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CIDA LEMOS


Maria Aparecida Lemos

(≈1940 - 02/07/2020)


"O HIV não tem cara, tem vida, tem saúde, tem cuidado e respeito, e da mesma forma precisa de respeito e de muita informação, principalmente para quem não tem o vírus."


Tecer este memorial é um ato de justiça e um exercício de memória viva. Registrar formalmente a existência de Maria Aparecida Lemos, no âmbito do Memorial da Aids lançado em março de 2023 pelo Instituto Multiverso, é um imperativo ético contra o apagamento histórico das lideranças femininas na saúde pública brasileira. Documentar sua trajetória é assegurar que o "jardim de boas lembranças" deste memorial digital floresça com a verdade de quem transformou dor em esperança coletiva.


A VOZ QUE ORIENTA


A comunicação de Cida Lemos foi uma das estratégias mais sofisticadas e humanas da saúde pública brasileira. Ela possuía a rara sensibilidade de deslocar o estigma do indivíduo para a estrutura social, transformando o diagnóstico em um manifesto de cidadania.


"O HIV não tem cara, tem vida, tem saúde, tem cuidado e respeito, e da mesma forma precisa de respeito e de muita informação, principalmente para quem não tem o vírus."

Esta frase desconstrói o arcaico conceito de "grupo de risco", humanizando o viver com o vírus. Ao afirmar que o HIV "tem vida", Cida confronta a cegueira social e convoca a sociedade a assumir sua responsabilidade no cuidado. Ela nos ensinou que o diagnóstico não é uma sentença, mas um chamado ao respeito e à informação rigorosa.


DO MAGISTÉRIO À RESILIÊNCIA


A história de Cida Lemos é um arco de heroísmo cotidiano que se iniciou no Rio de Janeiro. Antes de se tornar um ícone da militância, ela dedicou-se ao ensino como professora de Ciências e Português, chegando à direção de escola pública. Registros sugerem uma possível ascendência ligada à linhagem cultural do editor José Olympio, o que torna sua escolha pelo magistério público e pelo ativismo de base um gesto ainda mais singular de entrega à justiça social.


Em 2000, Cida recebeu o diagnóstico de HIV. No ano seguinte, enfrentou a perda total da visão (amaurose) devido a infecções oportunistas como o citomegalovírus (CMV) e a toxoplasmose. Após um período inicial de profunda tristeza e depressão, Cida emergiu com uma resiliência extraordinária. Sua militância tornou-se sua aula mais importante fora das salas de aula, onde ela ensinou ao Brasil que a escuridão física não impede a visão política aguda.


Cida partiu em 2020, vítima de um câncer. Há uma vitória simbólica e profundamente humanista em sua morte: o fato de uma pessoa vivendo com HIV há décadas falecer por causas naturais associadas ao envelhecimento é um testamento do sucesso da terapia antirretroviral. Sua partida confirmou o que ela sempre defendeu: com o Sistema Único de Saúde (SUS), é possível envelhecer com dignidade e plenitude.


A MILITÂNCIA INTERSECCIONAL: ENXERGANDO O INVISÍVEL


Cida Lemos transformou suas supostas "limitações" em potentes ferramentas de mobilização política. Ela utilizou seu status sorológico e sua deficiência visual para pautar uma agenda interseccional que incluía gênero, acessibilidade e soberania nacional.


  • Liderança e Redes: Atuou como coordenadora do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas (MNCP) no Rio de Janeiro e foi membro vital da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e Aids (RNP+).

  • Ciência e Direitos: Foi o rosto da campanha "Sou + Estou Indetectável", sendo uma defensora ferrenha do conceito I=I (Indetectável = Intransmissível).

  • Soberania e Acesso: Defendeu a quebra de patentes, celebrando a anulação da patente do medicamento Efavirenz como se fosse uma festa pessoal, compreendendo que o acesso ao remédio é um direito humano básico.

  • Solidariedade Ampliada: Foi uma das primeiras ativistas a oferecer suporte ao movimento de pessoas vivendo com o vírus HTLV, unificando lutas contra o preconceito.


Sua participação no documentário "Posithivas" permitiu que a sociedade finalmente "enxergasse" as mulheres heterossexuais vivendo com HIV. A ironia poética de sua vida é que, ao perder a visão física, Cida desenvolveu uma visão social tão profunda que ajudou o país a derrubar o muro de preconceito que cega a cidadania.


MEMÓRIAS E AFETOS: A CIDA QUE CATIVAVA


Para Cida, o afeto não era apenas um sentimento, mas uma estratégia de sobrevivência e união política. A transição carinhosa de seu nome de "Maria Aparecida" para apenas "Cida" reflete a proximidade que ela estabelecia com todos. Ela era detentora de uma generosidade ímpar, sendo lembrada por seus pares por doar recursos pessoais e materiais de sua própria família para sustentar projetos de redução de danos e apoio a vulneráveis.


Sua vitalidade não conhecia fronteiras. Ao caminhar pelas ruas de Nova Iorque em um Dia Mundial de Luta contra a Aids, ela provou que sua cegueira não limitava seu trânsito no mundo. Cida não ocupava espaços; ela os iluminava, transformando cada encontro em uma lição de acolhimento e força.


O QUE PERMANECE: O LEGADO DAS PONTES CONSTRUÍDAS


Cida Lemos foi uma arquiteta de pontes sociais. Ela conectou a pauta da deficiência à pauta do HIV, unindo o saber pedagógico à defesa intransigente do Sistema Único de Saúde (SUS). Seu legado é uma estrutura permanente: um movimento de mulheres mais organizado e uma consciência nacional sobre a necessidade de acessibilidade sensorial nos serviços de saúde.


Historicamente, o trabalho de Cida será o marco da transição da aids de uma sentença de isolamento para uma pauta de direitos humanos e longevidade. Ela provou que a visão mais importante não é a dos olhos, mas a da consciência política e do coração.


Que este memorial sirva de inspiração para todos os que buscam a justiça. Embora Cida tenha partido, seu jardim de boas lembranças continua a florescer e a iluminar o caminho daqueles que acreditam que nenhum estigma é capaz de apagar a luz de uma vida dedicada ao cuidado e à liberdade.



 
 
 

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