Apresentação e discussão sobre o documentário “Sexo, Drogas e o Que Sobrou: Um Recorte da Cena de Chemsex”
- Synô Milía (Multiverso)

- 25 de nov. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 9 de jan.

TÍTULO DO TRABALHO
Sexo, Drogas e o Que Sobrou: Um Recorte da Cena de Chemsex
PRODUTOR
Marcelo Russo
MODERADORES
João Geraldo Netto e Lariane Angel Cepas
RESUMO
O documentário de Marcelo Russo, "Sexo, Drogas e o Que Sobrou", investiga a cena de chemsex em São Paulo através de relatos de artistas e profissionais do sexo,. A obra aborda o uso de substâncias para intensificar o prazer ou fugir de traumas, expondo vulnerabilidades e arrependimentos sem tom didático. O projeto serve como ferramenta de escuta para gerar identificação e combater o estigma, visando criar redes de apoio e promover a redução de danos através do compartilhamento de vivências reais.
O Que Sobra?
O que sobra quando o sexo termina e a droga acaba? Essa é a pergunta central que guia o documentário “Sexo, Drogas e o Que Sobrou”, de Marcelo Russo. Longe de buscar respostas fáceis ou lições didáticas, a produção se propõe a ser algo mais fundamental: o início de uma conversa honesta e necessária. Ao dar voz a vivências complexas e muitas vezes silenciadas, o filme é um convite para ouvir, refletir e, talvez, se reconhecer em histórias de vulnerabilidade, desejo e busca por conexão.
As Lições do Documentário
O resultado é um mosaico de vozes que oferece reflexões profundas e, por vezes, contraintuitivas sobre a prática do chemsex e a nossa relação com substâncias. A seguir, destacamos cinco das lições mais impactantes que emergem dos depoimentos.
Lição 1: "Droga" é um conceito muito mais amplo do que imaginamos
O documentário desconstrói a ideia de que "droga" se refere apenas a substâncias ilícitas e pesadas. A conversa é ampliada para incluir tudo aquilo que altera nossa percepção em busca de uma experiência diferente. Um dos entrevistados, por exemplo, considera que sua primeira experiência foi aos 5 anos, quando tomou seu "primeiro cafezinho em casa".
Nessa perspectiva, até mesmo medicamentos como a Tadalafila (princípio ativo do Viagra) são vistos como "substâncias que afetam a psiquê e fazem com que a gente tenha uma percepção diferente da realidade". Essa redefinição é crucial, pois ajuda a reduzir o estigma e mostra que a busca por alterar a consciência para fins sexuais é um fenômeno muito mais comum e multifacetado do que o senso comum imagina.
Lição 2: A motivação vai muito além do prazer: fuga, trabalho e culpa
Uma vez que entendemos "droga" de forma tão ampla, as motivações para seu uso também se revelam muito mais complexas do que a simples busca por prazer. Os depoimentos revelam um emaranhado de razões profundas. Para alguns, o uso de substâncias funciona como uma "fuga" para lidar com transtornos como o TDAH e outras questões pessoais.
Para um profissional do sexo, a necessidade é outra: "entorpecer" a frustração ou a dor de um trabalho que exige uma dissociação entre corpo e mente. Outro depoimento aponta para uma camada ainda mais profunda, conectando a prática a uma culpa internalizada pela comunidade LGBTQIA+: "nosso sexo é tão errado que essa culpa às vezes acaba levando a gente a usar substâncias químicas para praticar o ato sexual".
Lição 3: A linha tênue e perigosa entre o êxtase e o abuso
E quando essas motivações complexas, como a fuga e a culpa, se encontram com substâncias potentes, a linha tênue entre o êxtase e o abuso se torna perigosamente fácil de cruzar. Relatos descrevem uma vulnerabilidade extrema, onde as fronteiras do consentimento são apagadas. Um entrevistado conta ter transado com "47 homens" em uma noite e, no pós, olhou para o próprio corpo e viu "vários hematomas", percebendo que o sexo que foi "muito bom" também foi "muito violento".
Outra história, particularmente chocante, descreve como um homem, sob efeito de metanfetamina, foi manipulado por seu agressor, que o convenceu a sair para a rua seminu de madrugada. Ele foi trancado para fora do apartamento por horas e, ao ser permitido entrar novamente, recebeu um sermão, uma "lição de moral" sobre como ele não tinha autocontrole. O abuso foi disfarçado de lição.
"...a ideia de que eu não pratico não pratiquei nunca pratiquei é que era o equívoco (...) eu já me enfiei num monte de roubada daquele tipo que eles foram mencionando e de situações que hoje são consideradas estupro mas que quando eu era adolescente e bem jovenzinha não era considerado estupro. E existia um um ditado (...) que dizia assim que cu de bêbado não tem dono."
Lição 4: A "ressaca" emocional e a busca por algo que nunca chega
Para além dos riscos físicos e do abuso, a experiência deixa uma "ressaca" que é, acima de tudo, emocional, marcada por um sentimento de vazio e insatisfação. A metanfetamina, chamada de "Tina", é descrita como causadora de uma "insaciabilidade" que nunca se completa.
Um dos entrevistados descreve essa sensação de forma contundente: "chegando no final da noite você transou horrores e parece que você não transou nada e ela começa a chamar paranoia que os outros não te querem". Esse depoimento revela que o maior dano talvez não seja físico, mas sim um profundo golpe na autoestima e na saúde mental, onde a busca por prazer termina em um sentimento de não ser desejado.
Lição 5: Quebrar o silêncio é a principal ferramenta de cuidado
Diante desse ciclo de busca e vazio, o documentário aponta para uma única e poderosa ferramenta de cuidado: quebrar o silêncio. O diretor Marcelo Russo afirma que sua intenção nunca foi criar um projeto "didático", mas sim uma "chamada para uma conversa, para uma sessão de terapia em grupo".
Essa ideia é reforçada por um dos participantes do debate após a exibição, que destaca a importância do diálogo para criar uma "rede de apoio". É ao falar abertamente que se torna possível "compreender se o uso que a gente tá fazendo de cada substância tá sendo uso de risco". A partilha de vivências permite que as pessoas percebam que não estão sozinhas em seus problemas, transformando o isolamento em uma comunidade de cuidado mútuo.
Uma Conversa Para Começar a Curar
“Sexo, Drogas e o Que Sobrou” nos lembra que, por trás do tabu do chemsex, existem histórias complexas de desejo e dor, de vulnerabilidade e da profunda busca humana por conexão. O documentário não oferece respostas prontas, mas abre um espaço vital para a reflexão.
Ao ouvir essas histórias, não somos todos levados a questionar os silêncios em nossas próprias vidas e a importância de criar espaços seguros para as conversas que realmente importam?


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