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JUAN CARLOS RAXACH


Juan Carlos de La Concepción Raxach

(≈1940 - 02/07/2020)


“Manter a carga viral indetectável é viver com saúde, qualidade de vida, autonomia, dignidade e futuro e, consequentemente, contribuir para a não transmissão do HIV.”


Conhecido no meio ativista, acadêmico e governamental simplesmente como Juan Carlos Raxach, ele foi um dos pilares da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (ABIA). Sua trajetória é o símbolo de uma ponte indestrutível entre a ciência e a militância, tornando-se uma referência incontornável para a saúde pública brasileira e latino-americana ao desafiar as hierarquias tradicionais do sistema de saúde em prol de um cuidado horizontalizado.


Juan nasceu em Havana, Cuba. Sua formação médica ocorreu entre o final da década de 1980 e o início dos anos 1990, no Instituto Superior de Ciências Médicas de Havana. Este período foi o marco inicial de uma jornada onde a medicina social e comunitária cubana — pilar de sua formação acadêmica — encontrou a urgência de uma resposta humanitária ao HIV. Sua trajetória prova que a precisão cronológica de sua vida se funde, inevitavelmente, com o início de sua jornada de resistência global.


O ciclo de Juan Carlos encerrou-se em 4 de março de 2026, na cidade do Rio de Janeiro. Sua partida por um infarto fulminante gerou uma comoção unânime, unindo desde instituições oficiais do governo federal até coletivos de populações vulnerabilizadas. O encerramento de sua vida física foi sentido como o fechamento de um ciclo histórico de quem viveu "sempre resistindo", atravessando décadas de epidemia com uma resiliência que transformou a finitude em um legado de esperança coletiva.


VIDA PESSOAL


Juan Carlos Raxach foi o arquiteto de uma vida que uniu a Havana de sua juventude ao Rio de Janeiro de sua maturidade. Sua formação em Cuba, centrada na medicina social, forneceu o substrato ideológico para sua futura defesa do Sistema Único de Saúde (SUS). Ainda em solo cubano, Juan enfrentou o diagnóstico pessoal de HIV, evento que atuou como o catalisador de sua força vital.


Durante seus anos em Havana, Juan navegou pelas complexidades do sistema de saúde local, atuando no Sanatório Santiago de Las Vegas. Mesmo diante do controverso regime de confinamento de pessoas com HIV vigente na época, ele organizou a resistência interna ao fundar o GPSIDA (Grupo de Prevención del SIDA), estabelecendo o acesso à informação como um direito humano básico. Em 1998, radicou-se no Brasil, escolhendo o Rio de Janeiro como território para sua militância. Sua identidade caribenha integrou-se plenamente à luta brasileira, consolidando sua vocação para um ativismo clínico que entende a saúde como um ato indissociável da justiça social.


COMO CONTRIBUIU NA LUTA CONTRA O HIV/AIDS


A maior ferramenta de Juan foi sua capacidade de operar na interdisciplinaridade, rompendo as barreiras entre o consultório e a política pública. Sua atuação estruturou-se em pilares fundamentais:


  • Fundação do GPSIDA (Cuba): Onde transformou o sanatório em um espaço de educação e direito à saúde.

  • Liderança na ABIA: Como Coordenador de Projetos, foi o guardião do legado de Herbert Daniel, unindo pesquisa e advocacia política.

  • Consultoria Técnica e Controle Social: Atuou de forma assídua no Dathi (Departamento de HIV, Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e Infecções Sexualmente Transmissíveis) da SVSA (Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente). Sua voz no Comitê Técnico Assessor (CTA) e na Cnaids (Comissão Nacional de Aids) foi crucial para a formulação de protocolos que humanizaram o tratamento no SUS.

  • Tradução de Saberes: Como tradutor para a OPAS/OMS, Juan literalmente mediou o conhecimento entre culturas, adaptando manuais técnicos para linguagens acessíveis a adolescentes e populações vulneráveis.


O Valor de sua Atuação ("So What?"): Juan desafiou a hierarquia médica tradicional ao levar os "corpos do mundo real" para dentro das salas burocráticas de Brasília. Sua presença no CTA garantia que os Protocolos Clínicos fossem desenhados não apenas para suprimir vírus, mas para sustentar vidas dignas. Ele foi o arquiteto de uma "democracia sanitária" onde a eficácia do remédio dependia, essencialmente, do respeito ao cidadão.


MEMÓRIAS E AFETOS


Juan era a personificação do "médico-militante", alguém que nunca permitiu que o título acadêmico criasse distâncias. Sua formação como terapeuta psico-orgânico era o que fundamentava sua calma lendária e sua capacidade de escuta em momentos de conflito político intenso; ele aplicava a clínica para pacificar o debate e avançar nos direitos.


Sua afetividade era horizontal, sendo respeitado com a mesma reverência pela academia e por coletivos como a Casa Nem. Em seus últimos momentos, a canção "Sigo Vivo", de Ronkalunga, tornou-se o símbolo de sua essência: uma resistência sem medo. Juan não apenas tratava pacientes; ele acolhia histórias, transformando o ato médico em um encontro de almas.


O QUE PERMANECE (LEGADO)


A imortalidade do trabalho de Juan Carlos de La Concepción Raxach manifesta-se em três dimensões:


  1. A Ponte para o Futuro: Suas contribuições técnicas aos Protocolos Clínicos (PCDT) garantem que milhões de pessoas atravessem o diagnóstico em direção a uma vida com qualidade e autonomia.

  2. A Mudança Social e Regional: Seu papel na Cooperação Sul-Sul e na integração da resposta ao HIV na América Latina e Caribe fortaleceu a solidariedade regional contra o fundamentalismo e o estigma.

  3. A Inspiração Permanente: Sua trajetória prova que a solidariedade institucionalizada pelo SUS é capaz de salvar vidas e restaurar a cidadania plena.


O espírito de Juan Carlos de La Concepción Raxach segue vivo. Ele permanece presente em cada ação de combate ao preconceito, em cada avanço do tratamento público e em cada conquista de autonomia para as PVHIV. Sua vida é o tributo definitivo à verdade de que a medicina, quando aliada à justiça social, é o maior instrumento de cura de uma nação.



 
 
 

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