A5371) demonstrou uma diminuição de 9,3% no volume do músculo psoas (músculo profundo do abdômen) em apenas 24 semanas de tratamento.
O impacto é ainda mais preocupante em populações mais velhas. O mesmo estudo revelou que a perda muscular foi drasticamente maior em pessoas com mais de 60 anos, que sofreram uma redução de 22,8% no volume do músculo psoas. Contudo, em um paradoxo científico fascinante, os pesquisadores observaram que, apesar dessa drástica redução no volume muscular, indicadores funcionais de fragilidade, como a velocidade da marcha, não pioraram significativamente e até mostraram uma modesta melhora.
Além da perda muscular, o medicamento pode agravar a lipoatrofia facial e periférica — a perda de gordura em locais como rosto, braços e pernas. Este é um efeito colateral histórico e estigmatizante de algumas terapias mais antigas para o HIV. Isso cria um paradoxo: um medicamento usado para tratar o acúmulo de gordura central (lipo-hipertrofia) pode piorar a perda de gordura em outras áreas. Esses achados exigem uma avaliação criteriosa de riscos versus benefícios, provando que nem toda perda de peso é inerentemente positiva.
Um Poderoso Anti-inflamatório e Protetor do Fígado
Um estudo randomizado com pessoas com HIV e lipo-hipertrofia mostrou que o semaglutido reduziu significativamente marcadores de inflamação associados a doenças cardiovasculares, como a Interleucina-6 (IL-6) e a proteína C-reativa de alta sensibilidade (hsCRP).
Os resultados mais impressionantes, no entanto, vieram do estudo SLIM Liver. O tratamento com semaglutido levou a uma redução relativa de 31,3% na gordura do fígado em 24 semanas. Como resultado, a doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica (MASLD, anteriormente conhecida como DHGNA, ou doença hepática gordurosa não alcoólica) foi completamente resolvida em 29% dos participantes.
Esses benefícios mostram que o semaglutido vai muito além da estética da perda de peso. Ele atua diretamente contra condições graves e comuns em pessoas que vivem com HIV, como doenças cardíacas e hepáticas, oferecendo uma nova e poderosa ferramenta para proteger a saúde a longo prazo.
O Paradoxo do Acesso. Um Remédio Milagroso que Poucos Podem Pagar
Apesar dos resultados clínicos notáveis, a demanda pelo medicamento excede a oferta, e o acesso é restrito até mesmo para a pesquisa científica. O fabricante, Novo Nordisk, não apoiou estudos independentes em pessoas vivendo com HIV, deixando a comunidade científica e os pacientes em uma posição vulnerável.
A disparidade de preços é gritante. Um tratamento de 30 dias pode custar de $804 nos Estados Unidos a $95 na Turquia. Essa variação reflete estratégias de mercado, e não o custo de produção. O dado mais chocante, no entanto, revela a margem de lucro por trás dessa barreira de acesso.
De acordo com um artigo na JAMA Open Network, medicamentos GLP-1 como o Ozempic são vendidos com uma margem de quase 40.000% nos EUA, enquanto permanecem indisponíveis em países de baixa e média renda.
Contudo, a luta pelo acesso global já começou. Organizações como o Medicines Patent Pool (MPP) incluíram os agonistas GLP-1 em sua lista de medicamentos prioritários, buscando o licenciamento voluntário que permitiria a produção de genéricos. É uma ironia cruel: um medicamento com potencial para tratar condições que afetam quase meio bilhão de pessoas com diabetes e mais de um bilhão com obesidade permanece inacessível para a maioria, aprisionado por patentes e preços proibitivos.
Uma Revolução Cheia de Perguntas
O semaglutido é, sem dúvida, um medicamento multifacetado. Seus benefícios vão da saúde metabólica ao potencial tratamento de vícios, mas sua jornada é marcada por efeitos colaterais sérios e por imensas barreiras socioeconômicas. A experiência da comunidade HIV, que lutou por décadas por acesso a medicamentos, serve como um alerta para o que pode acontecer com o quase meio bilhão de pessoas com diabetes e mais de um bilhão com obesidade em todo o mundo.
Diante de um potencial tão vasto e de problemas tão grandes, a questão que fica é: como podemos garantir que as revoluções farmacêuticas beneficiem a todos, e não apenas àqueles que podem pagar por elas?
Fontes e Referências Bibliográficas
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Semaglutide’s efficacy in achieving weight loss for those with HIV (SWIFT)
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