Entre o Prazer e o Pânico. O que é Chemsex, Afinal?
- Synô Milía (Multiverso)

- 5 de dez. de 2025
- 5 min de leitura
Atualizado: 9 de jan.

TÍTULO
Entre o Prazer e o Pânico. O que é Chemsex, Afinal?
CONVIDADOS
Allan Gomes de Lorena: Sanitarista e doutorando em Saúde Coletiva pela USP, com quase uma década dedicada à saúde sexual e à prevenção combinada. Com experiência direta em projetos voltados a cenas noturnas e ao uso de substâncias, incluindo consultoria no primeiro projeto de chemsex do Brasil, o ColocAção, do Instituto Multiverso, Allan traz ao Seminário um olhar crítico, afetuoso e comprometido com políticas públicas que dialogam com a vida real
Alvaro Lopes de Sousa: Pesquisador de Ribeirão Preto, investiga os impactos do chemsex na saúde de populações vulneráveis, trazendo ao debate uma visão crítica e comprometida com justiça social. Sua participação no seminário fortalece a construção de políticas públicas mais sensíveis, informadas e capazes de iluminar um tema ainda pouco enfrentado no país.
MODERADORES
Pierre Freitaz e Myro Rolim
RESUMO
Quando a palavra "chemsex" aparece em uma manchete, ela quase sempre vem acompanhada de um clima de pânico moral e perigo iminente. As histórias costumam focar nos riscos, nas overdoses e na associação com infecções sexualmente transmissíveis. Mas a realidade brasileira, discutida por especialistas que estão na linha de frente da pesquisa e do cuidado, é muito mais complexa, nuançada e reveladora sobre nossa sociedade do que os estereótipos sugerem. O debate vai muito além da droga ou do ato sexual, tocando em desigualdade, saúde mental, preconceito e na dificuldade do poder público em dialogar com a vida real das pessoas.
Um dos maiores obstáculos para entender o fenômeno no Brasil é a própria definição usada internacionalmente. Grandes pesquisas e revisões científicas globais definem "chemsex" de forma restrita, como o uso de quatro substâncias específicas: mefedrona, metanfetamina, GHB e poppers. O problema? Essa lista não reflete o padrão de uso no Brasil, onde outras drogas são muito mais comuns.
Essa rigidez classificatória tem uma consequência grave: ela efetivamente exclui o Brasil do debate científico global. Como as pesquisas locais não se encaixam no molde "eurocêntrico", a experiência brasileira se torna invisível. Essa invisibilidade nos dados globais dificulta o financiamento para pesquisas localizadas e o desenvolvimento de estratégias de saúde pública eficazes e culturalmente relevantes no Brasil. Como explica o pesquisador Alvaro Lopes de Sousa, essa rigidez tem um custo alto:
você não tem basicamente hoje uma revisão sistemática, que é o maior nível possível de evidência, que inclua o Brasil, porque aqui a gente não consegue incluir simplesmente essas quatro substâncias, que elas não representam a realidade do Brasil.
No Brasil, a prática tem outros nomes (e outras realidades): "Embrazar", "Colocação", "Ouvir o Tuin".
O ato de combinar sexo e substâncias não é uma exclusividade de um grupo ou classe social, mas ele assume nomes, lógicas e significados diferentes dependendo da comunidade. O termo "chemsex" pode ser comum em certos círculos, mas em outros, ele simplesmente não existe.
O sanitarista Allan Gomes de Lorena, que pesquisa a cultura funk, aponta exemplos concretos. No baile, um jovem pode dizer que vai "embrazar" ou que quer "ouvir o tuing" — uma referência ao efeito do lança-perfume associado a uma prática sexual. Entre trabalhadoras sexuais travestis, a linguagem é outra: a prática é chamada de "colocação".
Esses termos não são meros sinônimos. Eles revelam que a prática é atravessada por recortes de classe, raça e cultura. Ignorar essas diferentes realidades e tentar unificar tudo sob o rótulo importado de "chemsex" é apagar a complexidade e a especificidade das experiências vividas por diferentes comunidades no Brasil.
A linha que separa o prazer do problema não é a droga, mas a autonomia.
Uma das perguntas mais comuns é: quando o uso deixa de ser recreativo e se torna um problema? A resposta não está na substância utilizada ou na frequência, mas no conceito de autonomia.
Segundo Alvaro Lopes de Sousa, o uso pode ser uma ferramenta para ampliar o prazer, a conexão ou explorar a sexualidade. Nesse cenário, a pessoa está no controle. O problema surge quando esse jogo se inverte. A prática deixa de ser uma escolha e passa a ser uma condição. A pessoa começa a acreditar que o prazer ou a conexão só são possíveis daquela forma, tornando-se dependente daquela sensação específica. Nesse momento, o fenômeno "rouba a autonomia" do indivíduo. Como ele mesmo descreve, a linha é cruzada quando a prática começa a erodir a escolha pessoal:
o ponto de partida de entender essa diferença básica é que o chemsex é esse contínuo de experiências [...] A diferença entre o uso recreativo ou não é quando você começa a ter, não um melhoramento da autonomia que o chemsex proporciona, mas sim quando o fenômeno [...] rouba essa autonomia.
O foco obsessivo no HIV desvia o olhar da pessoa e da sua saúde mental.
A discussão pública sobre chemsex é quase sempre sequestrada pela pauta do HIV e outras ISTs. Embora a prevenção seja fundamental, focar a conversa exclusivamente nos agravos biológicos é uma armadilha perigosa.
Essa abordagem ignora a pergunta mais importante: por que uma pessoa busca essa prática? Quais são as dores, os sofrimentos, as ansiedades sexuais ou a busca por conexão que a levaram até ali? Ao reduzir tudo a um risco de infecção, desumanizamos o indivíduo e ignoramos sua saúde mental e seu contexto de vida. A discussão, como defende Alvaro, precisa ser ampliada para uma perspectiva de saúde integral:
quando eu coloco foco nesse agravo, eu tiro o foco da pessoa. Então temos que entender o que que tá acontecendo ali novamente. Quem é essa pessoa que está utilizando [...] e por que ela está fazendo aquilo.
Redução de danos também tem classe social: dos remédios de farmácia ao "negócio em formato de abacaxi".
A capacidade de reduzir os riscos associados ao uso de substâncias não é a mesma para todos. Ela é profundamente marcada pela desigualdade socioeconômica. Alvaro Lopes de Sousa descreve um abismo que separa as estratégias de autocuidado.
De um lado, usuários com mais renda e escolaridade adaptam suas práticas para minimizar riscos. Eles utilizam medicamentos controlados de farmácia, como o Venvanse e o Zolpidem, para obter os efeitos desejados com mais segurança. Outros, com conhecimento técnico, compram substâncias mais puras pela internet, em plataformas como o Mercado Livre, chegando a perguntar nos comentários sobre fórmulas químicas específicas: "Essa é a 14 butano de tarará? Essa é a puríssima?".
Do outro lado, populações mais pobres e periféricas consomem drogas de procedência e qualidade desconhecidas, o "abacaxi", como metaforicamente descrito, um comprimido cujo conteúdo é um mistério. Essas pessoas ficam expostas a riscos muito maiores, sem acesso à informação ou aos recursos financeiros para adotar estratégias mais seguras.
A resposta oficial não é só pânico, é "vergonha institucional".
Após uma fase inicial de "pânico moral", a postura das instituições públicas de saúde no Brasil evoluiu para algo diferente: uma "vergonha institucional" e uma notável "ausência no debate".
Allan Gomes de Lorena explica que os órgãos públicos reconhecem a importância do tema, mas evitam abordá-lo diretamente, seja por receio ou por pressões políticas. Com isso, a responsabilidade de discutir, acolher e criar estratégias de redução de danos é empurrada para a sociedade civil e o terceiro setor. Esse vácuo é agravado pelo que Myro Rolim, um dos moderadores do debate, identifica como um bloqueio político: o tema das drogas foi "leiloado" para setores conservadores no governo atual, o que impede qualquer avanço em políticas públicas baseadas em evidências. O silêncio não é por acaso; é um projeto.
E se a Pergunta Estiver Errada?
Analisar o debate sobre "chemsex" no Brasil é como olhar em um espelho que reflete nossas maiores fraturas sociais: a desigualdade, a dificuldade de falar sobre prazer e saúde mental, e a urgência de construir políticas de saúde mais humanas e menos punitivas.
As seis verdades acima mostram que o caminho não é o do pânico ou da condenação. Em vez de nos perguntarmos como proibir ou controlar, talvez a pergunta mais urgente seja outra: como podemos, como sociedade, passar da simples gestão de riscos para ativamente produzir cuidado? Um cuidado que responda às necessidades humanas de prazer, conexão e alívio do sofrimento, construindo caminhos mais seguros e acolhedores para todos.


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