Saúde Mental LGBTI+: Epidemia de Transtornos ou Excesso de Diagnósticos de Internet?
- Synô Milía (Multiverso)

- 26 de jan.
- 5 min de leitura
Atualizado: 28 de jan.
Somos bombardeados diariamente por dicas, truques e conselhos sobre saúde mental. Em meio a tanto ruído, é fácil se sentir perdido, repetindo os mesmos clichês sem que nada realmente mude. O que acontece quando a ansiedade não é apenas uma "química cerebral desregulada" e a tristeza não é algo a ser "curado" com positividade tóxica? Como encontrar perspectivas que genuinamente nos transformem?
Em uma conversa reveladora no MultiCast, situada dentro da urgente discussão sobre "a pandemia de transtornos mentais na população LGBT+", o psicólogo Marcos Souza surge como uma voz nova e necessária. Como um profissional queer que atende majoritariamente a comunidade, ele traz uma perspectiva que vai muito além do consultório tradicional. Sua vivência e prática clínica oferecem um olhar afiado sobre como as estruturas sociais, o preconceito e a necessidade de pertencimento moldam nosso bem-estar psíquico de formas que raramente discutimos.
Prepare-se para mergulhar em cinco lições surpreendentes e contraintuitivas extraídas desse diálogo. Elas desafiam o senso comum sobre terapia, diagnóstico e resiliência, provando que, às vezes, o caminho para a saúde mental não é apenas olhar para dentro, mas sim compreender criticamente o mundo que nos adoece.
A Verdade Libertadora: "Seu problema não é de dentro para fora, é de fora para dentro."
Um momento fundamental na conversa surgiu quando a apresentadora Fabi Mesquita compartilhou uma epifania pessoal, um insight transformador que recebeu de sua própria psicanalista. Ela descreveu como, após anos se sentindo "a pessoa problemática", ouviu de sua terapeuta que, na verdade, era saudável e bem-resolvida. A questão não era uma falha interna, mas uma reação a um contexto externo adverso. Essa percepção — de que o sofrimento psíquico de populações minorizadas é frequentemente uma resposta sã a uma sociedade doente — serviu de base para todo o debate.
Nesse contexto, fazer terapia deixa de ser sobre "consertar" algo quebrado em nós e se torna um ato de resistência e aprendizado. Trata-se de desenvolver ferramentas para navegar em um mundo que não foi projetado para o nosso bem-estar. Como Fabi reflete, é entender que sentir-se mal em um ambiente tóxico não é sinal de fraqueza, mas de sensibilidade e humanidade.
"o seu problema não é de dentro para fora é de fora para dentro [...] Nós não somos pessoas problemáticas nós somos pessoas diferentes que decidimos estar na linha de frente para transformar o mundo e isso faz a gente bater de frente com fascista com racista com nazista com homofóbico [...] e a gente apanha o tempo todo e não tem como isso não machucar." — Fabi Mesquita
O Peso do Estereótipo: A Necessidade de "Ser Mais" para Sobreviver
Você já ouviu o estereótipo de que gays "se cuidam mais", são "mais cheirosos" ou "mais inteligentes"? Marcos Souza desconstrói essa ideia, movendo-a do campo da piada para o da análise social. Ele explica que essa pressão para se destacar não é vaidade, mas um mecanismo de defesa desenvolvido desde cedo para sobreviver.
Em uma sociedade que marginaliza e olha com desconfiança, pessoas gays sentem a necessidade de compensar. É preciso "ser mais" — mais bonito, mais educado, mais bem-sucedido — para ser visto positivamente, para ser aceito, para minimizar as chances de rejeição e violência. O que parece um estereótipo superficial é, na verdade, a consequência de uma vida inteira de ter que provar seu valor para os outros.
"como uma um criança que percebeu ser gay ou uma adolescente que percebia ser gay eu precisava ser mais [...] os gays precisam se arrumar mais para se destacar positivamente os gays precisam estudar mais para se destacar na escola porque já sofrem ali uma uma possibilidade de ficar para trás."
A Armadilha Moderna: Estamos Vivendo uma Epidemia de Transtornos ou de Diagnósticos?
Na era do TikTok, vídeos com títulos como "5 sinais de que você tem depressão" se tornaram uma praga. Marcos Souza faz uma crítica contundente a essa cultura de autodiagnóstico e à patologização de emoções humanas normais. Sentir-se triste não é o mesmo que ter um diagnóstico clínico de depressão; ter dificuldade de foco não significa automaticamente um quadro de TDAH.
O perigo, segundo ele, é que a busca incessante por um rótulo pode nos afastar do verdadeiro trabalho: aprender a lidar com nossos sentimentos. Ao nos apegarmos a um diagnóstico encontrado na internet, corremos o risco de terceirizar a responsabilidade sobre nosso bem-estar, em vez de desenvolvermos a resiliência necessária para encarar as complexidades da vida. A validação profissional é crucial, mas a banalização dos transtornos mentais nas redes sociais cria mais confusão do que clareza.
"cinco passos para você saber se você tem depressão gente isso não existe isso não deveria Existir [...] se você procurar por hashtag sobre doenças mentais no no tiktok assim é alarmante o número de pessoas falando asneira na internet e criando coisas que assim não fazem sentido."
A Cura pela Autenticidade: O Poder de um Terapeuta de Saia e Salto
Marcos Souza narrou sua jornada pessoal ao decidir transformar sua prática clínica durante a pandemia. Ele começou comprando seu primeiro par de saltos para usar em casa, um passo íntimo que o levou a se questionar: "o que que eu faço com isso agora né?". Aos poucos, essa redescoberta de si mesmo foi introduzida no consultório, primeiro com bermudas e depois com as saias e saltos que hoje integram sua identidade profissional. Essa atitude vai muito além da estética; ela é uma poderosa ferramenta terapêutica.
Na psicologia, a "transferência" — o vínculo entre paciente e terapeuta — é fundamental. Ao desmantelar a imagem do terapeuta neutro e distante e se apresentar de forma autêntica e vulnerável, Marcos modela a própria coragem que espera cultivar em seus pacientes. Sua vulnerabilidade funciona como um convite direto para que o paciente também se sinta seguro para baixar suas defesas, acelerando a criação de um espaço onde a cura pela humanidade compartilhada se torna possível.
Repensando o Preconceito: Nem Todo Ódio é "Recalque"
É comum ouvir no senso comum que "todo homofóbico é gay enrustido". No debate, o grupo coletivamente desmontou essa ideia simplista. Patologizar o preconceito, tratá-lo como uma doença ou um problema psicológico individual ("recalque"), pode ser uma forma perigosa de "passar pano", ou seja, de minimizar ou desculpar um comportamento que na verdade é um projeto de poder.
Muitas vezes, o preconceito não nasce de uma crise de identidade pessoal, mas de uma escolha consciente e política para manter privilégios. O homem que ataca mulheres, o branco que discrimina negros ou o hétero que agride pessoas LGBT+ não estão necessariamente lidando com seus próprios demônios. Com frequência, eles estão agindo intencionalmente para preservar um status quo que os beneficia. Reconhecer o preconceito como uma ação política, e não apenas como uma patologia, é o primeiro passo para combatê-lo de forma eficaz.
Um Novo Olhar Sobre Nós Mesmos
As reflexões compartilhadas no MultiCast nos convidam a uma jornada mais profunda e honesta sobre bem-estar. A verdadeira saúde mental não se resume a cuidar de si mesmo em uma bolha. Ela exige que olhemos para fora: para a sociedade que nos molda, para as relações que construímos e para os sistemas de poder que definem quem pode ou não ser saudável e feliz. É um convite para sermos mais críticos com as "verdades" que nos contam e mais gentis com as reações que nosso corpo e mente têm a um mundo muitas vezes cruel.
Depois dessas reflexões, qual "verdade" sobre si mesmo e sobre o mundo você está pronto para questionar?




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