Estudo "Pega-Ação: Impacto do Chemsex nas IST, saúde mental e sexual de homens que fazem sexo com homens e construção de uma linha de cuidado no contexto da política da Redução de Danos"
- Synô Milía (Multiverso)

- 27 de nov. de 2025
- 12 min de leitura
Atualizado: 9 de jan.

TÍTULO DO TRABALHO
Pega-Ação: Impacto do Chemsex nas IST, saúde mental e sexual de homens que fazem sexo com homens e construção de uma linha de cuidado no contexto da política da Redução de Danos
PESQUISADORA
Ana Paula Morais Fernandes
MODERADORES
João Geraldo Netto e Lariane Angel Cepas
RESUMO
O projeto multicêntrico da USP, Multiverso e CRT-SP visa estruturar uma linha de cuidado inédita para o chemsex em São Paulo. Financiado pelo CNPq, o estudo mapeia práticas, saúde mental e ISTs para superar a dependência de dados estrangeiros. A iniciativa prevê criar tecnologias educativas, como um aplicativo de cálculo de riscos, e protocolos clínicos para capacitar a rede de saúde, garantindo um atendimento integral e focado na redução de danos.
A maioria dos estudos sobre chemsex (o uso de substâncias para intensificar a experiência sexual) vem da Europa ou da América do Norte. Embora importantes, esses trabalhos não refletem a realidade do Brasil, com nossa cultura, nossas substâncias e nossas vulnerabilidades específicas. Diante dessa lacuna, um projeto de pesquisa brasileiro de escala e ambição inéditas está finalmente "vestindo a nossa camisa" para entender o cenário local. Este artigo revela os primeiros achados impactantes de um estudo que não busca apenas dados, mas a construção de políticas públicas.
"...a gente precisa entender a nossa população a gente precisa vestir a nossa camisa quem somos nós o que nós estamos fazendo quais são as nossas vulnerabilidades nossos riscos né e quais são as nossas necessidades...
O Abismo de Conhecimento: A Maioria dos Profissionais de Saúde Não Sabe o que é Chemsex
Um dos resultados preliminares mais alarmantes é a profunda desinformação sobre o tema entre aqueles que deveriam estar na linha de frente do cuidado. A pesquisa aponta que a grande maioria dos profissionais de saúde simplesmente não sabe o que é chemsex.
Este desconhecimento paralisa o sistema de saúde em todos os níveis. Desde a "porta de entrada" na atenção primária até os serviços de urgência e emergência, a incapacidade de reconhecer o fenômeno impede o acolhimento, a identificação das necessidades do paciente e a oferta de um cuidado adequado, deixando uma população inteira desassistida.
"o que a gente tem visto é que a maioria dos profissionais de saúde nem sabem o que é quem sexex Imagine então o profissional que não sabe o que é sexo cuidado não vai conseguir identificar não vai conseguir acolher e não vai conseguir dar respostas né"
O Elo Chocante: 50% de Sífilis em uma Única Ação de Campo
Durante uma ação de testagem em um Centro de Atenção Psicocial Álcool e Drogas (CAPS AD), especificamente em uma "reunião de mulheres" atendidas pelo serviço, a equipe se deparou com um dado estarrecedor: metade (50%) das participantes testou positivo para sífilis.
Esse número transforma percepções em fatos. O que antes era uma associação teórica entre saúde mental, uso de substâncias e ISTs agora se materializa em dados concretos, mostrando o quanto a população está vulnerável. É a evidência científica que faltava para sublinhar a urgência de uma abordagem integrada.
A Solução na Ponta dos Dedos: Um Aplicativo com "Calculadora de Riscos" Está Sendo Criado
Em parceria com a Escola Politécnica da USP, o projeto está desenvolvendo uma ferramenta tecnológica inovadora: um aplicativo com uma "calculadora de risco". Nela, o usuário poderá selecionar substâncias e visualizar um mapa de possíveis combinações, interações e efeitos. A complexidade é imensa — a análise de apenas duas substâncias gerou mais de 130 possibilidades.
Crucialmente, a ferramenta serve a dois públicos. Para os usuários, é um guia de redução de danos. Para os profissionais de saúde, o aplicativo fornecerá acesso a protocolos de atendimento de urgência, informados por especialistas do SEATOX (Centro de Assistência Toxicológica). O app não dará respostas "absolutamente personalizadas", mas oferecerá um panorama geral de riscos, refletindo o rigor científico do projeto.
Saúde Mental é o Ponto de Partida (e de Chegada)
O estudo confirma que o chemsex é um fenômeno multifatorial, com a saúde mental ocupando um papel central tanto como gatilho quanto como consequência.
Fatores Prévios: Questões como depressão e ansiedade são gatilhos comuns, assim como a pressão pela "imagem perfeita do corpo... corpo musculoso, burn", um fator culturalmente específico e poderoso.
Consequências Posteriores: Após o uso, surgem riscos de overdose, debilidade física, perda de compromissos, esquecimento de tomar medicações (como a de HIV) e quadros depressivos severos.
Por isso, a futura linha de cuidado que o projeto visa construir integrará a atenção à saúde mental como pilar fundamental, cuidando da pessoa antes, durante e depois da prática.
O Objetivo Final Não é um Artigo, é uma Política Pública para o SUS
A meta final desta pesquisa transcende a academia. O objetivo é criar uma "linha de cuidado" específica para pessoas que praticam chemsex, implementada como política pública no Sistema Único de Saúde (SUS).
O plano é ambicioso e concreto: em parceria com o Centro de Referência e Treinamento (CRT) de São Paulo, o projeto trabalhará com os 27 Grupos de Vigilância Epidemiológica (GVEs) do estado para organizar toda a rede de atenção (da atenção primária aos CAPS), hospitais e assistência social. A ciência está sendo usada como ferramenta para combater o "achismo" e o "negacionismo", construindo respostas baseadas em evidências para um problema de saúde pública real e urgente.
Embora em andamento, os resultados preliminares desta pesquisa já demonstram a complexidade e a urgência do chemsex no Brasil. O estudo ilumina abismos de conhecimento, revela vulnerabilidades alarmantes e, mais importante, aponta caminhos concretos para a construção de soluções baseadas em dados e integradas ao SUS.
Agora que a ciência começa a iluminar os contornos do chemsex no Brasil, a pergunta que fica é: estamos, como sociedade e sistema de saúde, prontos para ter essa conversa?
RELATÓRIO
Introdução e Justificativa do Estudo
O fenômeno do Chemsex, caracterizado pelo uso intencional de substâncias psicoativas para facilitar ou intensificar a experiência sexual, representa um desafio crescente para a saúde pública no Brasil. A compreensão atual sobre o tema é amplamente baseada em estudos de contextos europeus e norte-americanos, que refletem realidades sociais, culturais e de acesso a substâncias distintas das encontradas no território nacional. Nesse cenário, torna-se estratégica a condução de pesquisas nacionais robustas, capazes de preencher essa lacuna de conhecimento e fundamentar políticas públicas adequadas à população brasileira.
A concepção deste projeto de pesquisa surgiu a partir de uma demanda direta do Centro de Referência e Treinamento (CRT) em IST/Aids de São Paulo. Profissionais do centro observaram um aumento significativo na prevalência de resultados positivos para Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs) (notadamente HIV, sífilis e hepatites virais) em pacientes que, durante o atendimento, relatavam o uso combinado de substâncias em contextos sexuais. Essa observação acendeu um alerta sobre a necessidade de compreender em profundidade a dinâmica e as implicações do Chemsex no Brasil.
Uma investigação aprofundada sobre a realidade brasileira é crucial, pois as características do fenômeno podem variar drasticamente. É imperativo identificar as substâncias mais utilizadas no país, as combinações mais comuns, as vulnerabilidades específicas da nossa população, os riscos associados e as necessidades de cuidado locais. A importação de modelos de intervenção estrangeiros, sem uma adaptação baseada em evidências locais, corre o risco de ser ineficaz e de não dialogar com as particularidades dos usuários e dos serviços de saúde brasileiros.
Atualmente, as linhas de cuidado existentes no Sistema Único de Saúde (SUS) mostram-se insuficientes para abordar a complexidade do Chemsex. As abordagens para ISTs/HIV e para o uso de álcool e outras drogas operam de forma segmentada, falhando em reconhecer a interseção que define o fenômeno. Essa fragmentação resulta na invisibilidade do problema, com profissionais de saúde despreparados para identificar, acolher e oferecer o cuidado integral que a população necessita, perpetuando um ciclo de vulnerabilidade e falta de respostas coordenadas do sistema.
Diante dessas lacunas, este projeto foi estruturado para gerar o conhecimento necessário e desenvolver as ferramentas adequadas para uma resposta efetiva, conforme detalhado nos objetivos a seguir.
Objetivos do Projeto
O objetivo principal e final deste projeto é a criação e implementação de uma linha de cuidado específica e integral para pessoas que praticam Chemsex, fundamentada na perspectiva da redução de danos. Para alcançar essa meta ambiciosa, a pesquisa foi estruturada em seis eixos de estudo, que correspondem aos seguintes objetivos específicos:
Mapeamento Territorial e Populacional: Identificar os contextos, locais e modos como o Chemsex é praticado no estado de São Paulo. O objetivo é traçar o perfil sociodemográfico dos praticantes, o conhecimento que possuem sobre as substâncias utilizadas, as formas de combinação e os riscos potenciais associados a essas práticas.
Caracterização das Necessidades de Saúde: Avaliar em profundidade as demandas de saúde da população envolvida, com ênfase não apenas nos aspectos físicos, mas também, e de forma crucial, nas necessidades de saúde mental. Este eixo busca compreender fatores pré-existentes e consequências psicológicas associadas à prática.
Análise Epidemiológica de ISTs: Estimar a prevalência e a incidência de ISTs entre os praticantes de Chemsex, incluindo HIV, sífilis, hepatites virais e Mpox. A meta é gerar dados concretos que evidenciem a magnitude da vulnerabilidade a infecções nesse contexto.
Diagnóstico da Rede de Saúde: Investigar o nível de conhecimento, as percepções e as demandas dos profissionais e gestores que atuam na rede de atenção à saúde. O objetivo é compreender como o sistema está (ou não) preparado para acolher e responder às necessidades dessa população.
Desenvolvimento de Tecnologias Educativas: Criar e disponibilizar ferramentas práticas e acessíveis, como um aplicativo móvel de redução de danos, para instrumentalizar tanto os usuários quanto os profissionais de saúde com informações qualificadas sobre riscos, combinações de substâncias e protocolos de atendimento.
Construção da Linha de Cuidado: Estruturar, a partir de todas as evidências coletadas, uma linha de cuidado piloto no estado de São Paulo. Este objetivo final visa articular os diferentes pontos da rede de atenção, incluindo a atenção primária, CAPS AD, saúde mental, assistência social, rede hospitalar, urgência e emergência, e com interfaces intersetoriais com o judiciário e a educação.
Para alcançar esses objetivos de forma coerente e eficaz, o projeto adota uma metodologia científica rigorosa e multifacetada.
Metodologia Científica e Abrangência
A complexidade e a ambição deste projeto exigem um arcabouço metodológico robusto, capaz de integrar a produção de conhecimento com a sua aplicação prática. Para isso, o estudo é norteado pelo modelo "conhecimento para ação" (knowledge-to-action), uma estrutura que busca garantir que os dados científicos gerados sejam efetivamente traduzidos em intervenções, ferramentas e políticas públicas.
O modelo é aplicado por meio de um processo sequencial e cíclico, que compreende as seguintes etapas:
Pré-desenvolvimento: Fase inicial, já concluída, de articulação com parceiros estratégicos, incluindo o CRT, organizações da sociedade civil e outras instituições acadêmicas, para definir o escopo e a relevância do projeto.
Criação do Conhecimento: Etapa atualmente em andamento, focada na coleta e análise de dados junto à população praticante de Chemsex e aos profissionais e gestores da rede de saúde.
Ciclo de Ação: Fase final que utilizará o conhecimento produzido para executar as intervenções planejadas, como a produção de tecnologias educativas e a implementação da linha de cuidado piloto.
Os métodos de coleta de dados combinam abordagens diversificadas para alcançar diferentes perfis da população-alvo. São realizadas ações presenciais em campo, como em Ribeirão Preto e São Paulo, e uma abordagem online por meio de um questionário acessível via QR Code. O projeto adota uma estratégia de recrutamento ampla e inclusiva, buscando alcançar a diversidade da população e não se restringir a um único perfil demográfico, como homens que fazem sexo com homens (HSH). Durante as ações de campo, também são ofertadas testagens rápidas para HIV, sífilis e hepatites B e C, integrando a pesquisa à oferta de serviços.
O escopo geográfico do projeto está concentrado no estado de São Paulo. A implementação da linha de cuidado será articulada junto aos 27 Grupos de Vigilância Epidemiológica (GVEs) do estado, com a seleção estratégica de municípios para a fase piloto com base em indicadores de vulnerabilidade, notadamente a identificação de núcleos de HIV.
A execução de um estudo com tamanha abrangência só é possível graças à sua natureza multicêntrica e colaborativa, que é fundamental para o seu sucesso.
Estrutura Multicêntrica e Parcerias Estratégicas
O caráter multicêntrico deste projeto é um dos seus pilares fundamentais. A colaboração entre diversas instituições acadêmicas, órgãos de saúde pública e organizações da sociedade civil é essencial para garantir não apenas a expertise multidisciplinar necessária para abordar um tema tão complexo, mas também a capilaridade para a coleta de dados e a futura implementação dos resultados.
As parcerias estratégicas que sustentam o projeto incluem:
Instituições Executoras:
Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (USP)
Organizações da Sociedade Civil:
Instituto Multiverso
Órgãos de Saúde Pública:
Centro de Referência e Treinamento (CRT) em IST/Aids
Parceiros Acadêmicos Nacionais:
Universidade Federal da Bahia (UFBA)
Universidade Federal de Sergipe (UFS)
Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (USP)
Escola Politécnica (USP)
Agências de Fomento:
Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq)
Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP)
O papel sinérgico dessas parcerias é o que fortalece a pesquisa. A academia contribui com o rigor metodológico e a produção de evidências científicas robustas. O serviço de saúde (CRT) ancora o projeto na realidade da demanda e atua como parceiro primordial para a transformação dos resultados em política pública. A sociedade civil (Instituto Multiverso) estabelece a ponte fundamental com a comunidade, garantindo que a pesquisa seja relevante e acessível.
É a partir dessa rede colaborativa que emergem os primeiros achados do estudo, os quais, mesmo em estágio inicial, já sinalizam questões críticas.
Resultados Preliminares e Análise Crítica
Por ser um estudo em andamento, os resultados apresentados são preliminares. No entanto, eles já apontam para questões críticas que demandam atenção imediata da saúde pública, reforçando a urgência e a pertinência da pesquisa. A análise inicial dos dados coletados revela desafios estruturais no acolhimento e cuidado da população que pratica Chemsex.
Despreparo dos Profissionais de Saúde
Um dos achados mais impactantes é o profundo desconhecimento do termo "Chemsex" pela maioria dos profissionais da rede de saúde. Esse desconhecimento não é apenas uma questão terminológica; ele tem um impacto direto na prática clínica, resultando na incapacidade de identificar usuários, de acolher suas demandas de forma adequada e, consequentemente, de oferecer um cuidado resolutivo. Sem saber do que se trata, o profissional não consegue investigar, orientar ou encaminhar, tornando o problema invisível dentro dos serviços.
Dimensão da Saúde Mental
A pesquisa confirma a complexa e multifatorial relação entre Chemsex e saúde mental. A análise indica a presença tanto de fatores pré-existentes que podem levar à prática quanto de consequências que surgem a partir dela. Entre os fatores prévios, destacam-se quadros de depressão, ansiedade e questões relacionadas à imagem corporal. No pós-uso, surgem desfechos como o risco de overdose, a debilidade física e o desenvolvimento ou agravamento de quadros depressivos, criando um ciclo que exige uma abordagem integrada de cuidado.
Abismo na Comunicação Sistema-Usuário
Foi identificada uma discrepância significativa entre as necessidades e expectativas dos usuários e aquilo que os gestores e profissionais de saúde acreditam estar oferecendo. Os dados preliminares mostram que as demandas da população não estão sendo atendidas, pois os profissionais não estão preparados para elas. Esse ruído de comunicação resulta em um abismo que impede a conexão entre o serviço e a realidade vivida por quem busca cuidado, deixando vulnerabilidades sem resposta.
Vulnerabilidade Elevada a ISTs
A pesquisa já produz evidências científicas concretas que quantificam a vulnerabilidade a ISTs. Em uma ação de testagem realizada em um CAPS AD, 50% das mulheres atendidas apresentaram resultado positivo para sífilis. Este dado alarmante demonstra a forte interseção entre o uso de substâncias, a saúde mental e a exposição a infecções, validando a premissa do estudo sobre a necessidade de um cuidado que integre essas diferentes áreas da saúde.
Como resposta direta a esses problemas identificados, o projeto avança no desenvolvimento de ferramentas tecnológicas de apoio.
Desenvolvimento de Tecnologias Educativas: O Aplicativo de Redução de Danos
O desenvolvimento de tecnologias educativas é um pilar central do ciclo de ação do projeto. O objetivo é criar instrumentos práticos para empoderar tanto os praticantes de Chemsex, com informações para autogestão de riscos, quanto os profissionais da rede de saúde, com subsídios para o atendimento qualificado. A principal ferramenta em desenvolvimento é um aplicativo móvel de redução de danos.
As funcionalidades e os públicos-alvo do aplicativo estão organizados da seguinte forma:
Para Usuários: O aplicativo contará com uma "calculadora de risco" para a combinação de substâncias. O usuário poderá selecionar as substâncias que pretende usar, e a ferramenta informará sobre os riscos potenciais da interação e os efeitos esperados. A análise de combinações com apenas duas substâncias já gerou um banco de dados com mais de 136 possibilidades.
Para Profissionais de Saúde: A ferramenta incluirá protocolos de atendimento, com foco em urgência e emergência. Estes protocolos estão sendo desenvolvidos em parceria com o CEATOX (Centro de Assistência Toxicológica), refletindo a realidade clínica onde o atendimento se baseia no manejo de sinais e sintomas de poliúso de substâncias, em vez da identificação precisa de cada droga.
Alertas e Orientações: O aplicativo incluirá avisos sobre a importância de considerar a pureza das substâncias e o risco de contaminação ou adulteração, bem como a influência de fatores individuais (idade, IMC, doenças crônicas) na resposta do organismo.
Essa estrutura dual reconhece que o cuidado precisa ocorrer em múltiplos momentos, conectando a prevenção e o automanejo (para usuários) à capacidade de resposta em situações de crise (para profissionais). A versão beta do aplicativo terá certas limitações, como a impossibilidade de oferecer respostas absolutamente personalizadas, em função de uma decisão estratégica de priorizar um lançamento rápido para atender a uma necessidade urgente da comunidade.
O desenvolvimento de ferramentas como esta está diretamente conectado ao impacto final que o projeto almeja alcançar no Sistema Único de Saúde.
Impacto Esperado e Próximos Passos
A visão de futuro do projeto é que todos os esforços de pesquisa, desenvolvimento tecnológico e articulação institucional convirjam para um objetivo maior: o fortalecimento estrutural do SUS para responder de forma mais justa e eficaz a uma demanda de saúde complexa e, até então, invisibilizada.
Os resultados e impactos finais esperados com a conclusão do projeto são:
Fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS): A criação de uma linha de cuidado específica promoverá a integralidade da atenção, articulando serviços que hoje atuam de forma isolada. Por meio de grupos de trabalho multidisciplinares, a linha integrará saúde mental (CAPS AD), centros de ISTs, apoio social, atenção primária, rede hospitalar, urgência e emergência, e buscará articulação intersetorial com o judiciário e a educação.
Capacitação Profissional: Espera-se um impacto significativo na qualificação dos profissionais da rede de saúde. Com acesso a informações, protocolos e tecnologias educativas, eles estarão mais bem preparados para identificar, acolher e manejar as demandas relacionadas ao Chemsex de forma eficaz, técnica e humanizada.
Implementação de Política Pública: O objetivo final é que a linha de cuidado, após ser pilotada, avaliada e ajustada, seja formalmente implementada pelo CRT como uma política pública de saúde no estado de São Paulo, servindo de modelo para outras regiões do país.
Produção de Identidade e Evidência Nacional: Este projeto é fundamental para combater o negacionismo e o "achismo" que cercam o tema. Ao gerar evidências científicas concretas — como o dado de que 50% das mulheres testadas em um CAPS AD apresentaram resultado positivo para sífilis — o projeto substitui o "achismo" por dados robustos, fundamentando a urgência de políticas públicas e conferindo visibilidade a uma realidade brasileira.
Em conclusão, este projeto reafirma o compromisso de transformar conhecimento científico em ação concreta. Ao mapear o cenário, compreender as necessidades, desenvolver ferramentas e articular a rede de saúde, a iniciativa busca gerar respostas efetivas para as demandas da população, consolidando um modelo de cuidado integral, baseado em evidências e verdadeiramente alinhado aos princípios do Sistema Único de Saúde.


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