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Sexo, Estigma e Silêncio. Por que Ninguém Fala Sobre Isso?

Atualizado: 9 de jan.





TÍTULO

Sexo, Estigma e Silêncio: Por que Ninguém Fala Sobre Isso?


CONVIDADOS(AS)

  • Thiago Jerohan: Assessore de programas e projetos da ONG Gestos, ativista vivendo com HIV e atuante em direitos sexuais, prevenção combinada e redução de danos. Sua experiência articulando debates sobre fetiches, uso de drogas e cuidado integral amplia a escuta e fortalece a construção coletiva de perspectivas essenciais para o Seminário.

  • Celi Cavallari: Psicanalista e psicóloga, com trajetória extensa na saúde sexual, no uso de drogas e na redução de danos, Celi traz ao Seminário uma perspectiva histórica e crítica sobre políticas públicas, direitos humanos e sexualidade. Sua participação amplia o debate sobre chemsex ao conectar cuidado, gênero, tabus e práticas de redução de danos com profundidade e experiência.

  • Myro Rolim: Com ampla experiência como educador social e redutor de danos, atua na formação de profissionais e na articulação de políticas públicas que dialogam com o chemsex a partir do cuidado, dos direitos e da redução de danos. Sua participação no Seminário fortalece práticas mais seguras e coloca em pauta caminhos coletivos para serviços e territórios.


MODERADORES

João Geraldo Netto e Helio Neiva


RESUMO

Debate em mesa redonda focada em chemsex, sexualidade, uso de substâncias e estigma, com a participação de especialistas em psicanálise, psicologia, e ativistas de redução de danos e HIV. A discussão central gira em torno do silêncio social e institucional que cerca a tríade prazer, drogas e sexo, examinando se essa omissão é um mecanismo de defesa da sociedade ou uma falha estrutural, frequentemente impulsionada pelo moralismo e preconceito religioso. Os palestrantes exploram como essa falta de diálogo impacta a autonomia, o acesso a cuidados de saúde e a adesão ao tratamento para pessoas que vivem com HIV e que utilizam substâncias. O consenso emergente é que o caminho para quebrar esse silêncio é a construção de novas narrativas e a implementação de uma política de redução de danos de caráter insurgente, que enfrente o proibicionismo e garanta direitos e formação adequada aos profissionais de saúde.




Quebrando o Silêncio


Sexo, drogas e prazer. Juntas, essas palavras formam uma tríade capaz de gerar um silêncio ensurdecedor. Envolta em estigma e julgamento, essa dimensão fundamental da experiência humana é sistematicamente empurrada para as sombras. Mas este não é um silêncio passivo, um mero vazio de palavras. É um projeto político ativo, uma ferramenta de controle que serve a interesses ideológicos e morais. Então, a verdadeira questão não é por que não falamos sobre isso, mas sim: quem se beneficia desse silêncio e que poder ele sustenta?


Uma discussão aprofundada entre especialistas durante a mesa "Sexo, Estigma e Silêncio", no 2º Seminário Brasileiro de Redução de Danos no Uso Sexualizado de Substâncias, desmantelou a noção de que este é um tabu acidental. A conversa revelou o silêncio como o resultado de disputas de poder, narrativas históricas instrumentalizadas e falhas estruturais deliberadas. Longe de ser uma questão de vergonha individual, a mudez coletiva é uma arma em uma guerra cultural e política.


Este artigo explora os insights contundentes desse debate. Prepare-se para entender por que o "cuidado" é um campo de batalha, como o HIV foi transformado em um discurso contra a liberdade, e por que a superação do silêncio exige não apenas resistência, mas uma verdadeira insurgência política e narrativa.


O "Cuidado" Não é Neutro. É um Campo de Batalha Ideológico


A visão do cuidado em saúde como um campo técnico e objetivo é desmantelada pela análise do educador social Myro Rolim, que o redefine como um território em disputa ideológica. Essa batalha é travada por visões morais que limitam a produção de um atendimento eficaz e humano. O preconceito se infiltra na prática profissional como sintoma de uma realidade política, como ilustra o relato de um trabalhador da saúde: "Poxa, além de viado e ainda vai usar drogas". Este não é um caso isolado, mas a consequência de decisões deliberadas, como a "decisão política de não ter formação com os trabalhadores" em São Paulo, onde o termo "redução de danos" chegou a ser proibido em documentos oficiais. Entender o cuidado como uma disputa nos obriga a lutar ativamente por novas narrativas e tecnologias de cuidado baseadas em direitos, não em julgamentos.


O cuidado é um campo em disputa. O cuidado ele não é um campo pacificado. O cuidado não é neutro. O cuidado é uma construção ideológica.


Essa batalha ideológica no presente tem raízes históricas profundas, como demonstrou Thiago Jerohan ao analisar a instrumentalização da crise de HIV/AIDS.


O HIV Foi Usado Como Uma Arma Contra a Liberdade Sexual


Para compreender o estigma atual, é preciso voltar aos anos 80. O ativista Thiago Jerohan contextualiza como a crise da AIDS foi habilmente usada por um campo moralista para atacar os movimentos sociais que floresciam na época. A liberdade sexual, que ganhava força com o "movimento feminista... movimento LGBT... [e] o movimento negro", foi o alvo principal. A epidemia foi transformada em uma ferramenta de repressão, com uma mensagem implícita: a doença era a consequência moral do "desvio". Essa pressão forçou o movimento LGBT a recuar taticamente, trocando o discurso da liberdade sexual por pautas mais normativas, como o casamento igualitário, em uma busca por aceitação social.


A repressão externa, ao criar uma narrativa de doença como punição, encontra um poderoso aliado na repressão internalizada: a culpa.


A Culpa Vem Antes do "Pecado"


Da perspectiva psicanalítica, a culpa não é uma simples consequência de um ato. A psicanalista Celi Cavallari explica que, frequentemente, o sentimento de culpa antecede qualquer "delito". A questão não é moral, mas de "elaboração psíquica". Celi Cavallari argumenta que isso é uma consequência direta do proibicionismo. Quando a própria lei classifica o prazer como crime, o indivíduo internaliza um sentimento de transgressão antes mesmo de agir. O conflito deixa de ser uma falha de caráter pessoal e se torna um fardo psíquico imposto pelo Estado, uma barreira que impede a busca por cuidado e a própria fala.


Este fardo é frequentemente agravado por profissionais que, eles mesmos, são vítimas de um sistema que lhes nega as ferramentas para compreender e acolher.


A Falta de Formação dos Profissionais é Mais Crítica que a Linguagem Acadêmica


A crítica de que a "linguagem acadêmica" cria barreiras é comum, mas Myro Rolim aponta para um problema estrutural muito mais grave: a ausência de formação contínua para os trabalhadores da saúde. A precarização do trabalho, com jornadas exaustivas, impede que esses profissionais acessem novos saberes. Myro é enfático ao descrever essa realidade: "A gente não tem tempo de ler um artigo científico mano... Trabalhador psicóloga sabe muito bem, atua em dois, três serviços num dia". Ele ressalta, no entanto, que o problema não é a capacidade dos trabalhadores, citando o sucesso de equipes como o "consultório na rua" em traduzir conceitos complexos. A falha é sistêmica: a solução não é simplificar a linguagem, mas investir na capacitação de quem está na ponta.


A solução, portanto, passa por confiar tanto nos profissionais quanto na população, tratando-os como interlocutores capazes.


Para Falar Sobre o "Sensível", Precisamos Parar de Subestimar as Pessoas


A premissa de que temas como fetiches, gênero e consentimento são "complexos demais" para o público geral é um dos pilares que sustentam o silêncio. Thiago Jerohan contesta veementemente essa ideia, que subestima a inteligência das pessoas. Ele relata ter explicado o conceito de não-binariedade para um grupo de 50 idosos em uma única tarde, provando que o entendimento é possível quando a abordagem é honesta. A chave, segundo ele, é ter a coragem de abordar os temas com profundidade, contextualizando a construção histórica da moral em vez de oferecer respostas rasas. Para que a sociedade perca o medo, os especialistas e ativistas precisam primeiro perder o medo de falar.


pra gente conseguir fazer sociedade perder medo de discutir essas coisas a gente precisa perder o medo de falar sobre essas coisas mesmo e falar sério falar profundamente.


Da Resistência à Insurgência


Quebrar o pacto de silêncio sobre sexo, drogas e prazer exige muito mais do que a coragem de falar. Exige uma ofensiva política para disputar narrativas, desmantelar estigmas históricos e desafiar a culpa imposta pelo proibicionismo. A síntese dessa luta se encontra na fusão de duas ideias poderosas levantadas no debate. Primeiro, a convocação de Thiago Jerohan: "A gente tem que contar a nossa própria história", um chamado à autonomia narrativa para que outros não a contem de forma distorcida e patologizante. Segundo, a provocação de Myro Rolim de ir além da "resistência" para se tornar "insurgência" — uma força que não apenas reage, mas que disputa ativamente o poder. A insurgência, portanto, é o ato de contar a própria história em voz alta, transformando a vivência pessoal em uma ferramenta política para construir um futuro onde o cuidado seja um direito inegociável, e não um campo de batalha.



 
 
 

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