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AIDS 2024: O Futuro da Cura, PrEP Injetável e Vacina





Para muitos, graças a décadas de avanços científicos espetaculares, a crise da aids parece ter ficado no passado. A ciência nos deu medicamentos que tornam o HIV indetectável e intransmissível, além de ferramentas de prevenção cada vez mais eficazes. Contudo, essa visão otimista esconded uma realidade muito mais complexa. Hoje, os maiores desafios na luta contra o HIV são frequentemente invisíveis, enraizados em questões sociais, culturais e políticas que a ciência, sozinha, não consegue resolver.


É nesse cenário que a Conferência Internacional de AIDS 2024, que acontecerá em Munique, se torna um momento crucial. O evento reunirá cientistas, médicos e, fundamentalmente, ativistas para discutir essas complexas realidades. Para entender o que está em jogo, conversamos com João Geraldo Netto, Fabi Mesquita e Adriana Bertini, ativistas do Instituto Multiverso que estão de malas prontas para a Alemanha. As expectativas deles revelam cinco verdades surpreendentes sobre a batalha contra o HIV hoje.


O Progresso Tem CEP: Por Que o "Brasil que dá certo" Não Chega a Todos


Uma das ironias mais cruéis da saúde pública é que a história de sucesso de uma nação pode mascarar profundas falhas internas. Os ativistas do Instituto Multiverso argumentam que este é precisamente o caso do Brasil. É comum ouvir que o país é um líder global no tratamento e prevenção do HIV, mas a verdade é que esse progresso tem um endereço muito específico. Avanços notáveis, como as máquinas de venda de PrEP (Profilaxia Pré-Exposição) em estações de metrô, são uma realidade em São Paulo, mas soam como ficção científica em grande parte do país.


Regiões como o Norte, Nordeste, Sul e Centro-Oeste ainda enfrentam enormes dificuldades de acesso a tecnologias e programas básicos de prevenção. A realidade é clara: "Brasil não é São Paulo". Para os ativistas, é uma responsabilidade mostrar ao mundo não apenas o que o país conquistou, mas também, e com a mesma honestidade, o que ainda falta.


"Às vezes a gente se sente orgulhoso do que o Brasil está fazendo, do que o Brasil tem, e na verdade não é o Brasil, é São Paulo... precisamos ter essa ciência de que o Brasil não é só São Paulo. E ter a honestidade de, quando sairmos do Brasil para falar do que temos, ter a coragem de dizer também o que não temos." — Fabi Mesquita

A Barreira Moral: O Medo de "Liberar a Putaria" Trava a Prevenção


A ciência oferece ferramentas cada vez mais poderosas, como a PrEP injetável de longa duração e a DoxyPEP, um antibiótico tomado após a relação sexual para prevenir Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs). No entanto, a implementação dessas tecnologias esbarra em uma barreira massiva: a moralidade conservadora.


A resistência vem de médicos e gestores públicos que argumentam que essas ferramentas vão incentivar a promiscuidade, ou, como dito na conversa, "liberar a putaria". Um exemplo claro é a DoxyPEP. Trata-se da Doxiciclina, um antibiótico antigo e conhecido, cuja nova aplicação para prevenir ISTs é recebida com desconfiança, apesar de seu enorme potencial para a saúde pública, especialmente para as mulheres. No fundo, essa resistência não é sobre ciência, mas sobre o controle dos corpos e da sexualidade das pessoas, muitas vezes disfarçado em argumentos pseudocientíficos ou na ideologia pessoal, com médicos usando "o poder da academia" para perpetuar preconceitos que sua religião ou visão de mundo não permite.


As Crises Ocultas: Saúde Mental e a Sobrevivência Indígena


Dentro da grande crise do HIV, existem emergências específicas e silenciosas que afetam as populações mais vulneráveis. Uma delas é a ligação crítica, e quase sempre negligenciada, entre o HIV e a saúde mental. Entre adolescentes que adquiriram o vírus por transmissão vertical (de mãe para filho), os índices de abandono de tratamento e de suicídio são alarmantes. O problema se agrava na transição para a vida adulta; enquanto estão sob a tutela de pais e médicos, o tratamento é monitorado. Mas na adolescência, ao buscarem autonomia, muitos enfrentam a crise sozinhos, levando a altíssimos índices de abandono e suicídio.


"quando que o HIV conversou com a saúde mental né?" — Adriana Bertini

Outra crise oculta é a dos povos originários. Conforme descrito por Fabi Mesquita, a luta diária e "massacrante" pela sobrevivência básica — pela terra, pela vida — deixa pouco ou nenhum espaço para o ativismo em outras frentes, como a do HIV, mesmo que o vírus tenha um impacto significativo em suas comunidades. A esperança dela na conferência é aprender com as experiências de grupos indígenas de outros países para, quem sabe, inspirar novas frentes de luta no Brasil.


A Cura é Mais Complexa (e Fascinante) do Que Imaginamos


Falar sobre a "cura" do HIV muitas vezes soa como algo saído da ficção científica, mas a ciência real por trás dessa busca é ainda mais interessante. As pesquisas mais promissoras não envolvem uma pílula mágica, mas abordagens complexas e inovadoras.


Uma delas é a terapia gênica, que busca alterar um receptor nas células de defesa chamado "CCR5". É fascinante notar que cerca de 1% da população mundial, concentrada principalmente no norte da Europa, já nasce com uma deficiência nesse receptor, o que os torna naturalmente resistentes ao HIV. Usando a analogia de João, a terapia gênica visa "trocar a fechadura" da célula ("chavinha") para todos, de modo que o vírus não consiga mais usar sua chave para entrar e se replicar.


Já uma vacina preventiva é um desafio monumental porque o HIV é um vírus de RNA altamente mutante. Ele cria versões "customizadas" de si mesmo em diferentes comunidades, tornando quase impossível criar uma vacina "tamanho único". Essas soluções não são para amanhã, mas representam caminhos vitais de pesquisa, reforçando a necessidade de múltiplas opções terapêuticas para casos específicos.


A Linha de Frente do Ativismo: Uma Pista de Dança e uma Galeria de Arte


A luta por direitos e pela vida no movimento do HIV não acontece apenas em laboratórios, gabinetes e ruas. Ela também pulsa na arte. Em Munique, Fabi e Adriana levarão projetos que usam a expressão artística como uma poderosa ferramenta de ativismo e sensibilização.


Fabi Mesquita apresentará "ecos da resiliência", uma coreografia que explora o simbolismo universal da cor vermelha. Para ela, o "vermelho" representa a resistência em todas as suas formas: das revoluções políticas ao laço da aids, conectando tudo ao desejo fundamental de viver. Adriana Bertini levará duas instalações interativas. Uma convidará o público a tocar em diferentes texturas para refletir sobre os aspectos "invisíveis" de viver com o vírus. A outra será uma exposição "efêmera", da qual os participantes poderão levar um pedaço da obra para casa, simbolizando a partilha da experiência.


"Se eu soubesse exatamente o que quero dizer, não precisaria dançar, eu simplesmente diria. A gente dança por necessidade, é uma necessidade, assim como quando escrevemos." — Fabi Mesquita

A Próxima Fronteira é Humana


A conversa com os ativistas deixa claro que, enquanto a inovação científica avança a passos largos, os desafios mais profundos que enfrentamos hoje são intensamente humanos. Eles se chamam desigualdade, preconceito, saúde mental, crises de sobrevivência e a necessidade de encontrar novas formas de expressão para conectar e curar.


Munique irá, sem dúvida, celebrar novas moléculas e terapias. Mas, como revelam estes ativistas, os tratamentos mais potentes que nos faltam são para a desigualdade e o preconceito. Estamos, como comunidade global, dispostos a investir também numa cura para isso?




 
 
 

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