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Reeleição de Lula renova expectativas, mas lideranças do HIV cobram resultados na saúde e nos direitos humanos

há 17 horas
7 min de leitura
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A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para um quarto mandato na Presidência da República mobiliza novas expectativas entre organizações da sociedade civil que atuam na resposta ao HIV/aids e na defesa dos direitos humanos. Mas, para lideranças ouvidas pela Agência Aids, a continuidade do governo também traz uma cobrança: transformar compromissos em #PolíticasPúblicas com financiamento, participação social e resultados concretos. Entre as prioridades estão a ampliação do acesso à prevenção e ao tratamento, a incorporação de novas tecnologias ao Sistema Único de Saúde (SUS), o enfrentamento da discriminação e a garantia de condições dignas de vida.


Os relatos de João Cavalcante, da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e Aids (RNP+); Robson Oliveira, da Rede de Adolescentes e Jovens Vivendo com HIV/Aids do Estado de São Paulo; João Geraldo Netto, do Instituto Multiverso e do Canal Super Indetectável; e Gregory Rodrigues Roque de Souza, da Aliança Nacional LGBTI+, revelam diferentes dimensões dessa agenda. Embora representem organizações e experiências distintas, os quatro defendem maior participação das comunidades nas decisões governamentais e medidas capazes de enfrentar desigualdades que ainda dificultam o acesso à saúde e aos direitos.


João Cavalcante, da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e Aids

RNP+ cobra políticas que ultrapassem o acesso aos medicamentos


Para João Cavalcante, da RNP+, o próximo mandato deve consolidar políticas públicas voltadas às pessoas vivendo com HIV, com financiamento adequado, metas, transparência e articulação entre União, estados, municípios e movimentos sociais. O representante ressalta que o resultado eleitoral não elimina problemas históricos, como o estigma, a discriminação e as desigualdades que interferem diretamente na qualidade de vida dessa população.


“Precisamos transformar mais rápido possível esses compromissos em resultados concretos para reduzir a desigualdade, ampliando o acesso aos serviços e garantindo que nenhuma pessoa seja deixada para trás”, afirma.


Uma das principais reivindicações de João é que as organizações comunitárias participem não apenas das discussões, mas também da formulação, execução e fiscalização das políticas de saúde, incluindo o acompanhamento dos recursos destinados às ações de prevenção e assistência.


“Não queremos somente ser ouvidos, né? Em momentos de consulta, como pesquisa, como um dado, queremos ter a participação dessas decisões, acompanhar as execuções desses projetos, os recursos, e contribuir para que as políticas cheguem a quem mais precisa”, ressalta.


O enfrentamento ao racismo, à LGBTfobia e a outras formas de exclusão também integra suas preocupações. João chama a atenção para as necessidades de pessoas negras, mulheres, jovens, integrantes da comunidade LGBTQIAPN+ e pessoas que envelhecem vivendo com HIV. Para ele, a assistência precisa considerar as condições sociais e econômicas que influenciam o acesso aos serviços e a continuidade do cuidado.


“As pessoas que vivem com #HIV não precisam só do remédio, mas também precisam de alimento, de moradia e de vida digna”, afirma.


Robson Oliveira, representante da Rede de Adolescentes e Jovens Vivendo com HIV/Aids do Estado de São Paulo

Juventudes querem prevenção nas escolas e acesso a novos tratamentos


A necessidade de aproximar as políticas públicas da realidade das novas gerações é destacada por Robson Oliveira, representante da Rede de Adolescentes e Jovens Vivendo com HIV/Aids do Estado de São Paulo. Entre suas preocupações está a ausência, segundo a organização, de um programa específico para o enfrentamento do HIV/aids no plano de governo apresentado durante a campanha.


Robson defende a ampliação da educação em saúde sexual nas escolas, com informações cientificamente fundamentadas sobre HIV, outras infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) e prevenção combinada. Para ele, o debate deve alcançar adolescentes e jovens sem constrangimento ou discriminação.


“Falar de prevenção não deve ser motivo de criminalização, censura ou constrangimento. É uma pauta que diz respeito a toda a sociedade, especialmente às juventudes, e precisa ser tratada com responsabilidade, informação científica e compromisso com a vida”, afirma.


O representante também reivindica a ampliação do acesso a medicamentos injetáveis de longa duração, que podem oferecer mais praticidade, privacidade e autonomia no tratamento. A Rede defende a discussão sobre a incorporação dessas tecnologias ao SUS, além de medidas legalmente cabíveis relacionadas às patentes e aos custos dos medicamentos, para ampliar o acesso.


Outra prioridade é o financiamento de organizações comunitárias, por meio de editais públicos, para desenvolver projetos de prevenção, acolhimento e promoção de direitos. Robson também defende campanhas permanentes sobre tratamento, indetectabilidade e enfrentamento ao preconceito, elaboradas com a participação das juventudes.


“É fundamental fortalecer o diálogo com as redes de jovens, os movimentos sociais e as pessoas vivendo com HIV, garantindo que suas experiências e demandas sejam consideradas na elaboração e na execução das políticas”, defende.


Na avaliação de Robson, adolescentes e jovens precisam participar das decisões desde a formulação das ações, deixando de ser vistos apenas como destinatários das políticas públicas.


João Geraldo Netto, do Instituto Multiverso e do Canal Super Indetectável

Comunicação sobre HIV e novas tecnologias precisam ganhar espaço no SUS


A comunicação em saúde ocupa um lugar central nas expectativas de João Geraldo Netto, do Instituto Multiverso e do Canal Super Indetectável. Para ele, ampliar o alcance da informação exige mais do que campanhas tradicionais: é necessário utilizar linguagens próximas da população, aproveitar o potencial das plataformas digitais e estabelecer diálogo com organizações que conhecem as realidades dos territórios.


João também defende maior agilidade na incorporação de tecnologias de prevenção e tratamento, além de uma participação mais diversa e efetiva das pessoas vivendo com HIV na construção das políticas públicas.


“Minha expectativa para os próximos quatro anos é que o governo avance bem mais nas políticas públicas de HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis, investindo mais na quebra do preconceito, em prevenção e tratamento, ampliando o acesso a novas tecnologias e ouvindo de verdade quem vive essa realidade no dia a dia.


O primeiro ponto é investir mais em comunicação do HIV. Não basta criar campanhas, gastar milhões de reais em divulgação na grande mídia e esperar que a mesma informação chegue até as pessoas de forma eficiente. Precisamos usar as ferramentas e as linguagens que fazem parte da vida da população, especialmente nas redes sociais e nos meios digitais. É importante falar de forma simples, direta e livre de julgamentos e preconceitos, levando informação de qualidade a quem mais precisa, sem deixar ninguém para trás. Eu sei que isso é difícil, mas sei também que existem organizações que podem ajudar neste trabalho.


Também precisamos falar com os jovens, a população LGBTI+, pessoas em situação de rua, as pessoas mais vulnerabilizadas, indígenas e todos os grupos que enfrentam mais barreiras para acessar os serviços de saúde. Mas isso não significa deixar de lado o restante da população. A informação sobre HIV precisa chegar a todos, ajudando a combater o medo, o preconceito, o estigma e a desinformação, porém, de forma adequada e direcionada. Como comunicador, especialista em sexualidade e mobilizador social, vejo todos os dias como uma informação bem trabalhada pode mudar a forma como as pessoas entendem a saúde sexual e fortalecer o autocuidado.


Segundo, precisamos acelerar a chegada de novas tecnologias de prevenção e tratamento ao SUS. O Brasil precisa atualizar seus protocolos e negociar com mais firmeza com a indústria farmacêutica para garantir que essas novidades cheguem à população. Não podemos ficar esperando que a indústria farmacêutica venha até a gente. Temos que ser proativos. Já fomos. Por que não somos mais? A PrEP injetável e os tratamentos antirretrovirais injetáveis podem ampliar as opções de prevenção e tratamento. A DoxiPEP, que pode ajudar a prevenir algumas ISTs, também precisa ser ampliada. Não faz sentido que precisemos esperar tanto para ter acesso a avanços que já podem fazer diferença em nossas vidas.


O terceiro ponto é fortalecer a participação da sociedade civil nas decisões do governo. Há muitos anos, ativistas, organizações e pessoas vivendo com HIV contribuem para o enfrentamento da epidemia, mas nem sempre somos ouvidos. Muitas vezes, o diálogo fica concentrado em poucos interlocutores, que não representam toda a diversidade de quem vive com HIV no Brasil.


Falando a partir da minha própria experiência, o governo precisa abrir mais espaços de diálogo, ouvir diferentes grupos e levar nossas contribuições a sério. Não basta convidar a sociedade civil para reuniões. É preciso permitir que ela participe das decisões e ajude a definir as prioridades das políticas públicas. Até porque, de um jeito ou de outro, seremos os mais impactados com avanços, com estagnação, mas também com retrocessos.”


Gregory Rodrigues Roque de Souza, coordenador de Comunicação da Aliança Nacional LGBTI+, presidente do Instituto de Diversidade Sexual Sinergia e vice-presidente do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos Humanos de Minas Gerais

Aliança Nacional LGBTI+ defende políticas permanentes e orçamento próprio


A necessidade de transformar compromissos em ações de longo prazo também aparece na avaliação de Gregory Rodrigues Roque de Souza, coordenador de Comunicação da Aliança Nacional LGBTI+, presidente do Instituto de Diversidade Sexual Sinergia e vice-presidente do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos Humanos de Minas Gerais.


Para Gregory, o quarto mandato representa uma oportunidade de consolidar políticas de enfrentamento à LGBTIfobia e ampliar a proteção social. Ele ressalta, porém, que a continuidade do governo não significa o desaparecimento das desigualdades, da violência e das barreiras enfrentadas pela população LGBTI+, especialmente nos municípios onde faltam serviços e estruturas especializadas.


“Não podemos nos contentar apenas com a manutenção das conquistas existentes. Precisamos avançar na construção de políticas públicas permanentes, estruturadas, com orçamento próprio, mecanismos de monitoramento e participação efetiva da sociedade civil”, defende.


Entre as reivindicações apresentadas estão a ampliação do acesso à saúde integral, a promoção da empregabilidade, o enfrentamento da evasão escolar, a proteção de pessoas trans e travestis e a garantia de direitos à população LGBTI+ idosa.


Gregory também destaca que os movimentos sociais precisam ter autonomia para acompanhar as ações governamentais, reconhecer medidas implementadas e cobrar o cumprimento de compromissos.


“Nosso papel, enquanto movimentos sociais, é contribuir com propostas, reconhecer conquistas e cobrar resultados. A defesa da democracia também passa pela autonomia da sociedade civil”, afirma Gregory.


As manifestações das quatro lideranças colocam a participação social no centro das expectativas para o próximo mandato. Além de investimentos e ampliação dos serviços, as organizações reivindicam mecanismos que permitam acompanhar a aplicação dos recursos, avaliar os programas e participar das decisões que afetam diretamente suas comunidades.


Com o resultado eleitoral definido, as cobranças agora se dirigem às prioridades, aos investimentos e às medidas que serão adotadas nos próximos quatro anos. Para os representantes ouvidos, o acesso à saúde, a redução das desigualdades e a garantia de direitos serão aspectos centrais no acompanhamento das ações do novo governo.


Por Glaucia Magalhães para a Agência de Notícias da Aids

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