Chemsex: O Que É o Sexo Químico e Como Reduzir os Danos do Uso de Drogas?
- Synô Milía (Multiverso)

- 27 de jan.
- 6 min de leitura
No primeiro episódio do nosso MultCast, embarcamos em uma conversa esclarecedora com Myro Rolim, um experiente profissional que há anos tem se dedicado ao campo das políticas públicas e redução de danos. Myro, com sua vasta trajetória e atuação na área de saúde coletiva, compartilhou insights valiosos sobre o tema do Chemsex. Ele enfatizou a importância crucial de programas que visam mitigar os riscos associados ao uso e abuso de substâncias, bem como a necessidade de cuidados apropriados quando se lida com substâncias potencialmente perigosas, como o fentanil. Recentemente, o fentanil ganhou destaque global devido a relatos alarmantes sobre uma suposta epidemia de uso inadequado nos Estados Unidos.
O termo "chemsex", ou sexo químico, tem ganhado cada vez mais espaço no debate público, mas essa visibilidade nem sempre vem acompanhada de informação de qualidade. Pelo contrário, a prática ainda é cercada por mitos, pânico moral e uma profunda desinformação que mais atrapalha do que ajuda. É um tópico complexo, que exige uma abordagem que vá além do sensacionalismo.
Para lançar luz sobre o assunto, buscamos os insights de Myro Rolim, um experiente profissional de políticas públicas e consultor técnico no projeto "ColocAção", uma iniciativa do Instituto Multiverso focada justamente em orientar sobre o sexo com uso de substâncias. Em uma conversa esclarecedora no MultCast, do Instituto Multiverso, Myro desconstruiu ideias preconcebidas e ofereceu uma visão mais humana e eficaz sobre o tema, fundamentada na filosofia da redução de danos.
Aqui, vamos além da superfície para apresentar lições surpreendentes e impactantes extraídas da fala de Myro. São ideias que oferecem uma nova maneira de entender o chemsex, focada no cuidado, na autonomia e na realidade de quem vive essa prática.
O Foco Não Deveria Ser a Droga, Mas a Busca por Trás Dela
A falha fundamental na abordagem midiática e de saúde pública ao chemsex, aponta Myro Rolim, é um erro de diagnóstico: focar na substância em vez de na motivação humana. A visão ultrapassada trata as drogas como o fim, quando na verdade o chemsex é melhor compreendido como uma cultura na qual elas são apenas um meio.
A verdadeira questão a ser respondida é: o que as pessoas buscam ao combinar sexo e substâncias? As motivações são diversas e profundamente humanas. Conforme explica o especialista, a busca pode ser por prolongar o prazer, aumentar o desempenho sexual, quebrar inibições e barreiras pessoais, explorar novas formas de relacionamento ou até mesmo para mediar uma relação complexa com a própria saúde e a dependência de certas substâncias.
"Muita coisa que sai sobre aquele sexo na mídia é muito focado na substância como se a substância fosse toda determinante dessa cultura. Eu acho que era apenas um componente essa cultura."
Essa mudança de foco (da substância para a motivação) é transformadora. Ela nos permite abordar o tema com mais empatia e eficácia, trocando o julgamento pela tentativa de compreender as necessidades e os desejos que movem as pessoas, um princípio básico da redução de danos.
Chemsex Não é um Conceito Universal. O Brasil Tem Suas Próprias Regras
Importar o conceito europeu de chemsex não é apenas impreciso; é um erro estratégico que leva a políticas de saúde ineficazes. Myro Rolim adverte que essa abordagem ignora as realidades culturais do Brasil. Na Europa, o termo está associado a substâncias específicas como metanfetamina (cristal), GHB e MDMA. No entanto, a cena brasileira tem suas próprias particularidades, incorporando drogas como cocaína, maconha e LSD.
Essa adaptação cultural é fundamental para entender o fenômeno. A prática se molda às realidades locais: em países da Ásia, plantas como a folha de Betel são utilizadas; no Brasil, as substâncias consumidas na periferia de São Paulo podem ser diferentes daquelas usadas em bairros de classe média.
Ignorar essas particularidades significa aplicar um modelo de cuidado estrangeiro que não dialoga com a cultura local e, consequentemente, não funciona. Para criar estratégias de redução de danos eficazes, é crucial partir da realidade brasileira.
O Oposto da Dependência Não é a Abstinência, é a Autonomia
Em vez de perseguir a meta muitas vezes irrealista da abstinência total, a abordagem moderna de cuidado com o uso de substâncias propõe uma mudança de paradigma revolucionária: o objetivo é devolver ao indivíduo a capacidade de fazer suas próprias escolhas de forma informada.
Myro Rolim usa uma poderosa analogia com o mar para ilustrar esse ponto. Desde cedo, aprendemos a respeitar o mar — sabemos onde e quando é perigoso entrar e como evitar seus riscos. Da mesma forma, deveríamos ser educados sobre as substâncias, aprendendo a lidar com elas para minimizar os danos e potencializar o cuidado.
"O contrário da dependência, do contrário do uso abusivo, não é a abstinência, mas a autonomia."
Nesse contexto, "autonomia" significa ter acesso à informação de qualidade para reconhecer quando o uso está se tornando problemático, saber quais cuidados tomar para reduzir riscos e onde buscar ajuda se necessário, sem que a interdição total seja a única opção sobre a mesa.
A "Guerra às Drogas" é o Maior Obstáculo Para o Cuidado
Essa busca pela autonomia individual colide diretamente com o maior obstáculo sistêmico ao cuidado: a "Guerra às Drogas". Essa política não é uma estratégia de saúde, mas um discurso ideológico que cria tabu, medo e pânico, impedindo discussões honestas, pesquisas científicas e a produção de conhecimento.
Um exemplo histórico relatado por Myro demonstra o dano concreto dessa política. No início da epidemia de HIV/aids, a lei obrigava profissionais de saúde a denunciar usuários de drogas injetáveis à polícia. O resultado? As pessoas tinham medo de procurar ajuda médica, mesmo com sintomas graves, o que contribuiu para a disseminação do vírus.
Hoje, esse mesmo tabu dificulta a vida de quem pratica chemsex. O medo da estigmatização e do julgamento impede que os usuários busquem informações sobre redução de danos e que os profissionais de saúde sejam treinados para acolher essa demanda de forma adequada, perpetuando um ciclo de desinformação e risco.
A Solução é uma "Mandala de Prevenção" Focada em Cuidado e Informação
Em vez de proibir e punir, uma estratégia de saúde eficaz oferece um leque de opções. A proposta de Myro Rolim, inspirada no modelo de sucesso da prevenção combinada do HIV, é criar uma "Mandala da Prevenção para o Chemsex", um cardápio de opções que devolve ao indivíduo o poder de escolher as melhores formas de se cuidar.
Os componentes dessa mandala incluiriam:
Acesso a insumos de prevenção: preservativos, gel lubrificante, além de cachimbos e canudos adequados para reduzir danos associados ao uso de certas substâncias.
Promoção de estratégias biomédicas: como a PrEP (Profilaxia Pré-Exposição ao HIV).
Formação continuada para trabalhadores da saúde: para que saibam acolher os usuários sem julgamento e com informação qualificada.
Criação de espaços seguros: como rodas de conversa e grupos de apoio mútuo, formando uma "clínica ampliada do cuidado".
Estratégias estruturais: como a luta por uma nova política de drogas e a oferta de testagem de substâncias como um serviço de saúde pública, permitindo que as pessoas saibam o que realmente estão consumindo e evitem overdoses acidentais por substâncias perigosas como o fentanil, que já foi encontrado em amostras no Brasil.
O objetivo não é proibir, mas oferecer um conjunto de ferramentas para que cada pessoa possa cuidar de si e de sua comunidade da melhor forma possível.
Uma Nova Pergunta Para Começar
As lições de Myro Rolim nos convidam a abandonar uma visão focada na droga e no pânico para adotar uma abordagem centrada na pessoa, na autonomia e na redução de danos. Trata-se de entender as motivações humanas, respeitar as realidades locais e construir estratégias de saúde que promovam a vida em vez de punir comportamentos. Adotar essa perspectiva não é uma mera questão de semântica; é uma decisão estratégica que pode determinar a eficácia das políticas públicas e, em última análise, salvar vidas.
No final, a jornada proposta por Myro nos convida a fazer uma troca simples, mas revolucionária. E se, em vez de perguntarmos "Que droga você está usando?", começássemos a perguntar: "Do que você precisa para se cuidar melhor?".
Outra parada importante é que Myro é um dos consultores técnicos no projeto "ColocAção da Periferia ao Centro de São Paulo", que foi desenvolvido pelo Instituto Multiverso. Esse projeto é focado em orientar e conscientizar a galera sobre o sexo com uso de substâncias (chemsex). Durante nossa conversa, ele destacou que é super urgente direcionar nossa atenção para os grupos mais vulneráveis, como quem usa drogas, pessoas em situação de rua, a comunidade LGBTQI+e quem vive com HIV. Esse episódio do podcast é uma oportunidade incrível de aprofundar nosso conhecimento sobre um tema importante e explorar maneiras de promover a saúde e o bem-estar dessas comunidades.




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