JACQUE CÔRTES
- Instituto Multiverso
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Jacqueline Rocha Côrtes
(01/02/1960 - 14/08/2024)
"O isolamento acaba com a pessoa. Se isolou, morre"
UMA TRAJETÓRIA DE RESISTÊNCIA E AFETO
Jacqueline Rocha Côrtes personificou a dialética entre a biologia e a identidade subjetiva, transformando uma trajetória de vulnerabilidade em uma liderança diplomática que redefiniu o protagonismo trans na saúde global.
A VOZ DA RESISTÊNCIA
Este mantra, forjado no âmago do Grupo de Incentivo à Vida (GIV) em meados dos anos 90, não era apenas uma observação psicológica, mas uma estratégia deliberada de sobrevivência política. No contexto da época, em que o diagnóstico de HIV era recebido como uma "sentença de morte com aviso prévio", Jacque compreendeu que o estigma e o silêncio eram tão letais quanto o próprio vírus. Sua análise crítica propunha que a recusa ao isolamento social era o primeiro ato de rebeldia necessário para a manutenção da vida. Ao converter a dor individual em mobilização coletiva, ela estabeleceu a bússola que guiaria sua atuação: a crença inabalável de que a resposta a qualquer epidemia reside na força das redes de apoio e na visibilidade radical das identidades marginalizadas.
ORIGENS E O FLORESCER DA IDENTIDADE
Registrar trajetórias trans no Brasil é um exercício de memória social que atua como reparação histórica contra o apagamento sistêmico. Para o biógrafo de direitos humanos, a vida de Jacque é um testemunho de sucessivos renascimentos. Nascida em Niterói (RJ) e criada em São Paulo, sua identidade de gênero manifestou-se na infância: aos quatro anos, enquanto brincava descalça, já possuía a convicção íntima de sua feminilidade. Em um país carente de vocabulário para sua existência, ela só encontraria a palavra "transexualidade" aos 16 anos, por meio de uma notícia de jornal.
Sua jornada foi marcada por uma resiliência paciente. Antes de se tornar um ícone internacional, Jacque exercia sua vocação pedagógica como professora de inglês, habilidade que mais tarde seria o alicerce de sua comunicação diplomática. Sua transição física foi um processo de afirmação deliberada: iniciou a hormonioterapia aos 38 anos e realizou a cirurgia de readequação genital aos 41. No entanto, foi em 6 de junho de 1994, aos 34 anos, que seu destino se entrelaçou à luta coletiva com o diagnóstico positivo para o HIV. O falecimento em São Paulo, aos 64 anos, em decorrência de uma parada cardíaca, encerra o ciclo físico de uma mulher que nunca permitiu que o estigma definisse o limite de seu horizonte.
A DIPLOMACIA DO AFETO E DA JUSTIÇA
Jacque ocupou espaços de poder anteriormente vedados à população trans, provando que o protagonismo dessas identidades é uma fonte de competência técnica inestimável. Sua advocacia interseccional transitou entre o acolhimento comunitário e a alta burocracia estatal.
Base Comunitária e Redes: Foi uma das arquitetas da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV/Aids (RNP+Brasil) e coordenou o planejamento estratégico do Movimento Nacional de Cidadãs PositHIVas (MNCP), representando a voz das mulheres na América Latina.
Liderança Internacional e Gestão: Quebrou paradigmas ao ser a primeira consultora transexual do UNAIDS e integrar o Conselho Consultivo do UNFPA. No Ministério da Saúde, chefiou a Assessoria de Cooperação Internacional, onde defendeu a "SUS-dependência" como orgulho e a manutenção da Lei Sarney, garantindo que o acesso universal a medicamentos fosse uma política de Estado inegociável.
Visibilidade e Mídia: O documentário "Meu Nome é Jacque" (2016), exibido em espaços de prestígio como a Casa da ONU e plataformas como o Globoplay, além de sua atuação na Campanha "Indetectável", foram ferramentas pedagógicas fundamentais para desmistificar o vírus e combater a cisnormatividade na saúde.
O JARDIM DAS BOAS LEMBRANÇAS
A grandeza de Jacque residia no contraste fascinante entre a diplomata que negociava tratados internacionais e a avó que vivia o cotidiano sereno de uma cidade do interior. Sua humanidade não era burocrática; era vibrante. Ela desafiou o estereótipo da solidão trans ao construir uma família sólida como esposa e mãe de Luara e Gilson. Esse alicerce afetivo foi herdado de seus pais, especialmente de seu pai, que, ao receber o diagnóstico da filha, instou-a a manter a "fibra", permanecendo ao seu lado com um apoio que desafiava os tropos comuns de rejeição familiar.
Sua espiritualidade conferia à sua luta um senso de propósito transcendente. Daniel Souza, presidente do Conselho da Ação da Cidadania, ressaltou seu caráter impressionante, capaz de humanizar os ambientes mais áridos da diplomacia. Jacque espalhava afeto não como uma concessão, mas como uma ferramenta política de transformação social, provando que a justiça só é plena quando acompanhada pelo acolhimento.
O LEGADO QUE ATRAVESSA PONTES
O legado de Jacqueline Rocha Côrtes é uma ponte robusta estendida entre a exclusão do passado e a cidadania do futuro. Ela provou que a identidade trans, longe de ser uma limitação, é uma perspectiva única que enriquece as políticas públicas de saúde e direitos humanos. Sua atuação ajudou a transformar o rosto da epidemia no Brasil, substituindo a imagem da terminalidade pela da vitalidade produtiva e do direito ao prazer e à reprodução.
Sua semente permanece viva na estrutura do SUS, nas redes de apoio como a RNP+ e o MNCP, e na memória coletiva de um movimento que ela ajudou a arquitetar. Jacque não apenas sobreviveu a uma crise global de saúde; ela a liderou, transformando o isolamento em coletividade e a dor em direito garantido. Sua trajetória continua a florescer em cada avanço por justiça social, lembrando-nos que a memória é um ato de resistência e que o afeto é, de fato, a diplomacia mais poderosa que existe.


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