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Estudo "Chemsex entre gays e outros HSHs: uma investigação analítico-comportamental"

Atualizado: 9 de jan.





TÍTULO DO TRABALHO

Chemsex entre gays e outros HSHs: uma investigação analítico-comportamental


PESQUISADOR

João Marinho de Lima Neto


MODERADORES

João Geraldo Netto e Ruan Nilton Melo


RESUMO

O pesquisador João Marinho detalhou sua tese em análise do comportamento sobre chemsex entre gays e HSH. Via métodos mistos, mapeou antecedentes como solidão e consequências como o prazer e a culpa. O estudo gerou diretrizes de comunicação e acolhimento, defendendo serviços integrados (testagem e saúde mental no mesmo local), anônimos e não moralizantes para abordar vulnerabilidades e promover a redução de danos antes que o uso cause prejuízos severos.





Na complexa jornada por conexão, prazer e segurança da comunidade gay contemporânea, poucos temas são tão delicados e mal compreendidos quanto o Chemsex. Longe de ser um simples ato de busca por prazer, ele representa um fenômeno multifacetado que merece um olhar mais profundo e humano. As lições a seguir são baseadas em uma pesquisa acadêmica brasileira conduzida por João Marinho de Lima Neto, um pesquisador com uma trajetória singular que une o jornalismo à psicologia da Análise do Comportamento. Seu trabalho não apenas coleta dados, mas traduz em ciência as dores e buscas da comunidade, revelando os aspectos mais surpreendentes e humanos por trás do uso de substâncias em contextos sexuais.


Não é (só) sobre prazer. É sobre encontrar uma solução para a dor.


Para muitos homens gays e bissexuais, o Chemsex funciona menos como uma busca hedonista e mais como uma "solução" para um contexto de aversão. Conforme descrito pelo pesquisador David Stuart, o "mindset" do Chemsex é moldado por um ambiente hostil: a homofobia internalizada e social, o estigma histórico relacionado ao HIV/aids, o impacto dos aplicativos de relacionamento na autoestima e a percepção social de que o sexo entre homens é inerentemente mais perigoso. Essas pressões criam uma situação desconfortável que dificulta a conexão e a vivência plena da sexualidade.


Essa perspectiva é impactante porque desloca o foco do julgamento moral para a empatia. O uso de substâncias atua em duas frentes poderosas: como um reforçador positivo (a adição do prazer) e, crucialmente, como um reforçador negativo (a remoção de um sentimento aversivo, como a ansiedade social ou a homofobia internalizada). É a busca por um alívio, por um espaço mental onde a pessoa pode "abstrair tudo aquilo e ela afinal pode se relaxar e curtir".


O maior obstáculo para parar não é a droga. São os amigos.


Além da intensificação do prazer sexual, a pesquisa de João Marinho revelou que o Chemsex proporciona um ganho imenso de conexões através de um poderoso "reforçador social": amigos e parceiros sexuais. Para indivíduos que vivem em situação de isolamento ou com uma rede de apoio frágil, essa nova comunidade se torna extremamente valiosa, preenchendo um vazio de pertencimento. Essa dimensão social é tão poderosa que um dos depoimentos, destacado pelo próprio pesquisador por seu impacto, revela:


"a parte mais difícil de largar o K sex foi eu perder os meus amigos os meus parceiros sexuais porque aí eu ficava querendo voltar para ter parceiros amigos de novo eles se afastaram de mim"


Isso transforma o desafio de parar de usar em uma crise de solidão. A pessoa não precisa apenas lidar com a dependência química, mas também com a perspectiva de perder todo o seu círculo social. A questão se torna muito mais complexa do que simplesmente "parar de usar a droga"; torna-se sobre como reconstruir uma vida social do zero.


O perfil do usuário pode ser bem diferente do que você imagina.


Os dados demográficos do estudo, realizado com 62 participantes validados, ajudam a desconstruir o estereótipo do usuário de drogas como alguém marginalizado. O perfil que emergiu da pesquisa foi majoritariamente de:


  • Homens gays e bissexuais, cisgêneros.

  • Predominantemente brancos, da região Sudeste.

  • Com ensino superior e pertencentes à classe média (renda média de R$ 4.000).

  • Quase 40% em relacionamentos estáveis, muitos deles não monogâmicos.

  • Alta adesão a estratégias de prevenção e tratamento do HIV, com 75% da amostra fazendo uso de antirretrovirais (seja como PrEP ou para tratamento, com a maioria dos que vivem com HIV apresentando carga viral indetectável).


Esse perfil é relevante por indicar que o Chemsex não é um fenômeno restrito a um grupo social específico. A pesquisa levanta a hipótese de que o perfil socioeconômico pode estar relacionado ao custo elevado de certas substâncias, como a metanfetamina, cujo uso exige um poder aquisitivo maior. Isso demonstra a capilaridade do fenômeno em diferentes estratos da comunidade.


O pedido de ajuda só vem depois do caos. E revela uma falha do sistema de saúde.


A pesquisa concluiu que a busca por ajuda externa geralmente ocorre tardiamente. O usuário só tende a procurar apoio depois que já sofreu uma série de consequências negativas graves (chamadas na Análise do Comportamento de "punições"), como a perda do emprego, o acúmulo de dívidas ou o desenvolvimento de transtornos de saúde mental. A pessoa espera o caos se instalar para, então, buscar uma saída.


Quando finalmente buscam ajuda, a expectativa desses usuários expõe uma lacuna fundamental no sistema de saúde. Eles anseiam por um serviço integrado, um "lugar que faça tudo": onde seja possível realizar testagem para ISTs, retirar a PrEP e outros medicamentos, ter acesso a cuidados de saúde mental e receber um acolhimento não-julgador. A necessidade de percorrer múltiplos serviços diferentes, cada um com sua própria burocracia, se torna uma barreira que dificulta e desestimula a adesão ao cuidado.


Para ajudar de verdade, o primeiro passo é validar o prazer.


As estratégias de comunicação e abordagem são cruciais para um acolhimento eficaz. A pesquisa aponta para a necessidade de uma linguagem direta, sem termos técnicos, que não seja julgadora e esteja contextualizada no universo gay. A recomendação mais contraintuitiva, e talvez a mais importante, é a de que uma abordagem eficaz precisa "validar o fato de que usar é gostoso". Reconhecer que o uso de substâncias proporciona prazer é o ponto de partida para construir uma relação de confiança, permitindo que o diálogo avance para os aspectos negativos e para as estratégias de redução de danos.


Além de validar o prazer, o estudo aponta outras estratégias-chave:


  • Canais Anônimos: Oferecer um primeiro contato via aplicativos como o WhatsApp, onde a pessoa pode buscar informação sem se identificar.

  • Acolhimento por Pares: Envolver ex-usuários no processo, pois sua experiência vivida gera confiança e empatia.

  • Foco em Redução de Danos: Fornecer informações práticas e vitais sobre dosagens, combinações perigosas e formas de minimizar riscos.


Mais do que Drogas, uma Busca por Pertencimento


Ao final, fica claro que o Chemsex é um fenômeno multifacetado, que vai muito além da química das substâncias. Ele está profundamente ligado a necessidades psicológicas e sociais de conexão, aceitação e alívio de dores coletivas que marcam a experiência de muitos homens gays. Ignorar esse contexto é ignorar a humanidade por trás do uso. Diante disso, como podemos construir comunidades e serviços de saúde que ofereçam a segurança, a conexão e a validação que tantos buscam no Chemsex, mas sem os mesmos riscos?


RELATÓRIO

Introdução: O Chemsex como Fenômeno de Saúde Pública


O chemsex emerge como uma prática crescente e uma questão de saúde pública cada vez mais relevante no cenário brasileiro. Contudo, a produção científica nacional sobre o tema ainda é incipiente, carecendo de dados robustos que possam orientar políticas e intervenções eficazes. Este relatório sintetiza os achados de uma pesquisa analítico-comportamental que buscou investigar os perfis, contextos e experiências de usuários de chemsex no Brasil, com o objetivo de subsidiar a criação de estratégias de comunicação, acolhimento e cuidado mais humanas e acessíveis.


A literatura internacional define o chemsex como o uso intencional de substâncias psicoativas com o propósito específico de facilitar, intensificar e prolongar experiências sexuais. Essa definição o distingue do conceito mais amplo de "uso sexualizado de drogas", que abrange o consumo de qualquer substância em um contexto sexual, sem necessariamente a intencionalidade de otimização da performance ou do prazer.


As substâncias associadas à prática incluem as seguintes, com variações na literatura sobre a inclusão de algumas delas:


  • Substâncias Centrais:

    • Metanfetaminas (Cristal, Tina)

    • GHB (Ácido Gama-Hidroxibutírico)

    • MDMA (Ecstasy)

    • Cocaína

  • Substâncias Associadas (Inclusão em Debate):

    • GBL (Gama-Butirolactona)

    • Mefedrona

    • Poppers (Nitrato de Amila)

    • Agentes para disfunção erétil


A compreensão do chemsex transcende a simples farmacologia, exigindo uma análise dos fatores psicossociais específicos que impulsionam sua prevalência, especialmente na comunidade de homens gays e bissexuais.


O Contexto Psicossocial: Vulnerabilidades e o "Mindset" do Chemsex


Para desenvolver intervenções humanizadas e eficazes, é imperativo compreender o contexto sociocultural no qual o chemsex se insere. A prática não pode ser reduzida apenas ao uso de drogas; ela emerge como uma resposta complexa a um conjunto de pressões, estigmas e vulnerabilidades que afetam desproporcionalmente homens gays e bissexuais.


O pesquisador David Stuart descreve o que chama de "mindset" do chemsex. Do ponto de vista analítico-comportamental, este "mindset" é um contexto coercitivo moldado por uma constelação de estímulos aversivos, como a homofobia internalizada e social, o estigma histórico relacionado ao HIV/aids, a dinâmica imposta pelos aplicativos de relacionamento e a percepção social de que o sexo entre homens é inerentemente perigoso. Esses fatores funcionam como poderosas operações estabelecedoras, aumentando o valor reforçador das substâncias.


Nesse cenário, o chemsex emerge como uma estratégia de fuga de estímulos aversivos. As substâncias funcionam como um meio para que o indivíduo se abstraia temporariamente dessas pressões, reduza a ansiedade e se sinta mais desinibido e conectado. A compreensão deste contexto psicossocial, que estabelece as operações motivadoras para o uso de substâncias, é fundamental para interpretar os dados demográficos e de saúde da amostra, que revelam quem são os indivíduos mais expostos a estes aversivos.


Perfil dos Usuários de Chemsex: Análise dos Dados da Pesquisa Nacional


Traçar o perfil do usuário de chemsex é fundamental para desmistificar estereótipos e direcionar políticas públicas de forma mais assertiva. Os dados a seguir foram compilados a partir de dois estudos realizados no Brasil: uma investigação qualitativa com sete participantes e uma pesquisa quantitativa online com 62 respondentes válidos, ambos focados em homens gays e bissexuais cisgêneros.


Perfil Sociodemográfico


A análise dos 62 participantes do estudo quantitativo revela um perfil sociodemográfico específico:


  • Região de Residência: Predominância da região Sudeste, com concentração em grandes cidades, sendo São Paulo a mais frequente.

  • Identidade Racial: Prevalência de participantes que se identificam como brancos.

  • Escolaridade: A maioria dos respondentes possui ensino superior.

  • Renda e Classe Social: A renda média declarada foi de R$ 4.000, indicando um perfil socioeconômico de classe B/C.

  • Relacionamentos: Embora a maioria se declarasse solteira, quase 40% dos participantes estavam em relacionamentos estáveis, com uma prevalência de arranjos não monogâmicos.

  • Número de Parceiros: A maioria dos participantes relatou ter tido cerca de seis parceiros sexuais no período anterior à pesquisa.


Este perfil (homens com alta escolaridade, mas com renda moderada e inseridos em contextos urbanos competitivos) sugere uma população que, apesar de possuir capital cultural, pode estar exposta a pressões sociais e econômicas que contribuem para as vulnerabilidades discutidas na seção anterior.


Perfil de Saúde e Práticas Sexuais


Os dados de saúde e práticas sexuais da amostra quantitativa (N=62) demonstram uma intersecção importante com as pautas de prevenção combinada do HIV:


  • Status Sorológico para o HIV: Cerca de 40% dos participantes viviam com HIV.

  • Carga Viral: Dentre os participantes vivendo com HIV, a maioria apresentava carga viral indetectável, correspondendo a 25% da amostra total (N=15). Quatro participantes tinham carga viral detectável.

  • Uso de Antirretrovirais (ARV): Aproximadamente 75% da amostra total fazia uso de terapia antirretroviral, seja para tratamento (Tratamento como Prevenção - TASP) ou para prevenção (Profilaxia Pré-Exposição - PrEP).

  • Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs): A sífilis foi a IST mais referida pelos participantes nos seis meses anteriores à pesquisa.


Este perfil detalhado fornece a base para a análise dos padrões comportamentais associados ao uso de substâncias, que será explorada a seguir.


Padrões de Uso e Análise Comportamental


A análise funcional do comportamento, que examina os antecedentes (gatilhos), as respostas (o comportamento em si) e as consequências (reforçadores e punições), oferece um modelo robusto para compreender a dinâmica do chemsex. Esta abordagem permite identificar os fatores que iniciam e mantêm o ciclo de uso, sendo, portanto, fundamental para o desenho de intervenções clínicas e de saúde pública mais eficazes.


Substâncias e Padrão de Consumo


O padrão de consumo identificado na pesquisa é marcado pela alta prevalência do poliuso. Cerca de 93% dos participantes relataram o uso de mais de uma substância, muitas vezes de forma concomitante em uma mesma ocasião ou alternada em diferentes momentos. As substâncias mais comumente utilizadas na amostra brasileira (cocaína, metanfetamina e GHB) são consistentes com os achados da literatura internacional, confirmando a relevância desses compostos para a prática no país.


Variáveis Antecedentes (Gatilhos para o Uso)


Os gatilhos que precedem o uso de substâncias foram mapeados e organizados de acordo com a força de sua influência, conforme os dados da pesquisa.

Força do Fator

Variável Antecedente (Gatilho)

Fortes

Intensificação do prazer sexual


Encontros sexuais com mais de uma pessoa


Oferta por parceiros ou amigos

Moderados

Redução de sentimentos de vazio e estresse


Busca por maior conexão emocional/sexual


Estar em um espaço privado (casa, hotel)

Outros (qualitativos)

Isolamento social e rede de apoio frágil


Histórico de abuso sexual

Variáveis Consequentes (Reforçadores e Punições)


As consequências do uso de substâncias determinam a probabilidade de o comportamento se repetir. Elas se dividem em reforçadores (resultados positivos ou de alívio que fortalecem o uso) e punições (resultados negativos que, em tese, deveriam diminuir o uso).


  • Reforçadores (Consequências Positivas/de Alívio):

    • Reforçadores Positivos Fortes: A intensificação do prazer, o prolongamento do ato sexual e a vivência de experiências sexuais consideradas inéditas foram os principais fatores que fortalecem a prática.

    • Reforçador Social: O sentimento de pertencimento a um grupo, o ganho de amigos e o aumento do número de parceiros sexuais funcionam como um poderoso reforçador. A fala de um participante ilustra essa força: "a parte mais difícil de largar o chemsex foi eu perder os meus amigos".

    • Reforçadores Negativos: O alívio de desconfortos psicológicos, como estresse, ansiedade e sentimentos de inadequação, também reforça o comportamento de uso.

  • Punições (Consequências Negativas):

    • Prevalentes: Sentimentos de culpa e arrependimento após o uso foram as consequências negativas mais citadas.

    • Moderadas: A deterioração da saúde psicológica e a ocorrência de práticas sexuais não autorizadas (como estupro) apareceram como impactos significativos.

    • Outros (qualitativos): Foram relatados prejuízos na saúde física, na vida profissional e financeira (endividamento), e o desenvolvimento de sintomas psiquiátricos graves, incluindo um caso de esquizofrenia induzida pelo uso de metanfetamina.


É justamente o acúmulo dessas consequências negativas que, apesar da força dos reforçadores, eventualmente leva o usuário a considerar a busca por ajuda.


Riscos, Barreiras e a Busca por Ajuda


A relação entre os benefícios percebidos e os riscos associados ao chemsex é complexa. O desafio para a saúde pública é compreender o ponto de inflexão em que os prejuízos superam os ganhos e identificar por que a busca por ajuda profissional tende a ser tardia. A pesquisa revelou que a procura por apoio externo é rara, com apenas 17 dos 62 participantes tendo buscado algum tipo de serviço.


A análise indica que a busca por ajuda ocorre quando o efeito cumulativo de múltiplas punições (perda de emprego, dívidas, rompimento de laços familiares) finalmente começa a superar o poder dos reforçadores imediatos (prazer, pertencimento, alívio). Antes desse ponto, os ganhos percebidos da prática tendem a manter o comportamento, apesar das consequências negativas pontuais.


Um dos achados mais relevantes do estudo foi a identificação do principal motivador para a mudança: a decisão de considerar parar o uso de substâncias mostrou-se estatisticamente associada à avaliação negativa do impacto do chemsex na saúde psicológica. Isso sugere que, embora os problemas físicos e sociais sejam importantes, é o sofrimento mental que mais impulsiona a busca por uma alternativa. Entender essa dinâmica é crucial para saber o que os usuários esperam encontrar quando finalmente decidem procurar os serviços de saúde.


Expectativas em Relação aos Serviços de Saúde


Compreender as expectativas do público-alvo é um passo estratégico para o desenho de intervenções eficazes. Para que os serviços de saúde consigam acolher e engajar usuários de chemsex, suas abordagens devem estar alinhadas às necessidades e anseios dessa população. A pesquisa mapeou o que os usuários esperam encontrar quando buscam ajuda, revelando a demanda por um modelo de cuidado integrado e humanizado.


As principais expectativas em relação ao atendimento são:


  • Cuidado Integral e Centralizado: Os usuários expressaram o desejo por um serviço "tudo em um", um único local onde seja possível realizar testagem para ISTs, retirar medicamentos de prevenção (PrEP/PEP), receber suporte em saúde mental, encontrar um espaço de acolhimento e obter apoio para estratégias de redução de danos ou cessação do uso.

  • Abordagem Não-Julgadora: A necessidade mais enfatizada foi a de um ambiente de acolhimento livre de julgamentos morais sobre sexualidade e uso de substâncias, onde o usuário se sinta seguro para compartilhar suas experiências.

  • Linguagem Contextualizada: Os profissionais de saúde precisam se comunicar de forma que dialogue com o universo gay, compreendendo suas especificidades e evitando jargões técnicos ou discursos moralistas que criam barreiras.

  • Suporte Contínuo: É fundamental um acompanhamento que compreenda as recaídas como parte do processo de mudança, oferecendo suporte contínuo sem abandonar ou punir o paciente caso ele não consiga manter a abstinência.

  • Acesso Anônimo: Há uma preferência por canais de primeiro contato que garantam o anonimato, como um chat via WhatsApp, onde o usuário possa tirar dúvidas e receber orientação inicial sem a necessidade de se identificar.


Com base nessas expectativas e nos dados apresentados, é possível delinear recomendações concretas para a ação em saúde pública.


Recomendações Estratégicas para Comunicação e Intervenção


As diretrizes a seguir foram construídas a partir da análise dos dados da pesquisa e visam orientar gestores, profissionais de saúde e comunicadores na criação de estratégias de prevenção, redução de danos e cuidado que sejam mais efetivas e alinhadas à realidade dos usuários de chemsex. Para auxiliar na visualização do público-alvo, os dados quantitativos e qualitativos foram sintetizados na criação de uma persona arquetípica, refletindo o perfil de maior vulnerabilidade identificado.


Identificação de Populações em Maior Vulnerabilidade


A pesquisa permitiu traçar um perfil de maior risco para o desenvolvimento do uso abusivo: homens gays e bissexuais, adultos jovens, residentes de grandes cidades, com rede de apoio social deficitária, que relatam relações majoritariamente superficiais e possuem um histórico de punição social ou familiar relacionado à sua homossexualidade. Estratégias de prevenção primária devem ser direcionadas prioritariamente a este grupo.


Estratégias de Comunicação e Abordagem


  1. Validar o Prazer: A comunicação deve abordar o tema de forma direta, reconhecendo que o uso de substâncias é, em muitos aspectos, prazeroso. Partir dessa validação, em vez de focar apenas nos riscos, ajuda a construir uma relação de confiança e abre portas para o diálogo sobre redução de danos.

  2. Campanhas em Mídias Sociais e Aplicativos: As ações de comunicação devem estar onde o público está. Utilizar plataformas como Instagram e Facebook, bem como os aplicativos de relacionamento, é essencial para alcançar essa população de forma eficaz.

  3. Uso de Influenciadores e Pares: Envolver influenciadores digitais da comunidade LGBTQIA+ e ex-usuários (pares) para compartilhar experiências, informações e estratégias de cuidado pode ter grande impacto. O modelo de grupos de apoio como os Alcoólicos Anônimos, baseado na troca entre pares, serve como referência.

  4. Mapeamento Local de Substâncias: A comunicação deve ser adaptada à realidade de cada território. Mapear as drogas mais utilizadas e seus preços em cada localidade permite a criação de mensagens mais relevantes e específicas.

  5. Foco em Redução de Danos: Fornecer informações práticas e não-julgadoras sobre dosagens mais seguras, combinações perigosas de substâncias, sinais de overdose e estratégias de autoproteção é uma abordagem pragmática e que pode salvar vidas.


Estruturação dos Serviços de Saúde


  • Parcerias Estratégicas: Os serviços de saúde devem colaborar com organizações que já são portas de entrada para muitos usuários, como os Narcóticos Anônimos (NA) e os Centros de Atenção Psicossocial - Álcool e Drogas (CAPS AD).

  • Oferta de Testagem Rápida: Disponibilizar testes rápidos de ISTs nos serviços de acolhimento é uma forma de integrar o cuidado e atender a uma demanda clara dos usuários.

  • Campanhas de Prevenção de ISTs: É necessário desenvolver campanhas de prevenção de ISTs focadas especificamente no público que pratica chemsex, abordando os riscos e as estratégias de prevenção dentro desse contexto.


A implementação dessas recomendações pode transformar a resposta da saúde pública ao fenômeno, tornando-a mais acolhedora, eficaz e alinhada às necessidades reais dos usuários.


Conclusão e Direcionamentos Futuros


Este relatório demonstra que o chemsex é um fenômeno complexo e multifatorial, profundamente entrelaçado com vulnerabilidades sociais, estigmas e a busca por prazer e conexão. Sua abordagem exige uma resposta de saúde pública integrada, humanizada e, acima de tudo, livre de julgamentos. É imperativo combinar estratégias de redução de danos com o fortalecimento de redes de apoio social e de saúde mental, reconhecendo que a solução não está apenas na cessação do uso, mas na construção de ambientes onde o prazer e a sexualidade possam ser vivenciados de forma segura e saudável.


A pesquisa que fundamenta este documento, embora pioneira, apresenta limitações que devem ser consideradas:


  • A predominância de respondentes da região Sudeste limita a generalização dos dados para todo o território nacional.

  • A dificuldade de recrutamento de participantes em aplicativos de relacionamento, devido ao alto custo de anúncios, pode ter gerado um viés na amostra.

  • O fenômeno do poliuso, embora identificado como prevalente, necessita de um mapeamento mais aprofundado para compreender as combinações de substâncias e seus efeitos específicos.


Para avançar no conhecimento e aprimorar as intervenções, sugere-se que pesquisas futuras se concentrem nos seguintes eixos:


  • Realizar estudos qualitativos e longitudinais para aprofundar a compreensão das trajetórias de uso e dos processos de mudança.

  • Mapear os preços e a disponibilidade das diferentes substâncias nos territórios brasileiros, analisando seu impacto nos perfis de consumo.

  • Testar a eficácia de estratégias de prevenção e autoproteção já validadas em outros países, como a Austrália, adaptando-as ao contexto brasileiro.

  • Explorar a aplicação de abordagens comportamentais, como o manejo de contingências, e o desenvolvimento de grupos de apoio entre pares como estratégias de cuidado.



 
 
 

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