Neon Cunha: "Mulher ou Morte" e a Revolução pelo Direito de Existir
- Synô Milía (Multiverso)

- 26 de jan.
- 4 min de leitura
Atualizado: 28 de jan.
Usamos palavras como "privilégio", "identidade" e "direito" todos os dias, muitas vezes sem refletir sobre o peso que elas carregam. Mas o que acontece quando uma vida inteira nos força a reexaminar cada uma delas? Neon Cunha (mulher, negra, ameríndia, transgênera e, como ela faz questão de dizer, filha de sua mãe) é uma pensadora cuja jornada de vida transforma conceitos abstratos em experiências viscerais e, por vezes, chocantes.
Suas histórias não são apenas relatos; são lições profundas sobre sobrevivência, amor e a luta incansável pela própria humanidade. Prepare-se para ver o mundo de uma forma diferente.
Privilégio é aquilo com que você não precisa se preocupar
Para Neon, a definição de privilégio é brutalmente simples: não é sobre ter mais, mas sobre a ausência de preocupações que outras pessoas enfrentam a cada minuto. É não ser seguido por um segurança em um supermercado. É não ter que pensar duas vezes sobre a roupa que vai usar para pegar um ônibus à noite, temendo pela própria segurança.
Ela aponta como o Brasil construiu uma estrutura perversa que confunde deliberadamente direitos básicos com concessões. O direito de existir, de ter um nome, de andar na rua sem medo, é tratado como um benefício que alguém, em uma posição de poder, pode ou não conceder.
aqui nesse país resolveram confundir direitos com privilégios né e a e a estrutura perversa dessa pessoa que trata privilégio como direito é justamente não permitir que o outro acesse ao direito
A sobrevivência pode ter o gosto de papel
Uma das histórias mais viscerais de Neon revela a face mais crua da pobreza. Estudando em um colégio técnico privado de Publicidade, ela só tinha dinheiro para pagar a mensalidade. Faltava para o transporte e, principalmente, para a comida. A solução que encontrou para aplacar a fome foi comer folhas de seu caderno.
Em um mecanismo de sobrevivência psicológica, ela associava o sabor do papel ao do repolho, um alimento que gostava. Anos mais tarde, ao lado de sua mãe no leito do hospital, Neon compartilhou pela primeira vez essa memória dolorosa. A resposta de Dona Salete ressignificou tudo: ela revelou que, naquele mesmo período, uma bolsa de estudos que Neon não sabia que tinha estava, na verdade, alimentando seus irmãos. A fome de Neon garantia que sua família não passasse fome, um sacrifício silencioso de profundidade inimaginável.
O amor de uma mãe pode ser o maior ato de revolução
A figura central na vida e na força de Neon é sua mãe, Dona Salete. O fascínio era tão grande que, em suas memórias de infância, Neon sentia que "alguém tinha diminuído a intensidade da luz" da casa quando sua mãe saía para trabalhar.
Foi Dona Salete quem a reconheceu e a afirmou como menina desde os dois anos e meio de idade. Esse amor não era abstrato. Quando as agressões do pai se intensificavam, era Dona Salete quem a levava junto para as faxinas, um ato silencioso de proteção que a mantinha segura em um mundo que faria de tudo para negar sua verdade. Foi ela quem a introduziu às matrizes africanas, que se tornariam a base de sua resiliência. Para Neon, sua existência é um reflexo direto do amor e da coragem de sua mãe.
a culpa todo se vocês quiserem realmente criticar uma mulher negra e tran como eu a culpa é da dona Salete. Ela que gestou, ela que botou no mundo, ela que era incrível que eu me inspirava.
O corpo não se maltrata: é um instrumento sagrado
Desde a infância, Neon foi constituída nos terreiros de Candomblé com sua mãe. Lá, ela aprendeu a filosofia que se tornaria um pilar para sua saúde mental diante das inúmeras violências que sofreu — dos espancamentos do pai ao racismo e à transfobia da sociedade. O conceito fundamental que a guiou foi: o corpo é sagrado e não deve ser violado.
Essa visão permitiu que ela ressignificasse a dor. As agressões não podiam destruir sua essência, pois seu corpo era um instrumento, uma ferramenta sagrada para sua identidade e espiritualidade. Essa crença a ajudou a suportar o insuportável, transformando o que era para ser destruição em um ato de resistência.
eu aprendi com os terreiros de candomblé que o corpo não se maltrata o corpo é instrumento de orixá o corpo não se maltrata o corpo não se viola o corpo é instrumento do gênero.
A luta por um nome é a luta pela própria humanidade
Quando decidiu retificar seu nome e gênero, Neon se recusou a seguir o caminho padrão: apresentar laudos médicos que a tratavam como doente. Ela transformou seu processo judicial em um "projeto político". Em um relato publicado na Folha de S. Paulo com o título "Mulher ou Morte", ela argumentou que a morte social, causada pela omissão do próprio Estado, já era uma realidade imposta.
O resultado foi histórico. Sua sentença se tornou a primeira no Brasil a se basear exclusivamente no direito constitucional ao autorreconhecimento, sem a exigência de laudos patologizantes. Isso abriu um precedente fundamental para milhares de pessoas trans no país.
Essa luta pelo nome se conecta diretamente com sua primeira lição: a humanidade não é um privilégio a ser concedido por outros, mas um direito inalienável que deve ser reivindicado. Ser chamada por seu nome é o primeiro passo para ser reconhecida como humana.
A Beleza da Transição
A jornada de Neon Cunha nos ensina que a identidade é um direito a ser afirmado e que a liberdade é uma construção diária, feita de dor, beleza e resistência. A prova mais dolorosa e bonita disso talvez esteja na sua relação com o pai. Atingido pelo Alzheimer, ele oscila: nos momentos de lucidez, os olhos brilham ao ver a filha que ama; na confusão da doença, ressurge o ódio pela "bicha". A transição, aqui, não é um final feliz, mas a escolha consciente de Neon de se apegar à beleza desses breves instantes de reconhecimento.
A história de Neon nos deixa com uma reflexão profunda. Afinal, o que a vida faz com a gente e o que escolhemos fazer com a beleza e a dor dessa jornada?




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