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Intersexo e Política: A Trajetória de Carolina Iara da Mutilação ao Poder

Atualizado: 28 de jan.





Em meio a um debate público cada vez mais polarizado, onde narrativas simplistas tentam se impor sobre a realidade, certas vozes emergem com uma clareza transformadora. A deputada estadual Carolina Iara é uma dessas vozes. Sua trajetória pessoal é sua práxis política: como mulher negra, intersexo, travesti, vivendo com HIV, socióloga e cria da luta por moradia, ela personifica as batalhas mais urgentes do Brasil. Sendo a única deputada declaradamente intersexo da América do Sul, sua presença nos espaços de poder não é apenas representativa, é disruptiva. Baseado em uma entrevista recente, este artigo explora cinco dos insights mais surpreendentes de sua história, que nos forçam a repensar nossas noções sobre biologia, estratégia política e direitos humanos.


A biologia é mais complexa do que os conservadores querem que você acredite.


A narrativa conservadora frequentemente se ancora em uma visão estritamente binária da biologia para justificar preconceitos. Argumentos como "não é natural" ou "não é biológico" são repetidos como um mantra. A própria existência de Carolina Iara, no entanto, desmonta essa lógica a partir de um conhecimento encarnado.


Ela explica que ser uma pessoa intersexo significa nascer com características sexuais que não se encaixam nas definições típicas de masculino ou feminino. Isso pode se manifestar de várias formas: genitais ambíguos, gônadas, órgãos internos ou questões hormonais. Para tornar o conceito mais claro, ela oferece exemplos concretos: uma pessoa que tem um pênis mas tem ovário, ou uma pessoa que tem vagina mas tem testículos internos. Contrariando a percepção de que se trata de uma condição raríssima, ela destaca um dado surpreendente: "dois em cada 100 bebês nascem intersexo".


Esse fato biológico se torna uma ferramenta política poderosa para desarmar opositores. Quando confrontada com argumentos baseados em um binarismo simplista, sua resposta é demolidora.


...eu falo meu amor você tá dizendo que eu biologicamente meu bem eu nasci mulher também E aí tá seu Deus agora cadê o seu Deus agora né É aí da tela azul...

Sua lição, portanto, transcende o debate sobre identidade de gênero. Ela expõe como a política autoritária depende de categorias rígidas e imutáveis, e como o conhecimento corporificado de quem vive a diversidade da natureza é capaz de implodir os fundamentos de discursos de ódio.


Ser radical não é sobre extremismo, mas sobre estratégia e maturidade.


A trajetória de Carolina Iara revela uma profunda evolução de tática e perspectiva. Sua "escola" política foi a luta por moradia em Sapopemba, um bairro construído pela organização popular. Essa origem em movimentos de base forjou uma ativista combativa, por vezes vista como "briguenta". No entanto, a ascensão do fascismo no Brasil a levou a uma nova compreensão estratégica, informada por sua leitura de teóricos revolucionários como Trotsky: a necessidade de ocupar os espaços institucionais para combatê-lo por dentro.


Essa mudança não significou abandonar seus princípios, mas sim refinar sua abordagem. Ela ressignifica o conceito de "ser radical", explicando que não se trata de extremismo, mas de "ir na raiz do problema". Essa maturidade política foi acompanhada por um processo pessoal profundo: sua transição de gênero e seu encontro com a fé no Candomblé a tornaram uma pessoa mais satisfeita com a vida e, consequentemente, mais estratégica.


Ela aprendeu a escolher suas lutas, focando sua energia onde o impacto poderia ser mais transformador.


...eu mudei entro agora só nas grandes brigas naquelas que querem mudar o mundo...

Sua jornada redefine a radicalidade não como um ato performático, mas como uma disciplina estratégica que analisa a realidade concreta para adaptar as táticas e alcançar mudanças estruturais.


A violência na política tem cor e identidade de gênero.


Como socióloga que pesquisa o feminismo negro e a interseccionalidade, Carolina Iara aponta que, embora todas as mulheres na política enfrentem assédio, a natureza e a intensidade dessa violência mudam drasticamente quando se é uma mulher negra e trans.


Ela relata que o silenciamento, a desqualificação da fala e comentários velados sobre a aparência são uma realidade comum a todas as parlamentares. No entanto, para mulheres como ela, a violência escala para um nível de ameaça existencial. Os exemplos são concretos e aterrorizantes: ameaças de morte, ataques físicos — como as bombas jogadas em sua casa —, perseguição por milícias e ameaças de "estupro corretivo".


Sua análise expõe uma falha abissal do Estado brasileiro. Após os atentados que sofreu, a única solução oferecida pelo governo foi o "programa de proteção a testemunhas", que exigiria que ela mudasse de estado e de nome, decretando sua morte política. A conclusão é brutal: sua segurança hoje é garantida pela sociedade civil — movimentos sociais, ativistas e seu partido —, e não pelas instituições que deveriam protegê-la.


A "destransição" pode ser um trauma imposto pela sociedade, não uma escolha.


O tema da "destransição" é frequentemente instrumentalizado por grupos anti-trans para invalidar identidades de gênero. A experiência de Carolina, no entanto, oferece uma perspectiva radicalmente diferente, mostrando como a exclusão social produz traumas com consequências diretas para a saúde pública.


Ela conta que passou por um período de destransição não por negar sua identidade, mas como uma imposição para sobreviver. Foi forçada a voltar para o armário por "pressão religiosa ou trabalhista/econômica" para conseguir um emprego. Ela classifica esse período como um "grande trauma" e um momento de extrema vulnerabilidade em sua saúde mental.


Sua análise, informada por sua própria pesquisa como socióloga que estuda as vulnerabilidades ao HIV, estabelece uma conexão direta: foi nesse contexto de exclusão e sofrimento que ela se infectou com o vírus. Sua história desafia as narrativas simplistas, demonstrando que a destransição, em muitos casos, não é uma escolha livre, mas uma consequência dolorosa da transfobia estrutural que adoece e mata.


A perseguição a crianças trans é uma tática cínica, não uma preocupação genuína.


Atualmente, Carolina Iara está na linha de frente da luta contra a chamada "CPI transfóbica" na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), uma comissão que visa perseguir o ambulatório trans da USP.


Ela expõe a tática cínica dos opositores: usar a "proteção da criança" como pretexto para atacar crianças trans, suas famílias e os profissionais de saúde. Carolina desmascara a hipocrisia questionando por que esses mesmos políticos não se preocupam com a criança negra que leva tiro da polícia ou a criança que passa fome. A luta, segundo ela, é parte de um roteiro político que começa em São Paulo e se espalha pelo Brasil, continuando os ataques ao SUS e à ciência.


Para isso, eles se baseiam em desinformação, como a mentira de que o ambulatório realiza cirurgias de mudança de sexo em crianças. Carolina destrói essa fake news com fatos: a fila de espera do serviço é tão longa, de mais de dez anos, que uma criança que entra no programa só teria a possibilidade de passar por um procedimento cirúrgico depois dos 20 anos de idade. A batalha, portanto, é para desmascarar o pânico moral fabricado para ganhar capital político sobre a vida de pessoas vulneráveis.


A trajetória de Carolina Iara não é apenas uma história individual de resiliência; é um roteiro político para as batalhas mais urgentes da sociedade brasileira. Suas lições, forjadas na dor, na pesquisa e na luta, nos oferecem ferramentas para desarmar o preconceito e construir uma política mais justa. Sua voz nos força a olhar para além das aparências e a questionar as verdades que nos foram impostas. Fica a pergunta: quantas Carolinas Iaras o Brasil precisa para finalmente entender que a diversidade não é uma ameaça, mas a nossa maior força?

 
 
 

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