MÓDULO 5: Saúde Integral LGBTI+. Cuidado, prevenção e redução de danos
- Synô Milía (Multiverso)

- 16 de dez. de 2025
- 11 min de leitura
Atualizado: há 2 dias

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Olá! Que bom te ver de volta. Respire fundo. Solte o ar devagar.
Se nos módulos anteriores nós mexemos com coisas que estão "fora" de nós (o território, as leis, a ONU, a política), agora, no Módulo 5: Saúde Integral LGBTI+, nós voltamos para casa. Voltamos para o nosso corpo. Mas não voltamos apenas para falar de biologia, células ou vírus. Vamos falar de vida.
Como ativista e educador que já passou dos 40, eu vi muita coisa mudar na saúde da nossa comunidade. Vi a época em que o diagnóstico de HIV era uma sentença de morte e vi a chegada do "Indetectável = ZERO transmissão". Vi travestis morrerem por aplicação de silicone industrial sem nenhuma orientação e vi a conquista do Processo Transexualizador no SUS.
A saúde é, talvez, o campo onde a nossa luta é mais urgente, porque aqui não estamos falando apenas de "direitos" abstratos; estamos falando de sobrevivência imediata. Estamos falando de estar vivo amanhã para continuar amando, brigando e construindo.
Neste módulo, vamos derrubar o mito de que "saúde é ausência de doença". Vamos aprender sobre Prevenção Combinada (que vai muito além da camisinha), vamos falar honestamente sobre redução de danos (inclusive no uso de substâncias), sobre saúde mental e sobre como fazer o SUS funcionar para nós.
Este texto é um abraço de cuidado. Porque cuidar de si, num mundo que muitas vezes nos quer mal, é um dos maiores atos de rebeldia que existem.
Vamos juntos?
Saúde é Mais que Não Estar Doente: O Conceito de Saúde Integral
Vamos começar desconstruindo uma ideia velha. Muita gente acha que "ter saúde" é apenas não estar no hospital, não ter febre ou não ter um vírus. Mas, para nós, população LGBTI+, essa definição é pequena demais.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) e o nosso próprio SUS trabalham com um conceito ampliado: saúde é um estado de bem-estar físico, mental e social. Para uma pessoa LGBTI+, isso significa que:
Não adianta o corpo estar "são" se a mente está destruída pelo medo de sair na rua.
Não adianta ter acesso a remédio se o médico te humilha na consulta.
Não adianta ter prevenção se você não tem comida na mesa ou teto para morar.
O Que é a Saúde Integral?
Quando falamos em Saúde Integral LGBTI+, estamos dizendo que o médico, o enfermeiro ou o psicólogo precisam olhar para você inteiro . Eles precisam entender que um homem trans pode precisar de ginecologista. Que uma mulher lésbica tem questões de saúde sexual específicas que não envolvem penetração peniana. Que uma travesti que usa hormônios por conta própria não precisa de bronca, precisa de orientação para reduzir danos. Que um homem gay pode querer falar sobre sexo anal sem ser julgado.
A Saúde Integral é o direito de entrar numa Unidade Básica de Saúde (UBS) e ser tratado pelo nome social, ser respeitado na sua identidade e ter suas demandas específicas atendidas, sem que olhem para você como uma "curiosidade médica" ou um "pecador". Saúde é dignidade. E sem dignidade, ninguém é saudável de verdade.
O SUS é Nosso: A Maior Ferramenta de Cidadania
Antes de entrarmos nas tecnologias de prevenção, precisamos defender o chão onde pisamos: o Sistema Único de Saúde (SUS). Muitas vezes reclamamos da fila, da demora, da falta de recursos. E a crítica é justa, precisamos cobrar melhorias. Mas nunca se esqueça: o SUS é um dos maiores sistemas de saúde pública do mundo e é o principal aliado da população LGBTI+ no Brasil.
Foi o SUS que garantiu, desde os anos 90, o acesso universal e gratuito ao tratamento de HIV/Aids, transformando o Brasil em referência mundial. É o SUS que oferece a hormonioterapia para pessoas trans. É o SUS que oferece a vacina, o teste rápido, a PEP e a PrEP.
Defender o SUS é uma pauta LGBTI+. Por quê? Porque a maioria da nossa população, especialmente travestis, pessoas trans e jovens negros da periferia, não tem plano de saúde privado. Se o SUS acabar ou for privatizado, quem morre primeiro somos nós. Então, quando você entra na UBS, entre com postura de dono. Aquele espaço é seu. A Política Nacional de Saúde Integral LGBT, criada em 2011, garante que aquele espaço deve ser livre de discriminação e preparado para te receber.
Prevenção Combinada: O Fim da "Era do Terror" e a Mandala da Prevenção
Eu cresci numa época em que falar de sexo gay era sinônimo de falar de morte. As campanhas de prevenção eram baseadas no terror: "use camisinha ou morra". Isso criou gerações de pessoas com medo do próprio desejo, com culpa e com pânico do HIV.
Felizmente, a ciência avançou e nos deu um presente: a Prevenção Combinada. O que é isso? É a ideia de que não existe um método único que sirva para todo mundo o tempo todo. A camisinha é maravilhosa e protege contra várias ISTs (Infecções Sexualmente Transmissíveis) e gravidez indesejada. Mas ela não é a única estratégia. A prevenção combinada é como uma "Mandala" ou um cardápio. Você escolhe o que funciona para você, naquele momento da sua vida, com aquela parceria específica.
Vamos conhecer as principais ferramentas dessa Mandala disponíveis no SUS:
PrEP (Profilaxia Pré-Exposição)
Imagine uma pílula que você toma todo dia (ou sob demanda, em alguns casos) e que cria uma barreira química no seu sangue, impedindo que o HIV se instale, mesmo que você tenha contato com o vírus. Isso é a PrEP.
Para quem é: Para qualquer pessoa que tenha risco aumentado de infecção (gays, homens que fazem sexo com homens - HSH, pessoas trans, trabalhadores do sexo, casais sorodiferentes).
Como funciona: Disponível gratuitamente no SUS. Exige acompanhamento médico a cada 3 ou 4 meses.
O pulo do gato: A PrEP não é só sobre evitar o vírus. É sobre tirar o medo da transa. Muitos jovens relatam que, ao usar PrEP, conseguiram transar sem a "sombra da morte" na cabeça pela primeira vez. Isso é saúde mental!
PEP (Profilaxia Pós-Exposição)
A camisinha estourou? Transou sem proteção e bateu o desespero? Sofreu uma violência sexual? A PEP é a "pílula do dia seguinte" do HIV.
Como funciona: Você deve procurar um serviço de saúde (UPA, Hospital, CTA) o mais rápido possível, idealmente nas primeiras 2 horas, mas até no máximo 72 horas (3 dias) após a exposição.
O tratamento: Você toma os medicamentos por 28 dias. Se tomado corretamente, a chance de impedir a infecção é altíssima.
Dica de ativista: Todo mundo precisa saber onde tem PEP na sua cidade. Ter essa informação salva vidas numa emergência.
Testagem Regular
Fazer o teste de HIV, Sífilis e Hepatites não deve ser um momento de terror, tipo "vai sair a sentença". Deve ser rotina, igual ir ao dentista. Quanto mais cedo a gente descobre, mais fácil é tratar. A sífilis, por exemplo, tem cura rápida com penicilina. O HIV tem controle total com a medicação. O teste regular é uma forma de autocuidado, não de autopunição.
Indetectável = ZERO transmissão (I=0)
Essa é a maior revolução dos últimos tempos. Estudos científicos robustos (como o PARTNER 2) comprovaram: uma pessoa vivendo com HIV que faz o tratamento corretamente e está com a carga viral indetectável (vírus adormecido) NÃO transmite o HIV sexualmente. Mesmo sem camisinha. Repita comigo: Zero risco de transmissão.
Por que isso é importante?
Derruba o estigma de que a pessoa com HIV é uma "bomba relógio".
Permite que pessoas com HIV tenham vida sexual plena, tenham filhos naturalmente e namorem sem medo de infectar a parceria.
Incentiva o tratamento: "se eu me tratar, eu protejo quem eu amo".
O Instituto Multiverso e o canal Super Indetectável, liderados pelo nosso coordenador João Geraldo Netto, batem nessa tecla dia e noite: a ciência venceu o preconceito. Quem vive com HIV e se trata tem vida normal, saudável e longa. O vírus a gente trata com remédio; o preconceito a gente trata com informação.
Saúde Trans e Travesti: O Corpo como Construção de Liberdade
Quando falamos da população T (Travestis, Transexuais e Pessoas Não Binárias), a saúde ganha contornos muito específicos. Aqui, o cuidado médico se mistura com a construção da identidade.
O Processo Transexualizador no SUS
O SUS oferece, por lei, o acompanhamento para hormonização e cirurgias de modificação corporal (redesignação sexual, mastectomia, implante de próteses, etc.). Sabemos que a fila é grande e que faltam ambulatórios especializados em muitas cidades. Mas é um direito conquistado. O acompanhamento médico é vital porque hormônios não são brincadeira. Eles mexem com o fígado, com o sangue, com o humor, com a libido. Atenção: A automedicação ("tomar o que a amiga indicou") é uma realidade por causa da barreira de acesso, mas nosso papel como educadores é informar sobre a Redução de Danos na Hormonização. Se a pessoa vai tomar por conta, que ela saiba pelo menos quais exames de sangue precisa fazer para não ter uma trombose.
O Silicone Industrial
Um tema delicado e doloroso. Muitas travestis, historicamente excluídas do acesso a próteses seguras, recorreram (e recorrem) à aplicação de silicone industrial líquido (o famoso "bombadear") para construir suas curvas. Isso não é estética fútil; é sobrevivência. Ter um corpo feminino muitas vezes é o que garante o trabalho na pista e o reconhecimento social. Porém, o silicone industrial é um perigo. Ele pode migrar pelo corpo, causar infecções graves, dores crônicas e morte. Nossa abordagem não pode ser de julgamento ("nossa, que loucura fazer isso"). Tem que ser de acolhimento. A redução de danos aqui envolve orientar sobre os riscos, lutar pelo acesso a próteses seguras no SUS e acolher quem já tem o silicone e sofre com as consequências.
Redução de Danos (RD): Uma Política de Afeto, Não de Julgamento
A Redução de Danos (RD) é uma filosofia que diz o seguinte: "O ideal seria que ninguém corresse riscos. Mas, já que as pessoas usam substâncias, transam e se expõem, como podemos fazer isso machucando menos?". A RD não diz "não use drogas". Ela diz: "se for usar, faça assim para não morrer". É uma abordagem pragmática, humana e livre de moralismo.
O Chemsex (Sexo Químico ou Uso Sexualizado de Substâncias)
O Instituto Multiverso tem um projeto específico sobre isso, chamado ColocAÇÃO. O chemsex é a prática de usar substâncias específicas (metanfetamina, GHB/GBL, cocaína, poppers, etc.) para facilitar, prolongar ou intensificar o sexo. É uma realidade crescente, especialmente entre homens gays e HSH.
Quais são os riscos?
Esquecer a camisinha ou a PrEP.
Desidratação e exaustão.
Overdose (especialmente com GHB).
Vulnerabilidade a violências (ficar inconsciente).
Questões de saúde mental (a "depressão" pós-uso).
A Redução de Danos no Chemsex envolve estratégias práticas :
Informação: Saber o que está tomando. Misturar substâncias (ex: depressor com estimulante) pode ser fatal.
Logística: Ter água, ter camisinha à mão antes de começar, ter alguém de confiança por perto.
Não Julgamento: Se um amigo chega para você e diz que está praticando chemsex, não dê sermão. Acolha. Se ele sentir que será julgado, ele se afasta e fica mais vulnerável.
Limites: Discutir consentimento sóbrio antes de usar qualquer coisa.
O projeto do Instituto distribui materiais informativos e atua em festas justamente para levar essa conversa para onde ela acontece, sem tabu.
Saúde Mental: A Ferida Invisível e o Estresse de Minoria
Não dá para falar de saúde LGBTI+ sem falar da cabeça e do coração. Nós temos taxas mais altas de depressão, ansiedade e suicídio do que a população geral. Isso significa que somos biologicamente "mais fracos" ou "desequilibrados"? Absolutamente não.
Isso acontece por causa de um conceito chamado Estresse de Minoria. Imagine viver 24 horas por dia em estado de alerta.
"Será que vão notar que sou trans?"
"Será que meus pais vão me expulsar?"
"Será que vou apanhar nesta rua?" Esse estado de tensão crônica desgasta o cérebro e o corpo. O preconceito adoece.
Além disso, enfrentamos a solidão. Muitos de nós perdem o vínculo familiar. O isolamento é um fator de risco enorme para a saúde mental.
Como Cuidar da Mente?
Aquilombar-se: A cura é coletiva. Estar entre pares, entre "iguais", onde você não precisa explicar quem é, relaxa o sistema nervoso. Grupos de apoio, coletivos, rodas de conversa são terapêuticos.
Profissionais Afirmativos: Buscar psicólogos e psiquiatras que entendam de gênero e sexualidade. Não adianta ir numa terapia onde você tem que "ensinar" o terapeuta ou onde ele tenta te "curar".
Tecnologia de Apoio: O Instituto Multiverso criou a Synô Milía, um chatbot (inteligência artificial) de acolhimento em saúde mental e HIV. É uma ferramenta digital para aquele momento em que você precisa de uma palavra segura e não tem a quem recorrer.
Autocuidado Radical: Dormir, comer bem, beber água, ver filmes que tenham finais felizes para gente como a gente. Parece bobagem, mas é manutenção da vida.
Violência e Saúde: O Corpo Guarda as Marcas
A violência (física, sexual, psicológica) é um problema de saúde pública. Quem sofre violência carrega traumas que podem virar dores crônicas, pânico, abuso de substâncias.
O acolhimento a vítimas de violência LGBTI+ precisa ser especializado.
Se você sofreu violência sexual, o SUS oferece o atendimento humanizado, que inclui a PEP (para evitar HIV), pílula do dia seguinte (se houver risco de gravidez) e profilaxia para outras bactérias. E você não é obrigado a fazer B.O. para receber atendimento de saúde. Saúde vem primeiro, polícia vem depois (se você quiser).
A notificação de violência é obrigatória para o serviço de saúde (para fins estatísticos), mas o sigilo é seu direito.
A Luta por Uma Velhice Digna
Por fim, quero falar de futuro. Por muito tempo, a expectativa de vida de pessoas trans e de pessoas vivendo com HIV era baixa. Nós não nos imaginávamos velhos. Mas nós estamos envelhecendo! E agora temos um novo desafio: a Gerontologia LGBTI+. Como serão os asilos? Eles vão respeitar a identidade de uma idosa trans? Eles vão aceitar um casal de velhinhos gays de mãos dadas? Preparar o sistema de saúde para o nosso envelhecimento é a pauta do agora. Projetos como o "Longevidade Posithiva", do Instituto Multiverso, trazem visibilidade para idosos vivendo com HIV, mostrando que existe vida, beleza e potência na velhice queer.
Atividade Prática: Mapeando sua Mandala de Cuidado
Para encerrar este módulo, proponho um exercício de autoconhecimento em saúde. Pegue um papel ou use o bloco de notas do celular.
Minha Proteção Sexual:
Hoje, qual é o meu método principal? (Camisinha? PrEP? Parceria fechada com exames em dia? I=I?)
Eu sei onde buscar PEP na minha cidade se precisar numa emergência de madrugada? (Pesquise agora: "onde tem PEP em [sua cidade]"). Anote o endereço.
Meu Corpo:
Quando foi a última vez que fiz um check-up geral?
Existe algum desconforto que estou ignorando por medo de ir ao médico?
Eu tenho um médico ou posto de saúde de confiança? Se não, quem pode me indicar um?
Minha Mente:
O que eu faço quando a ansiedade bate?
Quem são as 3 pessoas que eu posso chamar se estiver muito mal?
Eu tenho conseguido descansar ou estou em "alerta" o tempo todo?
Minha Rede:
Eu conheço algum coletivo ou ONG local que trabalhe com saúde LGBTI+?
Fazer esse check-list é um ato de amor próprio.
Cuidar-se é um Ato Político
Chegamos ao fim do Módulo 5. Espero que este texto tenha tirado o peso da palavra "doença" e colocado luz na palavra "cuidado".
Nós, pessoas LGBTI+, fomos ensinados a odiar nossos corpos. A achar que éramos sujos, errados ou vetores de vírus. A Saúde Integral é o caminho de volta para amar a nossa própria pele. Quando você toma sua PrEP, você está se amando. Quando você exige ser chamado pelo nome social no hospital, você está se respeitando. Quando você acolhe um amigo que usou drogas demais na festa, em vez de julgá-lo, você está praticando solidariedade.
O ativismo precisa de gente viva. Precisa de gente sã. Precisa de gente forte. Cuide de você, não só para "não ficar doente", mas para estar pronto para todas as coisas maravilhosas que a sua vida ainda vai te proporcionar.
No próximo módulo, vamos aprender a gritar tudo isso para o mundo. Vamos falar de Comunicação e Advocacy Digital. Vamos aprender a disputar a narrativa.
MATERIAL COMPLEMENTAR
Vídeo
Podcast
Infográfico

Glossário Rápido de Saúde LGBTI+
CD4/Carga Viral: Exames de sangue para quem vive com HIV. CD4 mede a imunidade (soldados de defesa). Carga Viral mede a quantidade de vírus. A meta é: CD4 alto, Carga Viral indetectável.
Hormonização: Uso de hormônios (testosterona, estrogênio, bloqueadores) para adequar o corpo à identidade de gênero. Deve ser acompanhada por endocrinologista.
Nome Social: Nome pelo qual pessoas trans e travestis preferem ser chamadas, diferente do registro civil. É direito garantido no SUS (Cartão SUS deve ter esse nome).
Redução de Danos (RD): Conjunto de práticas para minimizar danos associados ao uso de substâncias ou comportamentos de risco, sem exigir abstinência.
Chemsex: Sexo sob efeito de substâncias psicoativas específicas.
I=I (Indetectável = ZERO transmissão): Pessoa com HIV em tratamento eficaz não transmite o vírus sexualmente.
* Este conteúdo faz parte do projeto "Fortalecendo Vozes LGBTI+", realizado pelo Instituto Multiverso com apoio da MPact Global Action. Nosso compromisso é com a educação acessível e a defesa intransigente dos direitos humanos na América Latina e Caribe.




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